- O comércio digital está se expandindo rapidamente na América Latina e no Caribe, mas a região ainda capta uma pequena parcela do mercado global.
- O próprio mercado da região é uma das maiores oportunidades ainda não aproveitadas para o crescimento do comércio digital.
- Transformar esse impulso em crescimento duradouro exige mais conectividade, regulamentações modernas, habilidades digitais e sistemas transfronteiriços mais eficientes em toda a região.
As tecnologias digitais, como as plataformas online, reduzem os custos que as empresas enfrentam ao vender no exterior, abrindo novos caminhos de acesso aos mercados internacionais e permitindo que alcancem novos clientes. Elas também possibilitam que os serviços sejam prestados à distância e ampliam as opções dos consumidores.
Essas oportunidades ganham ainda mais importância à medida que a inteligência artificial (IA) transforma a forma como o mundo produz, consome e comercializa. A IA pode reduzir ainda mais as barreiras de informação e os custos logísticos e administrativos, incluindo os associados à classificação de produtos para fins de declaração aduaneira e à gestão de riscos das agências de fronteira. Ela também está impulsionando a demanda por serviços de apoio, como computação em nuvem e processamento de dados, muitos dos quais podem, por sua vez, ser prestados além das fronteiras. No Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), vemos essa mudança como uma oportunidade direta para as empresas da América Latina e do Caribe.
Por isso, o comércio digital, entendido como o comércio internacional encomendado ou entregue online, deixou de ser um segmento de nicho. Desde 2005, as exportações mundiais de serviços prestados digitalmente quase quadruplicaram, alcançando US$ 4,78 trilhões em 2024 e representando 14,8% das exportações mundiais. Essa expansão superou em muito o crescimento das exportações de bens e de outros serviços, o que ressalta o papel central que o comércio digital pode desempenhar na geração de novas fontes de crescimento.
O comércio digital oferece uma nova fonte de produtividade e crescimento econômico e tem o potencial de se tornar um importante motor de desenvolvimento para os países da região. Ele pode aumentar a produtividade das empresas ao promover a inovação e a difusão de novas tecnologias, além de facilitar a importação de serviços empresariais, financeiros, de telecomunicações e de outros tipos, favorecendo assim a diversificação econômica.
O novo relatório conjunto Digital Trade in Latin America and the Caribbean: Connecting Markets, Powering Growth, elaborado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), pelo Banco Mundial e pela Organização Mundial do Comércio (OMC), mostra que a região já construiu um impulso significativo nessa modalidade de comércio em rápida expansão. Também deixa claro que serão necessárias políticas mais sólidas, mais investimento e maior cooperação regional para transformar esse impulso em ganhos duradouros e amplamente compartilhados. Este texto sintetiza os achados mais relevantes do relatório para formuladores de políticas públicas e empresas da região.
Uma região que ganha força no comércio digital
Entre 2005 e 2024, as exportações de serviços prestados digitalmente da região cresceram quase cinco vezes, passando de US$ 18,5 bilhões para US$ 87,7 bilhões. Esses serviços representam hoje aproximadamente um terço das exportações de serviços comerciais da região, ante cerca de um quinto em 2005. Brasil, México, Costa Rica e Argentina estão entre os principais exportadores, enquanto diversas economias menores também construíram posições importantes nesse tipo de serviço (Figura 1).
Bilhões de dólares americanos. As barras empilhadas mostram as contribuições por país; a linha pontilhada mostra o total da ALC.
O potencial é considerável. As simulações apresentadas no relatório sugerem que as exportações de serviços passíveis de prestação digital da região poderiam crescer até 7,9% ao ano até 2040. A digitalização poderia contribuir com até 4,5 pontos percentuais para esse crescimento. Com avanços tecnológicos e um ambiente de políticas melhor, a América Latina e o Caribe poderiam expandir essas exportações mais rápidamente do que a média global projetada.
No entanto, ainda há um potencial significativo a ser aproveitado
Os avanços, no entanto, não devem ser confundidos com a plena realização do potencial da região. Apesar do rápido crescimento de suas exportações, a América Latina e o Caribe representaram apenas 2% das exportações mundiais de serviços prestados digitalmente em 2024. Esse percentual está abaixo da participação de 2,9% da região no comércio mundial de serviços e bem abaixo de sua participação de 6,4% no comércio mundial de bens. Na maioria das economias da região, os serviços prestados digitalmente ainda representam 1% ou menos do produto interno bruto (PIB). A América Latina e o Caribe entraram na corrida do comércio digital, mas ainda não conquistaram uma participação equivalente ao seu potencial.
O próprio mercado regional é uma das maiores oportunidades ainda não aproveitadas. Em 2023, o comércio intrarregional de serviços passíveis de prestação digital somou US$ 7,8 bilhões, o que representa apenas 8,4% das exportações da região nessa categoria. Em comparação, as exportações intrarregionais representaram 62,4% das exportações desse tipo de serviço na Europa, 41,3% na Ásia e 14,7% na América do Norte.
Ainda assim, os mercados regionais são particularmente importantes para exportadores pequenos e emergentes. As evidências do relatório sugerem que os provedores de serviços menores costumam iniciar sua trajetória exportadora em países vizinhos antes de avançar para mercados maiores e mais distantes. Um mercado digital regional mais integrado poderia, portanto, servir de trampolim para que mais empresas se tornem exportadoras globais.
