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Como o choque global provocado pelo conflito com o Irã está transformando a América Latina e o Caribe

Análise econômica Como o choque global provocado pelo conflito com o Irã está transformando a América Latina e o Caribe As crescentes pressões globais estão colocando à prova a resiliência, a capacidade fiscal e a capacidade da América Latina e do Caribe de sustentar o crescimento e proteger o bem-estar das famílias. Mai 29, 2026
Oil tanker near an offshore oil platform
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Ideias-chave

•    O conflito envolvendo o Irã está elevando os custos de energia, logística e fertilizantes, com impactos significativos sobre o crescimento, a inflação e o bem-estar das famílias na América Latina e no Caribe.

•    No entanto, os efeitos são desiguais na região: enquanto algumas economias se beneficiam do aumento das receitas do petróleo, a maioria enfrenta deterioração das contas externas, maior pressão fiscal e desaceleração do crescimento.

•    Proteger as famílias mais vulneráveis, preservar a estabilidade macroeconômica e fortalecer a resiliência energética e das cadeias de suprimentos será fundamental para reduzir a exposição da região a choques futuros.

A guerra envolvendo o Irã está provocando um choque global complexo, com profundas implicações para a América Latina e o Caribe. O aumento dos preços da energia, as interrupções nas cadeias de suprimentos e o aperto nos mercados de fertilizantes estão afetando o crescimento, a inflação, os saldos fiscais e o bem-estar das famílias em toda a região.

O choque opera por múltiplos canais ao mesmo tempo. O aumento dos preços da energia eleva os custos de transporte e produção. As interrupções nas cadeias de suprimentos aumentam os custos logísticos e atrasam os fluxos comerciais. Os mercados de fertilizantes estão sob pressão, o que tende a elevar os preços dos alimentos ao longo do tempo. Em conjunto, essas forças colocam à prova a resiliência da região em um momento em que o crescimento permanece limitado e o espaço fiscal restrito.

Para avaliar a possível magnitude desses efeitos, nossa análise considera dois cenários. No cenário de base, os preços do petróleo atingem cerca de US$ 95 por barril antes de recuar gradualmente para níveis próximos aos anteriores ao conflito ao longo de dois anos. No cenário adverso, os preços sobem para US$ 120 por barril e permanecem elevados por pelo menos quatro trimestres, refletindo um conflito prolongado, interrupções persistentes em rotas marítimas estratégicas ou uma incerteza prolongada que atrasa a normalização dos mercados de energia. Ambos os cenários são consistentes com precedentes históricos.

Produção de petróleo: uma história de duas regiões

A produção de petróleo é um fator fundamental para entender como esse choque afeta os países da América Latina e do Caribe.

Para os importadores líquidos de petróleo, os custos mais altos de energia enfraquecem o crescimento e aumentam as pressões fiscais e externas. Em um cenário adverso, o crescimento do PIB pode cair até 1,2 ponto percentual em 2026. Os déficits fiscais podem aumentar entre 0,5 e 1,6 ponto percentual do PIB, à medida que os custos das importações sobem e os governos enfrentam pressão para adotar medidas de alívio.

Já os exportadores líquidos podem registrar aumento do crescimento de até 1,7 ponto percentual no cenário adverso, enquanto os saldos fiscais podem melhorar até 1,8 ponto percentual do PIB devido ao aumento dos royalties e das receitas do petróleo, como mostram os Gráficos 1 e 2.

Impacto do choque do petróleo sobre o crescimento do PIB
Impacto do choque do petróleo sobre o crescimento do PIB dos importadores

Os termos de troca também se deterioram fortemente para os importadores de petróleo no cenário adverso, em até 4,2 pontos percentuais até 2026. Na prática, isso significa que os países precisam exportar mais para pagar o mesmo volume de importações, reduzindo o poder de compra e ampliando as pressões externas.

A vulnerabilidade também vai além do uso direto de energia. Países que parecem menos expostos ainda podem ser afetados pelo aumento dos custos de insumos importados, transporte e produção de alimentos.

Preços dos alimentos e pobreza

Os preços dos alimentos constituem um dos principais canais pelos quais o choque afeta as famílias. O aumento dos preços da energia eleva os custos de transporte, processamento e embalagem, enquanto a alta dos preços do gás natural também aumenta os custos dos fertilizantes. Com o tempo, um choque energético transforma-se em um choque na produção de alimentos.

Um choque paralelo também está em curso nos mercados de fertilizantes, nos quais o Irã historicamente tem sido um importante fornecedor. Um aumento de 40% nos preços dos fertilizantes pode levar a aumentos persistentes nos preços dos alimentos, especialmente nos países que dependem fortemente de fertilizantes importados.

É provável que os efeitos sejam mais intensos nas economias com elevada dependência de alimentos e fertilizantes importados. No décimo primeiro mês após o choque, a diferença na inflação dos alimentos entre países com alta e baixa dependência aproxima-se de 4 pontos percentuais e permanece elevada por dois anos ou mais, como pode ser observado no Gráfico 3.

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Os efeitos sobre a pobreza também são significativos. Partindo de uma taxa regional de pobreza moderada de 34,64%, o choque nos preços dos alimentos, por si só, poderia empurrar mais 0,30 ponto percentual da população para abaixo da linha de pobreza moderada no cenário-base e 0,78 ponto percentual no cenário adverso. Em toda a América Latina e o Caribe, isso se traduziria em milhões de pessoas adicionais caindo na pobreza.

