- Um estudo recente analisa como diferentes países levam serviços de saúde a comunidades remotas.
- As experiências da Austrália, Canadá, Nova Zelândia, Escócia e dos países nórdicos mostram que a distância não precisa ser um obstáculo para garantir o direito à saúde.
- O estudo examina como a transformação digital da saúde, combinada com sistemas sólidos de atenção primária, permite ampliar o acesso em territórios isolados.
Na América Latina e no Caribe, milhões de pessoas que vivem em áreas rurais ou remotas enfrentam grandes obstáculos para acessar a atenção à saúde: longas distâncias, falta de transporte, escassez de profissionais e limitações de infraestrutura. Mas esse desafio não é exclusivo da nossa região. Países com sistemas universais de saúde em outras partes do mundo também enfrentam essas barreiras e implementaram soluções inovadoras para garantir que ninguém fique para trás.
Em um estudo recente do Banco Interamericano de Desenvolvimento, analisamos as experiências da Austrália, Canadá, Nova Zelândia, Escócia e dos países nórdicos, e exploramos como a transformação digital da saúde, aliada a redes sólidas de atenção primária, tornou-se um recurso fundamental para alcançar as comunidades mais afastadas. As lições desses sistemas oferecem pistas valiosas para pensar como reduzir as lacunas em nossa região. Neste artigo de blog, resumimos os principais achados.
Em todos os países estudados, observa-se um princípio comum: usar a tecnologia como ponte e a atenção primária como base.
- Na Austrália, por exemplo, a atenção às áreas remotas se apoia em serviços como o Royal Flying Doctor Service, que leva atendimento médico e de emergência por meio de aeronaves. A isso se somam programas específicos para povos indígenas e uma forte expansão da telemedicina durante a pandemia. Além disso, foi implementada a estratégia de point-of-care, um método de rastreamento que permite detectar o Papilomavírus Humano (HPV) de forma descentralizada, por meio da autocoleta. Entre mulheres aborígenes, esse sistema alcançou níveis de adesão de 81%. Desse grupo, um quinto nunca havia realizado o exame anteriormente, um terço estava com o rastreamento atrasado e outro quarto não se lembrava de quando havia feito o exame pela última vez.
- No Canadá, o sistema público Medicare impulsionou clínicas virtuais, portais de atendimento online e unidades móveis para emergências cerebrovasculares. Um exemplo de destaque é o modelo Integrated Virtual Care (IVC), que conecta pacientes em áreas remotas a médicos de família por meio de consultas virtuais. Onde foi implementado, cerca de 70% das consultas ocorreram de forma virtual, o que significou que mais da metade dos usuários não precisou se deslocar para receber atendimento.
- A Escócia criou um Centro Nacional de Saúde e Cuidados em Áreas Remotas e Rurais, com ênfase na capacitação de equipes locais e no uso da telemedicina para aproximar especialistas.
- Os países nórdicos reforçaram a coordenação entre cuidados primários e especializados, descentralizando serviços e utilizando soluções digitais para enfrentar as dificuldades de acesso em regiões com climas extremos. Na Noruega, por exemplo, o uso da telemonitorização em pacientes com marcapasso demonstrou resultados clínicos comparáveis ao acompanhamento tradicional em consultas ambulatoriais, com níveis semelhantes de qualidade de vida, segurança e número de visitas hospitalares.
- Na Nova Zelândia, o sistema público garante atendimento quase gratuito para crianças, subsídios para doenças crônicas e populações vulneráveis, além de um forte enfoque na atenção primária como porta de entrada do sistema.
Apesar das diferenças, todas essas experiências convergem no uso de ferramentas digitais e modelos em rede para ampliar o acesso: desde consultas gerais e especializadas até apoio em saúde mental, diagnóstico remoto, aplicativos móveis para o acompanhamento de doenças crônicas e sistemas de coordenação entre diferentes níveis de atenção.
No estudo, identificamos pontos fortes claros dessas estratégias: maior cobertura em áreas remotas, integração de serviços, redução do tempo de resposta em emergências e altos níveis de satisfação quando as tecnologias são bem adaptadas.
Mas também apontamos dificuldades que limitam seu impacto, como conectividade insuficiente, lacunas em alfabetização digital e em saúde, preferência cultural pelo atendimento presencial, infraestrutura desigual e alta rotatividade de profissionais de saúde em áreas isoladas.
Ainda assim, apesar desses desafios, as experiências oferecem oportunidades valiosas: investir em capacitação, combinar atendimento presencial e virtual para aumentar a aceitação, fortalecer a infraestrutura digital e desenhar soluções culturalmente pertinentes que construam confiança nas comunidades.
a América Latina e no Caribe, onde as barreiras de acesso em territórios isolados seguem sendo profundas, essas experiências mostram que a distância não precisa ser um obstáculo para garantir o direito à saúde.
Os casos da Austrália, Canadá, Escócia, Nova Zelândia e dos países nórdicos confirmam que a inovação tecnológica, aliada a sistemas sólidos de atenção primária e redes de cuidado bem articuladas, pode transformar a forma como chegamos a quem vive mais longe.
A lição é clara: se em lugares tão dispersos quanto o Ártico, o deserto australiano ou as comunidades indígenas do Canadá foram encontradas formas efetivas de oferecer atenção, em nossa região também é possível dar passos firmes rumo a sistemas de saúde mais próximos, inclusivos e resilientes. Porque, ao final, não importa onde as pessoas vivam: todas merecem receber atendimento oportuno e de qualidade.
Saiba mais na publicação: O que os sistemas universais de saúde pelo mundo têm a ensinar sobre o atendimento a populações remotas?: estratégias de países selecionados para atender às necessidades de saúde de populações remotas.