- Os governos geram enormes quantidades de dados, mas aproveitam apenas parte de seu potencial.
- Os sistemas administrativos contêm informações essenciais para melhorar a gestão pública.
- Transformar dados em decisões pode melhorar a implementação das políticas públicas e contribuir para serviços mais oportunos e eficazes para a população.
Os governos geram enormes quantidades de dados todos os dias. Sempre que um salário é pago, um contrato é adjudicado ou um serviço é prestado, seus sistemas produzem informações valiosas. No entanto, grande parte desses dados nunca é utilizada para melhorar a gestão pública.
A oportunidade é imensa. Mais de 90% dos países da América Latina e do Caribe possuem sistemas para gerenciar folha de pagamento, compras ou finanças públicas, e todos têm sistemas tributários digitais. No entanto, a maioria utiliza esses dados principalmente para operar, e não para diagnosticar problemas ou antecipar decisões.
Na prática, isso significa que milhões de transações públicas (salários, contratos, pagamentos, nomeações e compras) ficam armazenadas em sistemas governamentais sem se tornarem informações para a tomada de decisões. Somente em uma análise recente da folha de pagamento pública realizada pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) em um desses países, foram processados mais de 30 milhões de registros individuais de funcionários públicos entre 2019 e 2024, permitindo identificar oportunidades de melhoria com impactos fiscais significativos. A matéria-prima já existe; o desafio é transformá-la em evidências para alocar melhor os recursos, fortalecer a implementação das políticas e responder com maior eficácia às necessidades das pessoas.
Os sistemas administrativos foram projetados para que os governos operem em seu dia a dia. Por trás de cada transação, há informações detalhadas sobre quem tomou a decisão, quando ela ocorreu, quanto custou, onde foi executada e qual foi o resultado. Os bancos de dados de folha de pagamento contêm informações sobre milhões de pagamentos e movimentações de pessoal ao longo dos anos. Os sistemas de compras registram cada contrato, proponente, valor e prazo de execução. São bancos de dados com um nível de detalhamento e abrangência que poucas pesquisas conseguem igualar. Esses dados podem ajudar a responder a perguntas fundamentais para a gestão pública.
- Por que os gastos com pessoal estão aumentando?
- Quais instituições apresentam maior rotatividade de funcionários?
- Os processos de contratação pública estão sendo utilizados corretamente?
- Onde estão os principais gargalos que atrasam a implementação de uma política ou a prestação de um serviço?
- Em quais áreas é possível melhorar a eficácia do estado?
A experiência de diversos países mostra desafios semelhantes. Às vezes, as informações estão dispersas entre diferentes plataformas e não se comunicam entre si. Outras vezes, os dados existem, mas faltam os recursos para analisá-los. E, em muitos casos, o maior desafio não é técnico, mas político: dispor de evidências não significa que elas vão influenciar as decisões.
A boa notícia é que isso está mudando. Cada vez mais governos estão demonstrando que é possível transformar os dados que já geram em informações úteis e melhorar a gestão pública.
No Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), estamos trabalhando com vários governos da América Latina e do Caribe para aproveitar melhor os dados gerados por seus sistemas administrativos. A análise desses dados permite identificar onde os recursos estão concentrados, quais instituições enfrentam maiores dificuldades e quais processos geram atrasos ou custos adicionais. Essas informações permitem melhorar o funcionamento interno do estado e orientar decisões que fortaleçam a implementação de políticas e a prestação de serviços públicos.
Por exemplo, os dados da folha de pagamento permitem rastrear milhões de movimentações de pessoal ao longo do tempo. Com eles, é possível saber se os gastos aumentam porque há mais funcionários ou porque os salários aumentam, identificar instituições com alta rotatividade, prever ondas de aposentadoria e até mesmo comparar a composição do emprego público com a de outros países. Em um dos países que analisamos, a análise desses dados permitiu estimar que uma melhor alocação do pessoal administrativo em um único setor poderia gerar economias equivalentes a cerca de 0,4% do PIB. Além de reduzir custos, uma distribuição mais estratégica do pessoal melhora a eficiência na prestação de serviços públicos.
Os sistemas de compras públicas registram milhões de transações a cada ano. Ao analisá-los, é possível detectar padrões ocultos na gestão cotidiana: processos que se repetem desnecessariamente, diferenças significativas de preços entre produtos semelhantes, concentração de adjudicações em determinados fornecedores ou fragmentação de contratos para evitar procedimentos mais competitivos. Em um dos países com os quais trabalhamos, a análise mostrou que as aquisições realizadas abaixo de um limite regulatório aumentaram 4,3 vezes em poucos anos e se concentravam de maneira incomum logo abaixo desse limite. Sem a análise de dados, esse padrão teria permanecido oculto. E se um padrão permanece invisível, dificilmente poderá ser corrigido. Corrigir essas distorções gera espaço fiscal para bens e serviços públicos.
As pesquisas com servidores públicos complementam os dados administrativos, pois ajudam a entender não apenas o que está ocorrendo, mas também o porquê. Em conjunto, ambos os tipos de dados oferecem uma visão muito mais completa do funcionamento das organizações públicas. A última pesquisa realizada no Chile em 2023 coletou a opinião de mais de 26.000 funcionários públicos, uma escala que permitiu compreender aspectos que os registros administrativos, por si só, não conseguem explicar. Os resultados mostraram que, embora 84% considerem que o desempenho é importante para a promoção, apenas 39% acreditam que existam boas oportunidades de desenvolvimento em sua organização.
Os governos continuarão investindo na transformação digital. Na região, esses sistemas abrangem funções que cobrem, em média, 79% das receitas públicas e pelo menos 40% dos gastos do governo central. No entanto, ter mais sistemas não garante melhores decisões.
O próximo passo, para a maioria dos governos, é usar os dados que já possuem — de folha de pagamento, compras e recursos humanos — para responder a perguntas concretas, transformar essas informações em ações e melhorar o monitoramento de suas políticas. Processos internos mais eficientes são a base para implementar melhores políticas e prestar serviços públicos de qualidade aos cidadãos. Uma pergunta para começar: que decisão sua instituição está tomando hoje sem analisar os dados que já estão em seus próprios sistemas?
Para quem quiser colocar essa abordagem em prática, junte-se à ImplementaLAC, que oferece ferramentas e recursos para isso.
A ImplementaLAC é a plataforma gratuita do BID para servidores públicos da região que desejam passar da ideia à ação. É um bom lugar para começar: você encontrará um workshop sobre como usar dados para melhorar a gestão pública.