- A infraestrutura social resiliente é essencial para proteger vidas e garantir a continuidade dos serviços básicos diante de inundações e outros eventos extremos.
- A gestão do risco de inundações deve ser incorporada desde as etapas iniciais do projeto para reduzir vulnerabilidades, melhorar o desempenho e aumentar a vida útil da infraestrutura.
- Investir em infraestrutura resiliente é uma decisão social e financeira inteligente, pois reduz perdas, diminui os custos de recuperação e fortalece o desenvolvimento de longo prazo.
A infraestrutura social resiliente já não é opcional: é essencial para proteger vidas e manter serviços básicos. Isso é demonstrado por duas iniciativas em andamento do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) no Brasil, nas cidades de Porto Alegre e Manaus, que buscam fortalecer sua infraestrutura contra inundações com apoio técnico e financeiro do Banco.
Em maio de 2024, o Rio Grande do Sul sofreu a pior inundação em 80 anos: mais de 1,4 milhão de pessoas foram afetadas e cerca de 600 mil ficaram desalojadas, de acordo com o Center for Disaster Philanthropy. Em Porto Alegre, o nível do rio Guaíba atingiu 5,30 metros, o maior nível desde 1941, segundo a agência Reuters. Manaus consolidou-se como a cidade brasileira com mais alertas de risco de desastres em 2024 no país, registrando 50 notificações, conforme o portal G1.
A magnitude desses impactos ressalta a urgência de que os governos fortaleçam a resiliência da infraestrutura diante desse tipo de desastre. Isso implica investir em infraestrutura que permita que escolas, centros de saúde e espaços públicos continuem funcionando em condições extremas. Essa infraestrutura social resiliente é, portanto, imprescindível para proteger vidas e garantir a continuidade dos serviços.
Para isso, é fundamental incorporar a gestão do risco hidrometeorológico desde as etapas mais iniciais do desenho e do planejamento. Esse é um esforço que impulsionamos no BID em nossos projetos com governos locais e estaduais. Em particular, promovemos a integração de critérios de resiliência em obras sociais, a análise de riscos e o fortalecimento institucional para enfrentar inundações cada vez mais frequentes e severas.
A incorporação da gestão do risco hidrometeorológico no desenho da infraestrutura deve distinguir exposição (estar em áreas suscetíveis a ameaças) de vulnerabilidade (as condições que aumentam a suscetibilidade ao dano). Essa precisão conceitual orienta decisões táticas e orçamentárias mais eficazes.
Projetar com resiliência significa: prever a inundação antes que ela ocorra; considerar as lições aprendidas em eventos anteriores; elevar o nível dos pisos antes que sejam inundados; escolher materiais que resistam onde a madeira se deteriora e o concreto apresenta fissuras; e pensar em fontes alternativas de água, energia e comunicações quando o fornecimento da cidade falha.
Mas também significa capacitar as comunidades locais e os governos para supervisionar, cuidar e adaptar essas infraestruturas de forma contínua, porque na resiliência a responsabilidade deve ser compartilhada.
Para que a infraestrutura social possa resistir a inundações cada vez mais frequentes, não basta identificar riscos: é necessário traduzir essas informações em decisões concretas de projeto, construção e manutenção. Descrevemos, a seguir, algumas estratégias que podem funcionar:
- Utilizar dados para orientar a localização de serviços públicos: Modelos hidrológicos, mapas de inundação e estudos geotécnicos orientam onde instalar escolas e centros de saúde para que permaneçam operacionais após chuvas extremas. É prioritário coordenar visitas de campo para validar informações coletadas.
- Proteger os serviços críticos: Garantir acessibilidade, elevar o nível do piso e posicionar equipamentos essenciais acima dos níveis de risco é uma precaução que, no papel, pode parecer um detalhe, mas representa, na prática, a diferença entre um centro de saúde fechado ou em funcionamento durante momentos de crise.
- Adaptar os materiais ao clima: Em condições de alta umidade, soluções como coberturas ventiladas e revestimentos com barreiras de vapor aumentam a durabilidade e reduzem os custos de manutenção ao longo do ciclo de vida.
