- A internacionalização pode aumentar a produtividade e fortalecer as capacidades empresariais, com benefícios para os países de origem.
- As multilatinas operam em 116 países e setores diversos, mas enfrentam barreiras de financiamento, regulamentação e falta de apoio para o acesso a novos mercados.
- Políticas públicas podem ser catalisadoras, especialmente para empresas de médio porte com alto potencial, mas menor capacidade organizacional.
As empresas latino-americanas expandem cada vez mais suas operações para além de suas fronteiras. Atualmente, as multilatinas possuem subsidiárias em mais de 116 países. No entanto, surge uma pergunta crucial: o investimento de suas empresas no exterior beneficia ou prejudica os países da América Latina e do Caribe (ALC)? Nosso novo estudo, “Multilatinas en Movimiento: características, motivaciones y lineamientos de política” (disponível apenas em espanhol), analisa as características e motivações dessas empresas e propõe diretrizes políticas para sua internacionalização, com o objetivo de ampliar a produtividade, gerar empregos qualificados e fortalecer capacidades locais – efeitos que a literatura econômica documentou para o investimento estrangeiro direto em geral.
Por que esse debate importa no contexto atual?
Quando uma empresa local investe no exterior, surgem temores sobre possíveis perdas de empregos, de exportações ou de know-how no país de origem. No entanto, a literatura recente reconhece que a internacionalização via investimento estrangeiro direto (IED) pode gerar ganhos de produtividade e melhorar capacidades – por meio de economias de escala, aprendizagem em mercados mais exigentes e acesso a ativos estratégicos. Esses benefícios não impactam apenas as empresas investidoras, podendo se estender também aos seus países de origem, por exemplo, por meio da transferência de conhecimentos ou da expansão de suas redes de fornecedores.
Uma vez que a internacionalização das multilatinas pode gerar benefícios em seus próprios países, é importante que se tenha uma melhor compreensão da sua evolução, para orientar o debate público e a tomada de decisões de políticas públicas. Nosso estudo oferece uma caracterização detalhada dessas empresas e dimensiona sua relevância econômica e geopolítica, ao mesmo tempo em que identifica os fatores que facilitam ou limitam sua expansão internacional.
Dez constatações-chave sobre as multilatinas
Para melhor orientar o debate público, nosso estudo caracteriza essas empresas, dimensiona sua relevância econômica e geopolítica e identifica os fatores que facilitam ou limitam a sua expansão. Trata-se de um universo amplo e heterogêneo, em que grandes conglomerados regionais coexistem com empresas de médio porte altamente especializadas, e novas empresas tecnológicas dividem espaço com outras centenárias e ancoradas em setores intensivos em recursos naturais.
A análise combina duas fontes de dados: uma análise de 156 multilatinas listadas em bolsa e uma pesquisa própria com empresas da região. Abaixo, resumimos as 10 principais constatações:
- Concentração geográfica: No grupo de multilatinas listadas em bolsa, foram identificadas empresas de 15 países da ALC. Mais de 85% dessas empresas estão sediadas em cinco países (Brasil, México, Chile, Argentina e Colômbia) – proporção semelhante ao peso dessas economias no PIB regional. Dessas empresas, 13% têm sua sede legal em países de baixa tributação, um fenômeno especialmente marcante entre as empresas argentinas.
- Porte relativo: As multilatinas são muito menores, em termos de emprego e vendas, do que suas contrapartes globais ou aquelas de outras regiões emergentes. As empresas do Brasil e do México são as de maior porte relativo, em consonância com o peso das suas economias.
- Diversidade setorial: As multilatinas atuam em diversas indústrias, incluindo manufatura, serviços modernos (como software) e tradicionais (como comércio), além de energia, mineração e agroalimentos. Elas também estão presentes em setores intensivos em tecnologia, como aeroespacial, telecomunicações e produtos farmacêuticos.
- Lucratividade competitiva: Os lucros variam muito entre setores. Empresas de energia e mineração, telecomunicações, transporte e logística obtêm as maiores margens. O mesmo se aplica às multilatinas de menor porte – aquelas com menos de mil funcionários. Em média, seus níveis de lucro são semelhantes aos de grandes empresas globais, medidos pelo EBITDA (indicador que mostra o lucro de uma empresa antes de impostos, juros e depreciações).
- Alcance geográfico: As multilatinas têm, em média, subsidiárias em 7,3 países (excluindo seu país de origem). Quase todas têm subsidiárias na ALC (92%) e uma proporção muito alta também está presente na América do Norte (58%), especialmente nos EUA. Sua presença também é grande na Europa (41%) e relativamente menor na Ásia (28%). No total, essas empresas estão localizadas em 116 países, com EUA, Peru e Colômbia liderando o ranking de países com o maior número de subsidiárias. As empresas com maior grau de internacionalização (medida pela diversificação geográfica) são as do Brasil (por país) e as de manufatura (por setor).
