- Antes de Bogotá implementar seu Sistema de Informação de Recursos Educacionais (SIDRE), a falta de alinhamento entre as necessidades das escolas públicas e os materiais entregues gerava ineficiências no processo.
- A plataforma atribui a cada escola uma pontuação — com base na matrícula, no estado do mobiliário e dos equipamentos de informática, e em boas práticas de gestão de bens e projetos especiais liderados pela própria escola — que pode ser usada como um carrinho de compras.
- Desde 2023, o uso do SIDRE é obrigatório para as mais de 400 instituições educacionais da cidade, com uma participação superior a 99%.
- O caso já é citado pelo BID como exemplo de gasto inteligente e poderia ser replicado em outras cidades e países da região.
Houve uma época em que a Secretaria de Educação de Bogotá recebia uma enxurrada de cartas por um motivo bem específico: os quadros das salas de aula já haviam cumprido sua vida útil e ficaram tão desgastados e brilhantes que os alunos não conseguiam mais enxergar o que os professores escreviam neles. Não era um caso isolado. Era o sintoma de um problema muito maior: quem alocava os recursos não tinha clareza sobre o que cada escola pública realmente precisava, e os diretores que precisavam de algum material para sua escola não sabiam como essas decisões eram tomadas.
Esse problema, comum à maioria dos sistemas educacionais que administram centenas de escolas, segue uma lógica ineficiente. Se uma escola pede sabendo que não vai receber tudo o que solicita, pode se sentir tentada a inflar suas listas na esperança de obter um resultado melhor. Se a Secretaria planeja de forma centralizada sem consultar a escola, acaba enviando coisas que ninguém pediu, enquanto as necessidades reais ficam sem solução. E em meio a essa falta de coordenação, quem costuma sair na frente não é o diretor que mais precisa, mas o que mais insiste — aquele que tem tempo e proximidade para ir até o escritório de materiais e "fazer fila" pela sua escola. O diretor que está longe, ou que simplesmente não tem como fazer esse tipo de articulação, fica para trás.
Como o SIDRE utiliza um sistema de pontos para alocar recursos às escolas
Para resolver isso, a Secretaria Distrital de Educação de Bogotá, em parceria com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), desenvolveu o Sistema de Informação de Recursos Educacionais (SIDRE): uma plataforma em que cada instituição educacional distrital (IED) pode planejar com antecedência o que precisa, em vez de improvisar quando surge uma oportunidade.
A lógica é simples de entender e fácil de colocar em prática. Cada escola recebe um número de pontos — o equivalente ao seu orçamento disponível — e cada item do catálogo tem uma pontuação atribuída. Um lápis, por exemplo, vale 10 pontos. O diretor ou seu representante vai selecionando o que a escola precisa, como em um carrinho de compras, até esgotar os pontos disponíveis. As solicitações, além disso, precisam ser validadas por um documento assinado pelo Conselho Diretivo da escola, que inclui professores, alunos, pais e ex-alunos, para que a decisão não dependa de uma única pessoa.
Os pontos não são distribuídos ao acaso. Dependem da matrícula da escola, do Índice de Adequação de Materiais (InAD) — que mede de 0 a 1 o estado do mobiliário escolar, e que teve média de 0,72 em toda Bogotá em 2024 — e de boas práticas de gestão. Quanto mais desgastados estiverem os materiais de uma escola, mais pontos ela recebe. O sistema também estabelece limites por categoria, para que um diretor não gaste todo o orçamento em, por exemplo, uma tela interativa, deixando sem solução as necessidades básicas do restante da escola.
O diretor da Escola Normal Superior Distrital María Montessori, em Bogotá, Andrés Hortúa Clavijo, e Alejandro Cáceres Monroy, Diretor de Recursos e Materiais Escolares da Secretaria de Educação de Bogotá, concordam sobre como era solicitar materiais antes do SIDRE e o que mudou com a plataforma. Um deles resume a experiência da seguinte forma:
Antes, o diretor que conseguia mais recursos não era o que mais precisava, mas sim o que mais fazia "lobby" na Secretaria. Com o sistema de pontos, todos os diretores ficam em pé de igualdade, e qualquer um pode consultar quantos pontos tem e em que pode usá-los.
Essa visibilidade, segundo eles, é o que dá legitimidade ao processo: ninguém pode alegar que sua escola não recebeu nada por falta dos contatos certos.
Outro efeito, menos evidente mas igualmente importante, é o que acontece quando a demanda de toda a cidade é agrupada. Não se trata mais de comprar dez carteiras para uma escola, e sim mais de 22 mil itens de mobiliário para todo o sistema, o que permite negociar melhores preços e usar o orçamento de forma mais eficiente.
