- Os povos indígenas moldaram as paisagens e os sistemas urbanos da Amazônia ao longo de milhares de anos.
- Evidências arqueológicas desafiam a ideia de que a Amazônia não possuía tradições urbanas antes da colonização.
- Os conhecimentos indígenas e as profundas conexões entre cidades, florestas e territórios podem contribuir para futuros urbanos mais resilientes e sustentáveis.
Atualmente, quase metade dos povos indígenas da Amazônia vive em cidades. No entanto, o planejamento urbano e as políticas públicas frequentemente desconsideraram as profundas conexões entre as sociedades indígenas, a vida urbana e as paisagens da região. Durante décadas, a Amazônia foi retratada como uma fronteira vazia ou uma periferia rural pouco povoada. Essa narrativa ignorou o profundo colapso demográfico ocorrido após a colonização europeia e obscureceu o papel dos povos indígenas na formação dos territórios e assentamentos da região.
Hoje, as cidades amazônicas enfrentam desafios crescentes relacionados a eventos climáticos extremos, perda de biodiversidade, gestão da água e expansão urbana. Compreender como as sociedades indígenas organizaram assentamentos, manejaram florestas e desenvolveram sistemas territoriais resilientes ao longo de milênios pode contribuir para a construção de futuros urbanos mais sustentáveis.
Com base na publicação do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) Cidades na Amazônia: Pessoas e Natureza em Harmonia, este blog explora como a arqueologia está transformando nossa compreensão sobre as contribuições dos povos indígenas para a formação das cidades e paisagens amazônicas e mostra como esse legado pode contribuir para cidades mais resilientes.
As pesquisas arqueológicas transformaram profundamente nossa compreensão do passado amazônico. A região é habitada continuamente por povos indígenas há pelo menos 13 mil anos. Quando os europeus chegaram, em 1492, havia entre 8 e 10 milhões de indígenas vivendo na grande região amazônica. Longe de viverem em comunidades isoladas, muitos habitavam grandes sistemas de assentamentos interconectados.
Em diferentes partes da região, pesquisas arqueológicas revelaram grandes conjuntos de assentamentos compostos principalmente por estruturas de terra, construções de madeira, canais de drenagem e florestas transformadas, organizados como agrupamentos de aldeias conectadas por estradas e cercadas por florestas cultivadas ou manejadas — muito antes da introdução dos traçados urbanos ortogonais coloniais.
Esses sistemas de assentamento assumiram diferentes formas em toda a região. Em algumas áreas, pesquisadores identificaram extensos agrupamentos de assentamentos integrados a paisagens agrícolas. Em outras, obras monumentais de terra e assentamentos elevados demonstram formas sofisticadas de organização territorial e trabalho coletivo. Na Bacia do Upano, levantamentos com LiDAR (detecção e medição por luz) revelaram milhares de plataformas de terra conectadas por canais de drenagem e extensas redes de estradas (veja o mapa abaixo para a localização desses e de outros sítios arqueológicos na região).
Embora esses assentamentos fossem diferentes das cidades europeias, eles revelam formas de planejamento, infraestrutura e organização social em larga escala. Em conjunto, mostram que a Amazônia abrigava diversas tradições urbanas muito antes da introdução dos traçados urbanos e modelos de cidade coloniais.
Essas descobertas transformaram nossa compreensão sobre o que caracteriza uma cidade. Definições convencionais de urbanismo costumam enfatizar populações densas, construções permanentes de pedra e limites claramente definidos. Na Amazônia, porém, o urbanismo se desenvolveu por meio da transformação e do manejo das paisagens, e não de estruturas de pedra.
Os assentamentos estavam integrados a sistemas ecológicos mais amplos. As fronteiras entre os espaços de moradia e seus arredores eram frequentemente permeáveis, formando mosaicos de aldeias, jardins, pomares, florestas manejadas e rotas de circulação. As comunidades combinavam infraestruturas permanentes com mobilidade sazonal, desafiando distinções simples entre populações sedentárias e móveis.
Caminhos e estradas, conhecidos como varadores, conectavam os assentamentos e facilitavam as trocas em extensos territórios. Esses corredores frequentemente eram cercados por espécies vegetais úteis e integrados a paisagens produtivas. Em vez de separar as cidades da natureza, os sistemas urbanos amazônicos se constituíam por meio de uma interação contínua com as florestas.
Uma característica marcante desse urbanismo era a criação de sistemas agroflorestais, resultado de um manejo ecológico intencional. Os povos indígenas transformaram as florestas ao redor em ambientes altamente produtivos, ricos em árvores frutíferas, plantas medicinais e outras espécies úteis. Isso contrasta fortemente com padrões contemporâneos de desmatamento frequentemente associados à pecuária extensiva e à conversão de terras.
Pesquisas sobre a biodiversidade amazônica também destacam o impacto de longo prazo dessas práticas. Das aproximadamente 16 mil espécies de árvores identificadas na Amazônia, apenas 227 respondem por quase metade de todas as árvores individuais, incluindo espécies de importância cultural e econômica, como açaí, paxiúba, seringueira e cacau. Muitas delas são cultivadas e manejadas por comunidades indígenas há milênios.
