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Lições aprendidas ou lições perdidas?

Talvez o furacão Mitch tenha sido a pior tormenta de que se tem lembrança a atingir a América Central, mas para Bruce Baird e muitos outros ele é um caso nítido de déjà vu.

Baird, cidadão norte-americano que hoje é especialista em prevenção e assistência em desastres causados por inundação, estava liderando uma expedição de filmagem em Honduras em setembro de 1974 quando uma tormenta singular desabou sobre a costa norte do país. O furacão Fifi surpreendeu os meteorologistas ao "estacionar" sobre Honduras, onde despejou 65 cm de chuva em 24 horas, provocando inundações e deslizamentos que mataram cerca de 8.000 pessoas. "Aldeias inteiras foram varridas", relembra Baird, que hoje trabalha para o Escritório de Serviços de Emergência do Estado da Califórnia. "O vale de Sula tornou-se um lago gigantesco." Baird participou como voluntário do trabalho de socorro às vítimas do Fifi e posteriormente recebeu uma bolsa da Organização dos Estados Americanos para passar um ano em Honduras, documentando os esforços de resposta a desastres e de mitigação dos riscos.

"Desde o começo surgiu um debate entre o que se pode chamar de "grupo avestruz", que achava que o furacão Fifi tinha sido uma aberrração que provavelmente jamais ocorreria novamente e os que achavam que ele provavelmente se repetiria", diz Baird. Vinte e quatro anos depois, a previsão desse último grupo mostrou estar tragicamente certa. O furacão Mitch, como o Fifi, "estacionou" sobre o norte de Honduras. Despejou pelo menos duas vezes mais água, produzindo mais enchentes e deslizamentos que se estenderam mais para o interior do que os causados pela tormenta anterior, além de matar mais pessoas.

O paralelo entre essas duas tormentas e a sua relativa proximidade no tempo são um exemplo perfeito da importância de incluir os esforços de prevenção e mitigação no trabalho de reconstrução depois de um desastre natural. De acordo com Baird, nos meses seguintes ao furacão Fifi, as autoridades dentro e fora de Honduras demandaram todos os tipos de esforços de mitigação que pudessem reduzir a mortalidade e as perdas em caso de outras tormentas graves. As Nações Unidas e outras organizações internacionais financiaram diversos projetos-piloto nesse sentido, de diminuição de riscos, entre eles um que ajudava os agricultores com lavouras de subsistência localizadas em encostas íngremes a plantar árvores e escolher lavouras que restaurassem a fertilidade da terra erodida, evitando futuros deslizamentos de terra.

Mas segundo Baird, na pressa de fazer com que as plantações voltadas para a exportação voltassem a produzir e de reparar as pontes e rodovias mais críticas, deu-se pouca atenção às atividades de prevenção. "Eram inúmeros os projetos, mas não havia um programa coordenado. Como os esforços visavam resolver casos particulares, não se desenvolveu uma estratégia nacional unificada de mitigação."

Como resultado, muitas casas reapareceram às margens dos mesmos rios que antes as tinham arrastado. Muitas pontes foram reconstruídas sem as características estruturais necessárias para oferecer resistência a outra grande inundação. Muitas encostas instáveis devido ao desmatamento continuaram a ser intensivamente cultivadas. Quaisquer que tivessem sido as precauções tomadas, Mitch não teria deixado de ser uma tormenta extremamente destrutiva, mas Baird e outros especialistas em desastres acreditam que a perda de vidas e de propriedades teria sido reduzida se tivessem sido tomadas as medidas apropriadas de mitigação.

Proteção dos investimentos.
O planejamento de desastres não é um luxo que apenas os países industrializados podem se permitir. De acordo com Caroline Clarke, especialista do BID que estudou a prevenção de desastres em países em desenvolvimento, "é preciso pensar primeiro na segurança dos investimentos que serão feitos durante o período de reconstrução antes de começar a trabalhar neles". Os prédios e as instalações que foram danificados podem ser removidos para áreas de menor risco ou deixados no mesmo local -- com proteções estruturais mais fortes. Pode ser mais seguro reconstruir algumas pontes nos mesmos locais, por exemplo, desde que os pilares sejam protegido por montes de pedras que impeçam o desgaste da fundação da ponte durante grandes enchentes.

Algumas das medidas mais efetivas de mitigação estão ao alcance dos orçamentos das comunidades locais. Baird diz que toda aldeia centro-americana sujeita a inundações deveria designar uma construção ou uma elevação como abrigo. Se necessário, plataformas simples de baixo custo podem ser construídas com a mão-de-obra local, uma estratégia que já salvou inúmeras vidas nas áreas de Bangladesh sujeitas a enchentes. "Às vezes, bastam um ou dois metros de elevação para sobreviver", diz Baird. Seguindo o mesmo raciocínio, Caroline Clark sugere que as aldeias reservem as terras mais próximas do rio para hortas comunitárias ou "faixas verdes", onde seja proibido construir.

Baird também defende a criação de um sistema local de radiodifusão de informações de emergência que alcance até mesmo as localidades mais isoladas com informações meteorológicas atualizadas. "Existem dezenas de estações de rádio no meio rural de Honduras e toda família possui um rádio transistor", explica Baird. "É possível desenvolver um procedimento de baixo custo que use essa infra-estrutura existente para informar os moradores das aldeias sobre quando devem evacuar determinado local."

Como mais de um milhão de pessoas foram deslocadas pelo Mitch, os governos dos países afetados se encontram sob enorme pressão para encontrar novas áreas residenciais a fim de impedir que as pessoas voltem a construir em terreno perigoso. Clarke afirma que as doações dos governos para a aquisição de terra, deslocamento e construção básica podem ser condicionadas para atuar como incentivos que mantenham as pessoas longe das áreas de perigo.

As comunidades locais, porém, em geral precisam de ajuda na avaliação dos riscos e na identificação das medidas de mitigação de baixo custo. É aqui que se torna essencial o apoio do governo, na forma de avaliações detalhadas de vulnerabilidade ao perigo realizadas por profissionais. Baird e Clarke acreditam que esses estudos devem ser conduzidos em cada aldeia, distrito e cidade sob coordenação nacional, para que todos os investimentos fundamentais para a reconstrução sejam feitos tendo em vista a redução do risco.

Quando se constroem diques em determinado ponto de um rio, isso acaba afetando o volume de água durante uma enchente em algum outro ponto a jusante", diz Clarke. "A coordenação dos esforços é crítica."

O grau de sucesso desta vez dependerá grandemente dos governos da região, de suas agências de reconstrução e da comunidade internacional de doadores. Baird e Clarke se declaram impressionados com os esforços dos governos individuais até o momento e aplaudem os planos para o fortalecimento dos recursos do CEPREDENAC, órgão que desde 1988 vem trabalhando para coordenar o planejamento da mitigação de desastres entre Honduras, Nicarágua, El Salvador, Guatemala, Costa Rica e Panamá. "Honduras e boa parte da América Central continuarão sujeitas a inundações", diz Baird. "Cabe a todos nós assegurar que os danos não sejam de novo tão graves. Esta é uma oportunidade que têm os países da América Central de oferecer um exemplo de mitigação de desastre a toda a América Latina."
 

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