O impacto deverá recair com maior intensidade sobre as economias da América Central e do Caribe, onde os alimentos importados representam uma parcela significativa do consumo e os domicílios de menor renda destinam uma parcela desproporcional de sua renda à alimentação. Como consequência, o aumento dos preços dos alimentos pode afetar rapidamente o bem-estar das famílias e a segurança alimentar.

Pressões sobre as cadeias de suprimento

As interrupções nas rotas marítimas globais acrescentam uma nova fonte de pressão.

Custos logísticos mais elevados e atrasos nos fluxos comerciais poderiam reduzir o crescimento regional do PIB em cerca de 0,14 ponto percentual no cenário-base e 0,31 ponto percentual no cenário adverso. Além disso, poderiam aumentar as pressões inflacionárias (entre 0,27 e 0,37 ponto percentual) e as pressões fiscais, ampliando os déficits entre 0,11 e 0,30 ponto percentual.

Os países que dependem fortemente de bens intermediários importados estão particularmente expostos. A América Central enfrenta vulnerabilidades significativas devido à sua integração às cadeias globais de produção e à dependência de insumos importados.

A região está preparada?

O choque afetou os países de forma desigual e foi menos intenso na América Latina e no Caribe do que em muitas outras regiões. Além disso, a região enfrentou esse choque contando com alguns colchões macroeconômicos. Até o momento, os mercados financeiros da região têm demonstrado relativa resiliência, embora os riscos de deterioração possam se intensificar caso as disrupções persistam.

No que diz respeito às reservas internacionais, a maioria dos países encontra-se em situação melhor do que em décadas anteriores, com níveis de reservas acima dos parâmetros de adequação do FMI. Isso proporciona uma importante proteção contra pressões externas, ao mesmo tempo que reduz o risco de ajustes externos desordenados.

Ao mesmo tempo, trata-se de um choque global significativo e não transitório. Os níveis de endividamento são mais elevados e o espaço fiscal é mais limitado. Vários países continuam enfrentando elevados níveis de dívida e uma pesada carga de juros, o que reduz a margem para subsídios generalizados, transferências em larga escala ou investimentos públicos adicionais. Como em choques anteriores, os países com posições fiscais mais frágeis provavelmente enfrentarão escolhas mais difíceis, com os custos de ajuste recaindo de forma mais intensa sobre os grupos mais vulneráveis.

Por outro lado, a matriz energética da região é mais diversificada do que há algumas décadas, com maior participação da energia hidrelétrica, eólica e solar. No entanto, algumas economias do Caribe e da América Central continuam fortemente dependentes do petróleo para a geração de eletricidade e, por isso, estão mais expostas ao aumento dos preços da energia.

 

Electric Dam Brazil
A resposta de política: o que importa agora

As decisões de política adotadas agora determinarão como esse choque será absorvido no plano macroeconômico e em que medida poderá afetar os grupos mais vulneráveis da região.

Três prioridades de política merecem destaque:

1. Proteger os grupos vulneráveis

A resposta deve basear-se em mecanismos de apoio focalizados nos domicílios mais afetados pelo aumento dos preços dos alimentos e da energia.

Sistemas de transferências monetárias bem desenhados e estabilizadores automáticos podem ajudar a amortecer os impactos de forma rápida e eficiente. Os países com sistemas de proteção social mais sólidos estarão em melhores condições de proteger o poder de compra sem gerar distorções fiscais significativas.

2. Manter a disciplina fiscal

O choque é grande demais para ser absorvido pelos orçamentos públicos.

Subsídios generalizados e medidas emergenciais mal focalizadas podem enfraquecer a posição fiscal, distorcer incentivos e tornar-se difíceis de reverter. Diante da pressão para agir rapidamente, o objetivo deve ser claro: apoiar os grupos vulneráveis sem comprometer a estabilidade macroeconômica.

Os países com colchões fiscais mais sólidos e maiores reservas internacionais estão em melhores condições de responder sem comprometer a confiança nem as perspectivas de crescimento de longo prazo.

3. Fortalecer a oferta e a resiliência

Não se trata de um choque isolado. Choques desse tipo estão se tornando mais frequentes e complexos. Reduzir a vulnerabilidade exige medidas estruturais.

Diversificar as fontes de energia, fortalecer as cadeias regionais de suprimento, ampliar a produção local e regional de fertilizantes e melhorar a logística são medidas essenciais para reduzir a exposição a futuros choques externos.

Ao mesmo tempo, a região tem a oportunidade de se posicionar como um parceiro seguro e confiável nas cadeias globais de suprimento, desde a agricultura até os minerais críticos. Avançar para atividades de maior valor agregado pode impulsionar o crescimento, fortalecer a resiliência e gerar empregos.

Um choque desigual que exige respostas adaptadas a cada país

O conflito com o Irã ocorre em um momento em que muitos países da região ainda estão reconstruindo suas margens fiscais e sociais após a pandemia de COVID-19, enquanto a inflação apenas recentemente começou a se moderar.

Ao mesmo tempo, a América Latina e o Caribe enfrentam esse choque a partir de uma posição macroeconômica mais sólida do que em décadas anteriores. Os níveis de reservas são, em geral, mais elevados, a matriz energética da região é mais diversificada e os mercados financeiros têm demonstrado relativa resiliência até o momento.

Ainda assim, os efeitos do choque provavelmente continuarão sendo desiguais entre os países, em função da produção de petróleo, da dependência das importações de alimentos e fertilizantes e do espaço fiscal disponível.

Isso significa que a resposta não pode seguir uma única fórmula regional. Os países precisarão adotar medidas específicas que protejam os grupos vulneráveis, preservem a estabilidade macroeconômica e reduzam as vulnerabilidades estruturais ao longo do tempo.

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