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Rodoviária é também centro comercial

Há coisa de dez anos, o serviço interno e internacional de ônibus na entrada e saída de Montevidéu, capital do Uruguai, era caótico. O problema era sério porque o ônibus é o meio mais importante de transporte público num país em que o grande número de pequenas cidades e povoados torna as viagens aéreas comerciais economicamente inviáveis. Além disso, os ônibus uruguaios transportam não apenas passageiros, mas também pequenas cargas.

O problema se devia à não-existência de uma rodoviária em Montevidéu. As mais de 30 empresas de ônibus operavam a partir de "terminais" de meio-fio ao ar livre, muitas vezes nas ruas principais, em mais de 20 locais diferentes da cidade.

"Não havia conexões de ônibus", relembra Luis Muñoz, na época diretor de uma das maiores empresas de ônibus. Quem precisava se transferir de uma linha para outra tinha de caminhar várias quadras ou até mesmo fazer a travessia para outra parte da cidade.

"Tudo era muito complicado – para os turistas que tinham de pegar outro ônibus e para as pessoas que precisavam enviar pacotes para outros locais diferentes", diz Muñoz. Além disso, os grandes ônibus de passageiros criavam problemas de tráfico e poluição. "Estávamos diante de um caso de emergência nacional", declara.

Muñoz e colegas de outras oito empresas de ônibus decidiram então formar um grupo para pressionar o governo a construir um terminal rodoviário. Mas de imediato eles enfrentaram o primeiro obstáculo: os estudos iniciais indicaram que esse terminal não seria economicamente viável por si próprio. Precisava de algo mais.

 Coreografia do tráfego: Os controladores de tráfego do terminal Tres Cruces usam software projetado para aeroportos para dirigir o fluxo diário de 1.000 ônibus que entram e saem das 33 raias de embarque e desembarque.

O grupo procurou então Luis Lecueder, incorporador bem-sucedido de centros comerciais. Lecueder propôs uma combinação de terminal rodoviário com centro comercial: um conceito misto nunca antes tentado na América Latina.

Fez-se uma pesquisa entre os passageiros de todas as linhas de ônibus do país. Os resultados indicaram que a idéia funcionaria se o centro comercial incluísse os tipos de loja e restaurantes que os viajantes desejavam.

As nove empresas de ônibus, juntamente com a firma de Lecueder e dois investidores chilenos, partiram para um empreendimento comum, a que deram o nome de Gralado. Em licitação pública, o Ministério de Transportes e Obras Públicas do Uruguai outorgou à Gralado a concessão de operar o terminal por 30 anos e o centro comercial por 50.

Mas o financiamento de um projeto de US$18,5 milhões era problemático. Os bancos privados estavam cépticos. Mas um encarregado de investimentos da Corporação Interamericana de Investimento, Roldán Trujillo, ficou interessado. Ele estava convencido de que o projeto seria bom para Montevidéu e que, além disso, daria lucro.

Em 1992, a CII, membro do Grupo do BID para o setor privado, concordou em emprestar à Gralado US$4,5 milhões, consorciar um empréstimo "B" de US$6,6 milhões por meio de seus programas de co-financiamento e fazer um investimento de capital de US$300.000 na empresa. Os sócios da Gralado entraram com o restante do dinheiro.

Construído em quatro quadras de terreno perto do centro de Montevidéu, o terminal rodoviário e o centro comercial Tres Cruces foram inaugurados em 1994. Trata-se de um dos terminais de ônibus mais modernos das Américas. Desde o início, foi um negócio rendoso para seus investidores, passando a ser considerado um modelo de gestão de serviços públicos pelo setor privado.

As 90 lojas e restaurantes de Tres Cruces estão todas alugadas e os 1.000 ônibus que entram e saem de suas pistas de embarque e desembarque todos os dias são recebidos e despachados com a precisão de um aeroporto. De fato, três controladores em uma torre que domina o terminal de Tres Cruces dirigem o movimento dos ônibus com um software de computador projetado para o controle de tráfego de aeroportos.

Um dos arquitetos do terminal, Oscar Carlazzoli, lembra um dia de eleições em que 1.500 ônibus passaram por Tres Cruces em 24 horas – mais de um por minuto. "A visão da movimentação desses ônibus dava a impressão de um balé mecânico", comentou.

O terminal Tres Cruces é como uma cidade dentro de uma cidade. Na média, 45.000 pessoas passam por ele todos os dias -- 30.000 como passageiros de ônibus e as 10.000 restantes para comprar em suas lojas ou em busca de um local para comer alguma coisa. O terminal oferece um centro médico com médico e enfermeiro 24 horas por dia, uma agência de correios, um posto da companhia telefônica com capacidade para chamadas locais e de longa distância, um banco, uma casa de câmbio abertos das 8:00 às 23:00, guarda-volume dia e noite, um estande de informações turísticas do governo, restaurantes e uma área com restaurantes e lanchonetes. O terminal emprega cerca de 1.500 pessoas.

"Existem capitais de províncias do Uruguai com menos habitantes do que as pessoas que circulam por aqui diariamente", declara Carlos Gutiérrez, gerente do terminal e das operações de Tres Cruces. "Mais de um milhão de pessoas passa por este terminal por mês!"

Em 1998, a CII vendeu suas ações no empreendimento com um lucro de 45% anualizado sobre seu investimento. O lucro do investimento da CII em ações é aplicado em outros projetos. "Este projeto trouxe vantagens para ambos os lados", disse Trujillo, hoje chefe da Divisão de Financiamento Corporativo da CII. "Havia uma demanda reprimida da parte das empresas de ônibus, que necessitavam de uma solução para tamanho caos, e da parte dos passageiros, que necessitavam de melhores serviços. O projeto foi bem concebido e bem projetado."

Em outubro de 1999, Tres Cruces entrou na Internet com o seu website próprio (www.trescruces.com.uy), oferecendo rotas e horários de ônibus e informações sobre as lojas de seu centro comercial, inclusive das promoções com vendas especiais. De acordo com Gutiérrez, o website conterá informações sobre as mais de 30 empresas de ônibus do Uruguai, incluindo pontos de partida e destino e horários de saída e chegada. As informações ajudarão as pessoas que chegam de outros países e se dirigem a cidades do interior do Uruguai a programar as melhores conexões de ônibus. A meta final é o website lidar com as reservas de passagens.

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