Resultados do SIDRE: participação, alocação de recursos e eficiência
Desde 2023, o uso do SIDRE é obrigatório para as mais de 400 IED de Bogotá. Em 2024, mais de 99% dessas instituições participaram do processo de solicitação; menos de cinco ficaram de fora por não terem enviado solicitações. Nesse mesmo ano, a Secretaria destinou 50% dos pontos disponíveis a mobiliário, 25% a computadores e os 25% restantes a outros itens, como parte de uma estratégia de distribuição com prioridades claras.
O relatório do BID que documenta essa experiência identifica quatro benefícios diretos do sistema: adequação (os materiais agora respondem a necessidades reais, e não ao que alguém decide enviar), equidade (os recursos são direcionados às escolas com maiores lacunas, graças ao InAD), eficiência (agrupar a demanda permite processos de compra mais oportunos e econômicos) e transparência (cada solicitação pode ser rastreada desde o registro até a entrega). A isso se somam benefícios menos visíveis, mas igualmente relevantes: maior corresponsabilidade entre a Secretaria e as escolas, melhor governança escolar graças à validação dos Conselhos Diretivos, e uma lógica mais analítica sobre como o investimento em materiais escolares impacta as condições pedagógicas.
Por que o SIDRE é considerado um modelo de gasto inteligente em educação
Essa experiência não é um caso isolado dentro do BID. Ela é citada como modelo na publicação Gasto Inteligente em Educação na América Latina e no Caribe, que analisa como os países da região podem extrair mais valor de cada real investido em educação. O relatório menciona o SIDRE como um exemplo de como simplificar os processos de compra pública sem sacrificar a transparência — algo que muitos sistemas educacionais resolvem mal: por medo de que uma compra seja questionada em uma auditoria, acabam comprando o que é "seguro" em vez do que realmente é necessário.
Essa mesma publicação propõe um marco de quatro princípios para pensar o financiamento educacional — adequação, equidade, eficiência e transparência — e o caso de Bogotá toca nos quatro ao mesmo tempo: materiais que respondem a necessidades reais, pontos que favorecem as escolas com maiores lacunas, compras agrupadas que reduzem custos, e um processo que qualquer pessoa pode rastrear do início ao fim. Nesse sentido, é um exemplo concreto de gasto inteligente que outras cidades e países da região podem observar de perto.
Outras cidades podem replicar o modelo de gestão de recursos escolares de Bogotá?
A Colômbia tem 32 departamentos e mais de 1.100 municípios, organizados em Entidades Territoriais Certificadas em Educação (ETC). A maioria enfrenta versões do mesmo problema que Bogotá tinha antes do SIDRE: solicitações que chegam por e-mail, ofícios físicos ou visitas presenciais; planilhas de Excel que se acumulam sem ordem nem hierarquia; e decisões de compra baseadas no que uma autoridade escolar pediu, mesmo que ela já não ocupe mais o cargo.
No entanto, até agora só Bogotá implementou um sistema como esse. O relatório do BID indica que replicá-lo exige algumas condições que nem todas as ETC têm resolvidas: orçamento destinado especificamente a materiais escolares, equipes técnicas capazes de administrar a plataforma e validar solicitações, um catálogo de bens com preços de referência adaptado a cada território, e respaldo normativo que dê estabilidade ao processo além das mudanças de administração.
Em Bogotá, aliás, o desenvolvimento do SIDRE se manteve ao longo de duas administrações distritais diferentes, o que reflete uma decisão institucional de sustentar o sistema além dos ciclos políticos.
O design do SIDRE — catálogo padronizado, sistema de pontos em vez de dinheiro, rastreabilidade digital — foi pensado desde o início para poder se adaptar a outros territórios e países. Usar pontos em vez de transferir dinheiro diretamente às escolas, por exemplo, evita as tensões que costumam surgir com o manejo de recursos financeiros no nível escolar e facilita que o planejamento seja feito a partir do nível central.
No fim das contas, o que o caso de Bogotá mostra não é apenas uma plataforma tecnológica bem construída, mas uma pergunta de fundo para qualquer sistema educacional: quem decide o que uma escola precisa, e com base em quais critérios? Quando essa decisão é tomada sem dados nem regras claras, o orçamento acaba sendo distribuído da forma politicamente mais fácil — um pouco para cada um —, mesmo que isso signifique perder economias de escala e deixar sem solução as necessidades mais urgentes. O SIDRE demonstra que é possível planejar de forma centralizada e, ao mesmo tempo, participativa, sem que uma coisa tire espaço da outra.