- Motivações estratégicas: As principais motivações para sua expansão internacional são encontrar novos mercados, consolidar sua presença em regiões cultural ou geograficamente próximas e aproveitar capacidades nos mercados de destino, que lhes permitam operar com maior eficiência. Muitas empresas também destacam que isso as ajuda a reduzir sua exposição a ambientes de instabilidade macroeconômica, entraves regulatórios e políticas voláteis em seus países de origem.
- Barreiras à internacionalização: Entre as principais barreiras à internacionalização estão as regulamentações restritivas e o risco jurídico nos países de destino, as dificuldades de acesso a financiamento e a falta de serviços de apoio para entrar nesses mercados.
- Compromisso ambiental: A grande maioria das multilatinas adota pelo menos uma iniciativa ambiental. Programas de sustentabilidade ambiental (gestão de resíduos, eficiência energética e redução de emissões, entre outros), investimentos verdes e publicação de indicadores ou relatórios de sustentabilidade são as ferramentas mais utilizadas nessa área. Por outro lado, a emissão de instrumentos financeiros “verdes” é relativamente pouco difundida. No caso de certificações ambientais, a única com um nível de adoção relativamente alto é a ISO 14001. A proporção de empresas que publicam informações sobre sustentabilidade (bem como das que auditam externamente essas informações) é semelhante à de empresas globais com níveis de receita mais altos.
- Responsabilidade social e governança corporativa: Uma proporção muito alta de empresas (93%) informa haver implementado políticas de responsabilidade social corporativa e desenvolvimento comunitário (como programas para garantir boas condições de trabalho, investimentos em moradia social, programas de desenvolvimento de comunidades rurais e campanhas de alfabetização). Uma proporção idêntica afirma dispor também de políticas formalizadas de governança corporativa, que incluem códigos de ética, estatutos de proteção aos direitos dos acionistas, divulgação e transparência das informações da empresa.
- Diferença de gênero: A porcentagem de mulheres em cargos de direção nas multilatinas é relativamente baixa. Em 25% das empresas pesquisadas não há sequer uma mulher no conselho de administração, e em 34% delas também não há mulheres em cargos de alta gerência. Apenas em quatro dessas empresas (2,6%) o cargo de diretor executivo/CEO é ocupado por uma mulher. No entanto, esses dados não diferem muito daqueles de grupos semelhantes de empresas listadas em bolsa. Por outro lado, quase 60% das empresas adotam algum tipo de iniciativa vinculada à igualdade de gênero. A existência de pelo menos uma mulher na alta gerência, no conselho de administração ou como CEO de uma multilatina está fortemente associada à existência de políticas de inclusão de gênero.
Rumo a uma agenda de políticas e pesquisa
Evidências internacionais sugerem que ambientes regulatórios estáveis, programas de financiamento competitivo, serviços de facilitação e apoio para acesso aos mercados de destino e mecanismos de coordenação público-privada são elementos essenciais para promover a internacionalização das multilatinas. As políticas públicas podem desempenhar um papel catalisador, especialmente no caso de empresas de médio porte com alto potencial, mas menor capacidade organizacional, que enfrentam um elevado grau de incerteza em seu processo de expansão.
No momento, são relativamente poucos os países da ALC que adotam mecanismos explícitos de apoio ao IED, embora a questão tenha sido gradativamente inserida na agenda política da região. Aprofundar a agenda de pesquisa sobre o tema pode conduzir a melhores decisões nessa área.
Entre os pontos centrais dessa agenda, podemos mencionar:
- Estudos longitudinais a nível de empresa, que permitam observar trajetórias de internacionalização por meio de IED, bem como a transição entre exportação e IED e sua ligação com a produtividade.
- Análise do impacto do IED nas áreas de inovação tecnológica, adoção digital e desenvolvimento de capacidades dinâmicas.
- Avaliações do vínculo entre internacionalização e mercado de trabalho, incluindo distribuição de renda e qualidade do emprego.
- Pesquisas sobre o papel das agências de promoção de exportações e investimentos e sua articulação com estratégias de negócio.
O caminho à frente
Compreender as motivações, os impactos e as limitações dos IEDs da ALC não é apenas um imperativo acadêmico, mas também uma ferramenta essencial para repensar as estratégias de desenvolvimento produtivo, regionalização e inserção internacional dos países da região. As multilatinas representam uma manifestação de adaptação ao ambiente global, bem como uma oportunidade para ampliar capacidades, sofisticar estruturas produtivas e gerar círculos virtuosos de aprendizagem empresarial. Contudo, necessitam de ambientes financeiros, institucionais e políticos capazes de acompanhar – em vez de dificultar – sua consolidação.
Este estudo busca suscitar novas perguntas e oferecer evidências sólidas para apoiar decisões públicas e privadas voltadas para uma internacionalização produtiva mais inclusiva, resiliente e transformadora.
Para saber mais, baixe o estudo completo: Multilatinas en Movimiento: características, motivaciones y lineamientos de política.