Se não protegermos a biodiversidade teremos mais pandemias?
Análise Econômica
Se não protegermos a biodiversidade teremos mais pandemias?
São várias as maneiras pelas quais a perturbação dos ecossistemas pode acentuar as doenças infecciosas. Essas doenças podem ter consequências catastróficas.
Mai 13, 2020
As imagens recentes de golfinhos nadando perto das docas do porto de Cagliari, na Sardenha, devido ao tráfego reduzido de barcos se tornaram virais por mostrar a natureza retornando às áreas normalmente ocupadas pela atividade humana. Em Lima, um raro altonúmero de pássaros voltou às praias. Embora essas imagens possam refletir um vínculo positivo entre a natureza e a pandemia do COVID-19, a realidade é muito mais alarmante.
As doenças infecciosas vêm, principalmente, da vida selvagem e estão aumentando
As doenças infecciosas são um problema ambiental. A Organização Mundial da Saúde (OMS) mostrou que aproximadamente um quarto das mortes no mundo vem de fatores ambientais. O Centro para Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos EUA estima que três quartos das doenças novas ou emergentes que infectam seres humanos - como Ebola, Dengue, Zika ou Febre Amarela - são originárias da vida selvagem.Existem várias maneiras pelas quais a perturbação dos ecossistemas pode acentuar as doenças infecciosas. Por exemplo, estamos cada vez mais invadindo florestas tropicais que abrigam inúmeras espécies de animais; dentro delesexistem vírus potencialmente novos. Quando perturbamos e estressamos esses ecossistemas e espécies, corremos o risco de os vírus se transferirem de seus hospedeiros naturais para os seres humanos.OHIV,possivelmente, passou de chimpanzés para humanos na década de 1920, quando caçadores os matavam e os comiam na África, por exemplo. No sudeste da Ásia, o vírus Nipah surgiu dos morcegos devido à intensificação da criação de porcos. Outro estudo mostrou que um aumento de cerca de 4%no desmatamentona Amazônia aumentou a incidência de malária em quase 50%, à medida que os mosquitos transmissores de doenças prosperaram em áreas recentemente desmatadas.Essas doenças podem ter consequências catastróficas. A pandemia do COVID-19 já está causando uma trágica perda de vidas e pode custar bilhões de dólares à economia global.A conexão entre animais selvagens, doenças e pessoas não é nova. Contudo, as doenças emergentes quadruplicaram nos últimos 50 anos, em grande parte devido à fragmentação do habitat, uso da terra e mudança climática. A perda de florestas causada pela exploração madeireira, mineração, estradas, expansão agrícola, urbanização rápida e crescimento populacional aproxima as pessoas das espécies animais pela primeira vez. É provável que surjam doenças, tanto em ambientes urbanos quanto nosmais naturais, devido à maior proximidade entre pessoas, animais selvagens, animais de fazenda, e animais de estimação. A contaminação também pode aumentar a suscetibilidade a infecções virais e bacterianas. Além disso, é provável que os vírus e outros patógenos passem de animais para humanos em mercados informais que fornecem "carne fresca” às pessoas. Acredita-se que o mercado onde produtos e carne frescasão vendidos, em Wuhan, tenha sido o ponto de partida da pandemia da Covid-19.A crise climática também mudou e acelerou os padrões de transmissão de doenças infecciosas como a malária. A OMS estima que o aumento da temperatura global em 2-3ºC poderá aumentar, em cerca de 3 a 5%, o número de pessoas em risco de pegar malária. A mudança climática está minando também os determinantes sociais e ambientais da saúde, incluindo o acesso das pessoas à água potável, especialmente nas comunidades mais pobres e vulneráveis.
Proteger a biodiversidade e o clima é também proteger nossa própria saúde
O Brasil é o país que detém a maior biodiversidade do mundo: abriga de 10% a 20% do total de espécies do planeta. A região da América Latina e o Caribe detém 40% da biodiversidade mundial. Esse capital natural nos fornece bens e serviços vitais, como a água fresca que bebemos. Pagamentos por serviços ecossistêmicos podem promover o reflorestamento, reavivar a atividade econômica e melhorar o manejo florestal. As soluções baseadas na natureza também desempenham um papel crítico no enfrentamento da crise climática por meio do sequestro de carbono e do fornecimento de barreiras aos perigos naturais relacionados ao clima.No entanto, atualmente não estamos fazendo o suficiente para proteger o capital natural. Apesar dos inúmeros benefícios para as pessoas e para a economia, todos os anos, região perde a maior taxa de cobertura de árvores do mundo devido à expansão da fronteira agrícola. As decisões continuam sendo tomadas com pouca atenção às consequências para a biodiversidade.Proteger a natureza e garantir o uso sustentável dos recursos naturais poderia ajudar a prevenir a próxima pandemia. Uma combinação acertada entre proteger a natureza, utilizar os recursos naturais de forma sustentável e educar as comunidades locais sobre os perigos das doenças zoonóticas pode desempenhar um papel importante no desenvolvimento sustentável, com importantes benefícios colaterais para as pessoas, a biodiversidade e o clima.Da mesma forma, há oportunidades para catalisar os serviços de capital natural na região. Soluções baseadas na natureza e na biodiversidade são importantes para o bem-sucedido desenvolvimento de medicamentos para novos tratamentos. Estima-se que entre 50.000 e 70.000 espécies de plantas sejam colhidas para a medicina tradicional ou moderna, enquanto cerca de 50% dos medicamentos modernos foram desenvolvidos a partir de produtos naturais, os quais estão ameaçados por colheitas insustentáveis e perda de biodiversidade.Os programas de bioeconomia podem apoiar a pesquisa e o desenvolvimento desses medicamentos, além de incentivar a proteção da biodiversidade. O Laboratório de Capital Natural do BID apoia mecanismos para investir em empreendimentosde bioeconomia, assegurando, ao mesmo tempo, que as populações indígenas locais, que administram e possuem esses recursos, sejam compensadas pelo uso de material genético local.Reduzir o desmatamento e a degradação também pode trazer benefícios socioeconômicos relevantes. No Brasil, o projeto Rural Sustentável do BID beneficiou diretamente mais de 18.000 agricultores e evitou o desmatamento de 8.550 hectares. A abordagem dos riscos relacionados ao clima e a redução da degradação do solo por meio de estratégias de descarbonização de longo prazo, e soluções baseadas na natureza, podem garantir o "direito à saúde" das pessoas, conforme estabelecido no Acordo de ParisO fato de tantas pessoas terem gostado de vídeos (verdadeiros ou não) mostrando a vida selvagem retornando a áreas dominadas por humanos ilustra como as pessoas querem acreditar no poder da natureza para se recuperar. No entanto, nossa destruição e perturbação do ecossistema estão aumentando a probabilidade de mais pandemias. Se não enfrentarmos a crise climática, protegermos a biodiversidade e usarmos os recursos naturais de maneira sustentável, nós que lutaremos para nos recuperar de consequências trágicas.