Igualmente significativas são as terras escuras antropogênicas, conhecidas como terras pretas. Criadas por meio do manejo prolongado de resíduos orgânicos, esses solos férteis atualmente cobrem entre 2% e 3% da Amazônia brasileira e continuam sendo importantes para a agricultura. Em conjunto, essas práticas deram origem a um legado biocultural singular que continua a moldar as paisagens amazônicas.
A relevância dessas descobertas vai muito além da arqueologia. Atualmente, cerca de 70% da população amazônica vive em cidades, tornando as áreas urbanas centrais tanto para a proteção do bioma quanto para a qualidade de vida de sua população. As cidades amazônicas permanecem profundamente conectadas às florestas, aos rios e aos territórios rurais do entorno. Seus habitantes dependem dos sistemas florestais e fluviais para obter alimentos, meios de subsistência, realizar práticas culturais e se deslocar. Produtos como açaí, peixes, carne de caça e madeira circulam dos territórios florestais para os mercados e domicílios urbanos.
Muitas famílias indígenas e ribeirinhas mantêm vínculos tanto com bairros urbanos quanto com territórios florestais, deslocando-se entre eles conforme as estações e mantendo redes sociais, econômicas e culturais que atravessam diferentes localidades. Agricultura, pesca, manejo de sementes e navegação fluvial, portanto, continuam sendo partes integrantes da vida urbana em grande parte da Amazônia. Essa realidade desafia abordagens de planejamento que tratam cidades e natureza como domínios separados e aponta, em vez disso, para um modelo regional no qual os sistemas urbanos e florestais se apoiam mutuamente.
Os conhecimentos indígenas oferecem importantes aprendizados para enfrentar os desafios urbanos contemporâneos. Práticas como integrar pomares e vegetação nativa aos assentamentos, manejar resíduos orgânicos para melhorar a fertilidade do solo e projetar infraestruturas que dialoguem com os processos ecológicos podem contribuir para fortalecer a resiliência e a sustentabilidade ambiental.
Essas abordagens são particularmente relevantes para a infraestrutura verde, técnicas resilientes, gestão da água, segurança alimentar e conservação da biodiversidade. Elas também estão alinhadas a esforços mais amplos para promover caminhos de desenvolvimento urbano que reconheçam a interdependência entre as pessoas e a natureza.
O futuro da Amazônia será cada vez mais urbano. À medida que as cidades continuam a se expandir, o desafio não é apenas acomodar esse crescimento, mas fazê-lo de maneiras que fortaleçam a resiliência ecológica e melhorem a qualidade de vida.
Repensar o futuro urbano da Amazônia exige reconhecer os conhecimentos e as práticas que os povos indígenas desenvolveram ao longo de milênios. A arqueologia demonstra que as sociedades indígenas desenvolveram sistemas sofisticados de assentamento, mobilidade, manejo florestal e gestão do meio ambiente ao longo de milhares de anos. Esses conhecimentos e práticas estão preservados não apenas nos sítios arqueológicos, mas também permanecem vivos nas comunidades indígenas contemporâneas, em seus territórios e modos de vida.
Reconhecer esse patrimônio biocultural é mais do que reconhecer o passado. É uma oportunidade de construir cidades mais adaptadas às realidades dos ambientes amazônicos. Ao trabalhar com os povos indígenas e reafirmar seus conhecimentos e prioridades territoriais nas decisões de planejamento, governança e investimento, tomadores de decisão e instituições de desenvolvimento podem contribuir para futuros urbanos mais resilientes, inclusivos e sustentáveis.
Uma agenda compartilhada para as cidades amazônicas
Construir esses futuros exige uma perspectiva que vá além de projetos isolados e que avance em direção a abordagens territoriais integradas e de longo prazo. Por meio de programas como o Amazônia Sempre, do apoio ao grupo de trabalho do MINURVI para os oito países amazônicos e do apoio ao Fórum de Cidades Amazônicas, o BID vem trabalhando em conjunto com governos e organizações regionais para promover uma agenda compartilhada de desenvolvimento urbano sustentável e contribuir para a construção de um conhecimento coletivo — como o reunido na publicação que inspirou este blog — capaz de orientá-la.
Além disso, o programa Amazônia Sempre apoia organizações e comunidades indígenas por meio de projetos que fortalecem suas iniciativas de bioeconomia e governança territorial. Muitos dos produtos gerados por empreendimentos liderados por povos indígenas são comercializados e vendidos em centros urbanos, criando importantes vínculos econômicos entre territórios rurais e cidades.
À medida que esses vínculos econômicos e sociais se fortalecem, torna-se cada vez mais importante reconhecer que as cidades amazônicas e os territórios indígenas não são mundos separados, mas profundamente interconectados. O desafio que temos pela frente é incorporar essa interconexão — e os conhecimentos, perspectivas e modos de vida que ela representa — à forma como as cidades amazônicas são imaginadas, planejadas e construídas para as próximas gerações.
Para mais informações, consulte a publicação do BID Cidades na Amazônia: Pessoas e Natureza em Harmonia, lançada durante o Fórum de Líderes Locais da COP30, no Rio de Janeiro.
Eduardo G. Neves é professor de arqueologia na Universidade de São Paulo (USP), Brasil. É bacharel em História pela Universidade de São Paulo e doutor em Antropologia pela Indiana University.
+Paloma Maria Martin, consultora da ACU e HUD.