As evidências do tráfego de comércio eletrônico reforçam esse ponto. Em 2023, 60% das visitas estrangeiras às plataformas de comércio eletrônico da região vieram de outros países da América Latina e do Caribe. Ao mesmo tempo, apenas 13% das visitas dos consumidores da região a plataformas estrangeiras foram direcionadas a plataformas de outros países da própria região. A maior parte do tráfego de saída foi, em vez disso, para os Estados Unidos e a China. Essa lacuna sugere um espaço considerável para conectar melhor a demanda regional à oferta regional.
Realizar o potencial da região no comércio digital exige mais do que apenas tecnologia. É preciso um ecossistema propício que permita às empresas se conectar, realizar transações, entregar produtos e serviços e crescer além das fronteiras.
Os países precisam de mercados abertos e competitivos para os bens e serviços que formam a espinha dorsal do comércio digital, incluindo telecomunicações, serviços de informática, equipamentos de tecnologia da informação e comunicação (TIC), transporte, logística e pagamentos. Também precisam de regulamentações modernas, equilibradas e interoperáveis que viabilizem as transações eletrônicas e os fluxos transfronteiriços de dados, ao mesmo tempo em que protegem a privacidade dos consumidores e garantem a cibersegurança.
A América Latina e o Caribe têm um regime comercial relativamente aberto em vários setores de serviços essenciais, particularmente telecomunicações e serviços de informática. No entanto, ainda persistem restrições e lacunas regulatórias importantes; apenas nove países eliminaram as tarifas sobre bens de TIC no âmbito do Acordo sobre Tecnologia da Informação da OMC.
A região também avançou substancialmente na definição de normas para documentos eletrônicos, assinaturas eletrônicas, proteção de dados e fluxos transfronteiriços de dados, mas os marcos de cibersegurança e as normas sobre responsabilidade das plataformas continuam comparativamente pouco desenvolvidos.
A acessibilidade, a confiabilidade e a inclusão da conectividade também são condições relevantes para o comércio digital. Embora o acesso à internet tenha se expandido de forma significativa, o uso ainda está abaixo de 80% em muitas economias da América Central, dos Andes e do Caribe, em comparação com uma média de 91% nos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Os altos custos da banda larga, o acesso desigual a redes avançadas e a disponibilidade limitada de infraestrutura de processamento de dados continuam restringindo a participação das empresas no comércio digital.
Pagamentos transfronteiriços modernos, logística eficiente e procedimentos alfandegários simplificados também são cruciais para concluir transações digitais com rapidez e previsibilidade. Hoje, 74% dos adultos têm uma conta transacional, mas apenas 20% a utilizam para fazer pagamentos online a empresas. Os pagamentos transfronteiriços continuam lentos e caros, enquanto os entraves logísticos e administrativos nas fronteiras ainda dificultam que as empresas atendam à velocidade e à confiabilidade exigidas pelo comércio eletrônico.
Por fim, a agenda precisa alcançar empresas e trabalhadores. As empresas precisam de capacidades digitais e de gestão, informações comerciais e apoio específico para identificar clientes internacionais e acessar financiamento. Os trabalhadores precisam de oportunidades para desenvolver habilidades técnicas, empreendedoras e em STEM (ciência, tecnologia, engenharia e matemática). Os graduados em STEM representam apenas 17% dos graduados do ensino superior na região, uma proporção inferior à observada na maioria das outras regiões. A região também tem menos empresas digitais do que seria esperado dado seu nível de desenvolvimento econômico, e muitas empresas ainda estão em estágio inicial de digitalização de suas operações. Sem capacidades mais sólidas, a melhoria da conectividade e da regulamentação não se traduzirá automaticamente em mais exportações.
O relatório oferece mais do que um diagnóstico. Ele fornece uma base para a elaboração de roteiros de comércio digital específicos para cada país, que podem ajudar os governos a sequenciar reformas, mobilizar investimentos e coordenar os esforços do setor público, das empresas e dos parceiros internacionais.
Dos roteiros à ação: avançando o comércio digital na América Latina e no Caribe
Muitos países já estão implementando essas agendas com o apoio do BID. Na América do Sul, por exemplo, o Programa Conexão Sul promove o alinhamento regulatório e a coordenação regional, além de apoiar investimentos e projetos em corredores de fibra óptica e outras infraestruturas de conectividade digital. Em Honduras, reformas regulatórias, institucionais e de infraestrutura apoiadas pelo BID reduziram, nos últimos anos, o tempo de travessia em El Amatillo de mais de 74 horas para pouco mais de duas horas. Além disso, a ConnectAmericas, a plataforma regional de negócios online do BID, conecta mais de 260.000 empresas a capacitação, inteligência de mercado e compradores internacionais, e tem sido associada a ganhos significativos nas exportações das empresas.
A América Latina e o Caribe não precisam esperar a economia digital chegar. A região já demonstrou sua capacidade de participar com sucesso. A escolha agora é entre aproveitar esse impulso ou permitir que concorrentes mais ágeis capturem a oportunidade. Com reformas decididas, investimentos sustentados em empresas e pessoas, e uma cooperação regional mais forte, o comércio digital pode conectar mercados de forma eficaz e ajudar a impulsionar uma nova fase de crescimento inclusivo e compartilhado em toda a região.
Leia o relatório completo — Digital Trade in Latin America and the Caribbean: Connecting Markets, Powering Growth — para conhecer todos os dados e recomendações de política.