- Incorporar soluções baseadas na natureza (SbN): Podem ser implementadas soluções como jardins de chuva, bacias de retenção e superfícies permeáveis, que complementam a infraestrutura cinza e melhoram o microclima. Esses tipos de soluções não são apenas dispositivos técnicos: tornam-se espaços de convivência que também ajudam a drenar a água de uma cidade.
- Integrar a manutenção em todas as etapas do projeto: Capacitar equipes locais para o monitoramento e a manutenção preventiva assegura que a infraestrutura opere de maneira segura e sustentável ao longo do tempo. Essa atividade, muitas vezes não priorizada por órgãos gestores, garante que a infraestrutura resiliente não apenas seja entregue, mas também funcione de forma segura no longo prazo, reforçando mais uma vez o ponto de que a responsabilidade deve ser compartilhada.
Após a inundação de 2024, Porto Alegre avança na execução da primeira obra de sua operação apoiada pelo BID: a construção do CRAS Glória, o Centro de Referência de Assistência Social, um equipamento para atendimento comunitário. As análises de risco climático e geotécnico orientam tanto sua realocação quanto seu novo projeto arquitetônico, que incorpora critérios de resiliência como a elevação do nível do solo para reduzir a exposição a inundações. Baseadas em visitas de campo, mapas de inundação, modelos hidrológicos e estudos do solo, essas decisões garantem que o centro não seja localizado simplesmente onde haja espaço disponível, mas onde possa continuar funcionando mesmo após chuvas extremas.
Com o apoio do BID, a cidade de Manaus, capital do Amazonas, planeja realizar investimentos em infraestrutura que nascerão adaptados a cheias e estiagens extremas. Já foram incorporadas, desde o projeto, soluções específicas, como coberturas ventiladas, revestimentos com aditivos impermeabilizantes e caixilhos de portas e janelas resistentes à umidade. O objetivo é aumentar em até 40% a durabilidade das construções e reduzir os custos de manutenção ao longo de sua vida útil. Isso é crucial em um território onde a umidade extrema representa um desafio para qualquer material.
Enquanto Porto Alegre já implementa redesenhos técnicos de equipamentos sociais incorporando critérios de resiliência desde o traçado arquitetônico, Manaus encontra-se na fase de preparação da operação, planejando infraestruturas que nascerão preparadas para enfrentar inundações e umidade permanente. Em ambos os casos, em diferentes regiões do Brasil, o objetivo é proteger vidas e garantir a continuidade dos serviços.
Investir em infraestrutura resiliente não apenas contribui para a proteção de vidas e ativos físicos das cidades, mas também representa uma opção financeira inteligente para os tomadores de decisão.
Incorporar estratégias de resiliência reduz de maneira significativa os custos de reparação e reconstrução após desastres, o que se traduz em um uso mais eficiente dos recursos públicos e privados, permitindo que as economias sejam redirecionadas para novos projetos de desenvolvimento social.
Diante disso, o BID acompanha governos locais e estaduais por meio da análise de risco, do projeto resiliente, do fortalecimento institucional e do acesso a soluções inovadoras de financiamento. Além disso, impulsiona agendas regionais que abrangem a preparação, resposta e recuperação diante de desastres, a promoção de capacidades técnicas, a articulação multissetorial e o desenvolvimento sustentável de infraestruturas e serviços públicos. Um exemplo desses esforços é o programa regional do Grupo BID Preparados e resilientes nas Américas, projetado para melhorar e aumentar a resiliência frente a desastres na América Latina e no Caribe (ALC).
Em síntese, investir em resiliência é uma decisão estratégica que protege vidas, reduz perdas e melhora a qualidade de vida da população.
Para aprofundar diretrizes técnicas aplicáveis aos projetos e à adaptação de infraestrutura social, recomendamos as seguintes publicações:
- Escolas verdes, com diretrizes para o proejto de infraestrutura escolar sustentável, de baixa emissão de carbono e resiliente;
- Edifícios verdes, que oferece orientações para incorporar e contabilizar medidas de mitigação e adaptação às mudanças climáticas;
- Projeto e construção de hospitais, com recomendações para melhorar a gestão de projetos de infraestrutura no setor de saúde.