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O samba do sucesso

Não há, seguramente, um menino com mais de cinco anos na favela da Serrinha, no Rio de Janeiro, que não consiga batucar o complicado ritmo sincopado do samba brasileiro. Afinal, a Serrinha reclama a honra de ser o berço do samba - a música e a dança do renomado carnaval do Rio.

Não foi por isso tão insólito que Arandi Cardoso dos Santos, que nasceu e cresceu na Serrinha, abandonasse seus planos de ser padre para tornar-se sambista e mais tarde criasse uma escola de samba para crianças. O Rio tem 77 escolas de samba, trupes de até 4.000 passistas, cantores e músicos, a maioria deles das favelas, que treinam durante o ano todo e gastam muito dinheiro em fantasias elaboradas para competir contra outras escolas de samba durante a semana do carnaval.

Arandi, conhecido carinhosamente pelo apelido de "Careca" (embora não o seja), queria aproveitar a energia e o espírito de cooperação das escolas de samba para ajudar as crianças da favela da Serrinha. Mas não foi bem sucedido. "Todas as escolas rejeitaram minha proposta."

Assim, em 1983, ele fundou no Rio a primeira escola de samba para crianças, o Clube Cultural Recreativo Escola de Samba Império do Futuro, com 250 crianças da favela da Serrinha. Hoje, a escola tem 1.200 alunos da Serrinha e de favelas vizinhas, com idades que vão dos 7 aos 17 anos. Milhares mais participam em outras nove escolas de samba para crianças fundadas desde então. As crianças têm seu próprio desfile, na terça-feira de carnaval, perante juízes. Três quartos dessas crianças juntam-se às escolas de samba do Rio depois que fazem 18 anos.

O objetivo de Careca ao fundar as escolas era duplo: ensinar às crianças as raízes africanas do samba e usar as aulas como um incentivo para manter as crianças da favela na escola comum. A regra é simples: para participar do carnaval, a criança precisa permanecer na escola e passar de ano. No ano passado, apenas 10% das crianças da Império do Futuro repetiram de ano, uma porcentagem baixa para os padrões do Rio.

"As crianças que repetem de ano são as mais tristes do mundo", diz Germinal Rodríguez, coordenador do programa para crianças em risco do Rio, financiado pelo BID, "porque o desfile é a coisa mais importante de suas vidas."

Em 1996, a escola de samba Império do Futuro utilizou US$48.000 de um subsídio de US$8 milhões do BID para comprar materiais e ferramentas para uma nova oficina de confecção de fantasias de carnaval na Serrinha. Cerca de 52 crianças estão aprendendo o ofício e algumas das melhores escolas de samba encomendaram à oficina os adereços de cabeça usados em suas fantasias.

"O dinheiro nunca chega", lamenta-se Careca. "Mas, quando vejo as crianças desfilando pelas ruas durante o carnaval, dizer que estou feliz não é suficiente para explicar o que sinto."

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