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Como as mulheres contribuem para maior resiliência climática em bairros vulneráveis

Análise Econômica Como as mulheres contribuem para maior resiliência climática em bairros vulneráveis Os eventos de clima extremo que vêm afetando grandes e pequenas cidades brasileiras reforçam a importância de reconhecer o papel fundamental que exercem as mulheres lideranças comunitárias na gestão de crises. Elas, que muitas vezes são também as primeiras ocupantes... Fev 6, 2024
Recife (4)

Os eventos de clima extremo que vêm afetando grandes e pequenas cidades brasileiras reforçam a importância de reconhecer o papel fundamental que exercem as mulheres lideranças comunitárias na gestão de crises. Elas, que muitas vezes são também as primeiras ocupantes do território, se tornam referência e inevitavelmente assumem a linha de frente da luta por direitos sociais e proteção das suas comunidades.

Nesse contexto, no entanto, o acesso à formação e o fortalecimento dos conhecimentos construídos instintivamente pelo histórico de crises já vivenciadas ainda são desafiantes para mulheres que têm que dar conta de chefiar o lar, cuidar de filhos e netos, gerar renda e participar dos enfrentamentos locais cotidianos.

Recife, capital de Pernambuco com mais de um milhão e meio de habitantes, vem trabalhando em diversas frentes para a construção de resiliência urbana em razão da sua situação crítica de vulnerabilidade a eventos climáticos. Similar a outros grandes centros urbanos da América Latina, a cidade de quase 500 anos apresenta elevada desigualdade social e vulnerabilidade socioambiental.

Os esforços para o desenvolvimento de medidas estruturais e destinadas à redução de risco foram intensificados com a estruturação da operação de crédito ProMorar Recife - Programa de Requalificação e Resiliência Urbana em Áreas de Vulnerabilidade Socioambiental, em parceria com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). E o empoderamento de mulheres é parte vital dessa iniciativa.

O programa segue as recomendações do Marco de Sendai, um documento adotado pelas Nações Unidas com recomendações de 2015 a 2030, que classifica a participação das mulheres como uma etapa fundamental para uma gestão eficaz de riscos de desastres — uma vez que contribuição delas também é crucial na implementação de planos de redução de riscos. Para isso, o Marco estimula a capacitação de mulheres tanto para a preparação contra desastres quanto para o desenvolvimento de modos alternativos de vida após as calamidades.

O ProMorar Recife se baseia em uma perspectiva integral, entendendo que as obras de infraestrutura devem ser acompanhadas pelo fortalecimento de políticas, capacidades e instrumentos para gestão proativa de riscos e transformação socioambiental, de modo a não apenas mitigar os impactos dos eventos climáticos nas áreas de maior exposição e vulnerabilidade às ameaças, mas também atingir com prioridade as próprias causas desta vulnerabilidade extrema.

Crédito - Brenda Alcântara

Intensificar a prevenção

Desde 2014, a Prefeitura de Recife intensifica os trabalhos de prevenção. Somente naquele ano foram mapeadas 545 comunidades de interesse social. Estas são predominantemente ocupadas por populações de baixa renda e com precariedade de infraestrutura urbana, especialmente a de saneamento ambiental. Tal situação evidencia a necessidade de intensificar as medidas de prevenção, de fortalecimento da resiliência e da capacidade de adaptação às mudanças climáticas na capital pernambucana, em especial nessas comunidades.

Em maio de 2022, chuvas intensas resultaram em deslizamentos de encostas e inundações, provocando desastres físicos e perdas de vidas, sendo a população das áreas de vulnerabilidade socioambientais uma das mais impactadas.

Durante a etapa de preparação do ProMorar Recife, portanto, entendeu-se que não se pode construir uma cidade mais resiliente sem a perspectiva interseccional de inclusão de gênero e diversidade, para garantir a superação dos obstáculos que impedem o empoderamento das mulheres como lideranças climáticas. Assim, foi definido um indicador para monitoramento dos avanços do programa vinculado à capacitação dessas mulheres na gestão de riscos climáticos.

Crédito - Brenda Alcântara

O que é o NUPDEC Mulheres?

Como fruto de uma parceria municipal entre a Secretaria da Mulher, a Secretaria Executiva de Defesa Civil e o ProMorar Recife, surge o NUPDEC Mulheres. O Núcleo de Proteção e Defesa Civil Comunitário - NUPDEC é parte da Política Nacional de Proteção e Defesa Civil e existe no Município desde 2022. Este núcleo é eixo fundamental para o fortalecimento das ações de gestão de risco e resiliência no Município. Foram formadas até o momento, 48 pessoas, sendo 12 mulheres.

Por entender ser necessário e urgente abarcar o recorte de gênero nas tratativas sobre eventos extremos, foi realizado em Recife, entre os dias 18 e 21 de setembro, o Módulo de Gênero e Políticas Públicas, que contou com a participação de 27 mulheres. Este módulo representa a implementação do projeto piloto do NUPDEC Mulheres.

Crédito - Brenda Alcântara

A proposta deste módulo adicional sobre perspectiva de gênero foi complementar a formação das mulheres já aprovadas nos cursos de NUPDECs ocorridos nos anos de 2022 e 2023, além de capacitar a equipe técnica da Defesa Civil. Participaram também das aulas mulheres líderes das comunidades que serão urbanizadas pelo ProMorar e onde já foi iniciado o processo participativo através da equipe da coordenação social do Programa.

Crédito - Brenda Alcântara

O principal objetivo do NUPDEC Mulheres é abordar as temáticas de desastres e gestão de riscos sob a perspectiva de gênero e participação social. Este módulo de Gênero e Políticas Públicas é composto por quatro temáticas, sendo elas: Relação entre mulheres e direitos humanos; Políticas públicas e participação das mulheres; Gênero e desigualdade estrutural; Violência contra a mulher e Lei Maria da Penha. A metodologia envolveu aulas expositivas, debates sobre temas trazidos pelas participantes e momentos de construção coletiva.

Ao final do curso, foram entregues os certificados em uma pasta impermeável, destacando a importância da organização e preparação em diversos sentidos, como no armazenamento de documentos em local seguro, pensando nas ocorrências de inundação ou outros eventos hidrológicos extremos.

Crédito - Brenda Alcântara

Nas próximas edições do curso, previstas para o primeiro semestre de 2024, a transversalidade entre os temas de gênero e desastre irá ocorrer através de aulas expositivas e dinâmicas de grupo, e as mulheres já formadas em edições anteriores poderão participar do curso como agentes multiplicadoras.

Crédito - Brenda Alcântara

Saiba mais sobre o tema de inclusão de gênero nos espaços urbanos, não deixe de acessar o Guia prático e interseccional para cidades mais inclusivas.

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