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O trilema amazônico: por que a economia, a natureza e as pessoas devem avançar juntas

Análise Econômica O trilema amazônico: por que a economia, a natureza e as pessoas devem avançar juntas A Amazônia precisa de respostas integradas para enfrentar desafios profundamente interconectados e salvaguardar seu futuro — que é também o nosso. Fev 4, 2026
The bow of a boat heading down an Amazonian river.
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Ideias-chave
  • A Amazônia desempenha um papel fundamental na economia e nos ecossistemas da região, mas enfrenta sérios desafios ambientais, de desenvolvimento e de crescimento, o que constitui um verdadeiro trilema amazônico.
  • É essencial explorar o mapa desse triplo desafio, que evidencia uma distribuição desigual na Amazônia, bem como a necessidade de coordenar esforços e fortalecer capacidades.
  • Nesse contexto, é urgente aproveitar a janela de oportunidade que esse complexo trilema amazônico oferece para avançar rumo a soluções integradas e um futuro de prosperidade e resiliência.
     

A cada minuto que passa, a Amazônia perde uma área de floresta equivalente a dois campos de futebol. Muitas vezes lemos ou ouvimos dados como esse, que certamente têm base empírica. No entanto, a degradação ambiental dessa região essencial é frequentemente apresentada como um problema isolado, desvinculado dos desafios do desenvolvimento humano e econômico. Além disso, a preservação da Amazônia costuma ser vista, nessa perspectiva, como oposta ao próprio desenvolvimento. A realidade da região amazônica, porém, conta uma história bem diferente: o crescimento econômico, a proteção ambiental e o bem-estar humano caminham juntos.

As evidências reunidas em nossa publicação mais recente apontam nessa direção: é impossível perseguir separadamente o crescimento econômico, a preservação ambiental e a melhoria dos meios de vida na Amazônia. São temas codependentes. Estamos diante de um verdadeiro trilema amazônico (Gráfico 1), com implicações de grande alcance, pois o que ocorrer na Amazônia influenciará decisivamente a biodiversidade, os ecossistemas e a vida de milhões de sul-americanos e de pessoas em todo o mundo.

Apesar de sua complexidade, esse trilema abre uma janela de oportunidade para impulsionar abordagens integradas e transversais que promovam mudanças duradouras tanto para a região quanto para o planeta.

Figure 1
As contribuições econômicas, sociais e ecológicas da Amazônia

Segundo estimativas, 70% do PIB da América do Sul é gerado em áreas que recebem água proveniente da selva amazônica. Por outro lado, a contribuição econômica da Amazônia é prejudicada por sua baixa diversificação e conectividade. Sua economia depende fortemente da agricultura e da mineração, setores que consomem grandes quantidades de recursos naturais. A isso somam-se as deficiências de infraestrutura, que, por sua vez, limitam o crescimento. É ilustrativo o caso da Colômbia, cuja região amazônica contribui com menos de 1% do PIB nacional.

A dimensão ambiental do trilema apresenta um panorama preocupante. A Amazônia contém 120 bilhões de toneladas métricas de carbono e abriga 30% da biodiversidade mundial. No entanto, entre 2001 e 2024, perdeu 67 milhões de hectares de floresta — uma área equivalente ao Paraguai e ao Equador juntos. A degradação ambiental, impulsionada pelo desmatamento, pela mineração e por outras práticas extrativas, está corroendo esse capital natural e submetendo a bacia amazônica a uma crescente pressão ambiental. Com o tempo, a floresta tropical pode perder sua capacidade de se sustentar, privando o planeta de um regulador climático essencial.

No aspecto social, a Amazônia abriga mais de 47,4 milhões de pessoas e 379 grupos indígenas e étnicos que falam mais de 240 idiomas. Muitos desses grupos possuem um conhecimento profundo da floresta tropical e de seus recursos, o que pode ser decisivo para combater o desmatamento e promover o desenvolvimento sustentável. No entanto, essas populações apresentam maiores índices de pobreza e menor acesso a serviços básicos.

Por exemplo, apenas 39% dos lares ameríndios da Guiana tiveram melhorias nos serviços de água e saneamento, em comparação com 95% dos lares em nível nacional. A taxa de pobreza estimada da Amazônia chega a 37%, ou seja, 6,6 pontos percentuais acima da média nacional dos países amazônicos. A taxa de pobreza é ainda maior em algumas comunidades rurais e étnicas.
 

O mapa dos problemas de desenvolvimento da Amazônia: uma distribuição desigual

Os problemas da região não se distribuem de forma uniforme. Estima-se que cerca de 661.000 habitantes vivam em áreas seriamente afetadas pela falta de oportunidades econômicas; mais de 760.000 pessoas vivam em territórios com graves problemas de conservação ambiental; e quase 6 milhões estejam em áreas com grandes carências de desenvolvimento humano (Gráfico 2. Bem-estar econômico).

Nosso estudo revela que os principais problemas de conservação ambiental se concentram nas áreas centrais, especialmente ao redor do rio Amazonas e ao longo da fronteira entre Brasil e Bolívia (Gráfico 3. Conservaçao ambiental). Em contrapartida, as maiores lacunas de desenvolvimento econômico e humano concentram-se especialmente no sudeste e no norte da região amazônica (Gráfico 4. Desenvolvimento humano).

People disembark from a ferry onto the riverbank
O que fazer diante desse trilema amazônico?

A boa notícia é que é possível agir e implementar políticas que atendam aos três objetivos inter-relacionados do trilema. Naturalmente, trata-se de um processo custoso e que exigirá maiores esforços de coordenação entre todos os atores presentes na região.

Manter 80% da Amazônia brasileira sob proteção, por exemplo, custaria entre 1,7 e 2,8 bilhões de dólares por ano. Para fechar todas as lacunas de desenvolvimento apresentadas no Gráfico 2 e no Gráfico 4, seriam necessários trilhões. A magnitude dessas necessidades supera amplamente os investimentos atuais.

O cenário institucional da Amazônia também é complexo e fragmentado, o que gera sobreposições frequentes e tende a reduzir o impacto do trabalho dos diferentes atores envolvidos. Por exemplo, a região amazônica conta com 99 unidades administrativas subnacionais de primeiro nível e mais de 1.500 de segundo nível.

A Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA) dispõe de uma plataforma de diálogo regional, mas suas decisões não são vinculantes, o que limita significativamente sua eficácia. Existem mecanismos de coordenação nacionais e subnacionais, mas problemas de duplicação de esforços e ineficiência são comuns. É urgente aprimorar a coordenação e fortalecer capacidades.
Então, o que podemos fazer? Nossas conclusões apontam quatro eixos de ação decisivos:

1. Fomentar a proteção ambiental ampliando e fazendo cumprir as áreas protegidas, integrando conhecimentos indígenas e investindo na adaptação climática das populações vulneráveis.

2. Promover o desenvolvimento humano melhorando o acesso à educação, saúde, água, saneamento e transporte, especialmente para grupos vulneráveis e marginalizados, e desenhando soluções adaptadas às necessidades rurais e urbanas.

3. Impulsionar o crescimento econômico investindo em inovação, conectividade e mecanismos de financiamento, bem como apoiando pesquisas e empreendimentos alinhados ao princípio do desenvolvimento sustentável.

4. Reforçar relações de confiança e estreitar a cooperação e a coordenação entre todos os atores da região. Para reduzir sobreposições e aumentar o impacto das políticas públicas, é indispensável implementar estratégias estruturais. Trata-se de fortalecer instituições, clarificar processos e mandatos, estabelecer regras claras e aprimorar o uso de dados para fundamentar políticas em evidências empíricas. Iniciativas como o programa regional Amazônia Sempre, do BID, respondem à necessidade dos países de articular respostas conjuntas frente a desafios comuns.

Os estudos são conclusivos: abordagens fragmentadas não funcionam. Somente ao enfrentar de forma conjunta os desafios econômicos, ambientais e sociais será possível evitar um agravamento da situação e avançar rumo a um futuro comum de prosperidade e resiliência.
 

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