Choques econômicos globais raramente são unidimensionais. Costumam vir em camadas com impactos que interagem e se reforçam mutuamente.
A guerra envolvendo o Irã é um exemplo claro. O que começou como um conflito geopolítico agora é um choque múltiplo de oferta. O preço da energia está subindo. Gargalos nas cadeias de suprimento estão aumentando. Os mercados de fertilizantes estão sob pressão. Essas forças atuam simultaneamente, afetando inflação, crescimento e as contas externas de países em todo o mundo.
A América Latina e o Caribe têm demonstrado resiliência até agora. Isso reflete anos de melhora na gestão econômica em grande parte da região, o que ajudou os países a chegar até aqui em uma posição mais estável.
Desde o início do conflito, as projeções de crescimento para a América Latina e o Caribe têm permanecido amplamente estáveis desde o início do conflito. Os mercados de trabalho também seguem resilientes, com taxa de desemprego próxima de 6% — o nível mais baixo em mais de uma década.[1] O sentimento dos investidores também permanece relativamente estável, com spreads soberanos em cerca de 219 pontos-base para a mediana da economia, abaixo dos níveis anteriores ao choque.[2]
A região também entrou neste período de turbulências equipada com amortecedores relevantes. Cerca de 60% da geração de eletricidade na América Latina e no Caribe vem de fontes renováveis — aproximadamente o dobro da média global. Isso ajuda a reduzir a exposição direta a choques nos preços do petróleo.
Resiliência não é imunidade
Ainda assim, resiliência não significa imunidade. Este choque é significativo e pode durar. Mesmo onde o impacto imediato tem sido administrável, um ambiente global mais fraco poderia pesar gradualmente. Os níveis de endividamento permanecem altos, os custos de financiamento aumentaram, e a incerteza continua pressionando as condições financeiras. Some-se a isso o crescimento de longo prazo fraco com o qual a região adentra neste período, em média de cerca de 1% ao ano na última década.
Onde o choque atingiu — e onde a região resistiu
Choque, canal por canal.
O que mudou e o que se manteve três meses após o choque.
| ONDE O CHOQUE INCIDIU | ||
| DISPAROU | Preço do petróleo | Cerca de +50% vs. fim de janeiro |
| SUBINDO | Preços dos alimentos | Mais rápido na América Central e no Caribe, os importadores de alimentos |
| LEVE ALTA | Inflação cheia | Reacelerou em menos de 2 p.p. |
| O QUE SE MANTEVE | ||
| FIRME | Câmbio | Apreciação de até ~8% (Costa Rica, Brasil) |
| FIRME | Spreads soberanos | ~25 pb mais comprimidos em média; até ~45 pb |
| FIRME | Núcleo da inflação | Sem repasse do choque na inflação cheia |
| FIRME | Atividade real | Brasil e México ~0%; Peru e Chile 3–4% a/a |
| FIRME | Bolsas | Praticamente estáveis após a alta de 4–9% em fevereiro |
Fonte: Latin Macro Watch (LMW), BID
Um canal de transmissão merece atenção especial: os preços dos alimentos. À medida que os preços da energia e dos fertilizantes sobem, os preços dos alimentos tendem a acompanhar, muitas vezes se acumulando ao longo do tempo e com defasagem de até um ano. O gás natural, cuja trajetória segue de perto os preços do petróleo, é o principal insumo para a produção de fertilizantes nitrogenados, de modo que um choque de energia rapidamente se transforma em um choque de produção de alimentos. O efeito é mais forte em economias mais dependentes de importações. Isso já está visível, pois a inflação de alimentos aumentou na maior parte da região, exceto nos países do Cone Sul, importantes produtores de alimentos.
Os preços mais altos estão concentrados em alimentos e combustíveis — não em toda a economia
Os preços dos alimentos mostram o mais claro sinal pós-choque na América Latina e no Caribe.
Variação percentual interanual do IPC de alimentos por região, média simples entre países. Argentina, Venezuela, Haiti e Suriname excluídos.
Para as famílias de baixa renda, isso representa um risco significativo. Os alimentos compõem uma parcela elevada de seus gastos, e, assim, preços mais altos podem corroer rapidamente o poder de compra e empurrar mais famílias para a pobreza — com aumento de cerca de 0,3 a 0,8 ponto percentual.
Prioridades de política pública
As escolhas de política pública feitas agora determinarão como o choque será absorvido no nível macroeconômico e o quanto ele poderá afetar os mais vulneráveis. A resposta deve ser temporária, direcionada e fiscalmente responsável para proteger o crescimento, apoiar a segurança econômica e construir resiliência.
Três prioridades de política pública se destacam:
1. Proteger as famílias pobres e vulneráveis
A resposta deve se basear em apoio direcionado. Nesse contexto, proteger as famílias pobres e vulneráveis é a primeira prioridade.
Sistemas bem desenhados de transferência de renda podem ser ampliados rapidamente para alcançar os mais afetados. Estabilizadores automáticos, como o seguro-desemprego, podem desempenhar papel importante ao amortecer o impacto. A América Latina e o Caribe se destacam globalmente como uma região pioneira no desenho e na implementação de programas de transferência de renda. Esses sistemas oferecem uma base importante para responder rapidamente a choques e alcançar as famílias mais afetadas.
No Grupo BID, estamos apoiando os países a fortalecer esses sistemas por meio de direcionamento de apoio, ampliação de cobertura e garantia de respostas rápidas quando os choques ocorrerem.
2. Manter a disciplina sob pressão
O choque é grande demais para ser absorvido pelos orçamentos públicos.
Medidas mal desenhadas podem enfraquecer posições fiscais, distorcer incentivos e reduzir produtividade. Subsídios amplos, por exemplo, são caros, e a maior parte dos benefícios vai para quem não precisa de apoio. Medidas emergenciais mal formuladas podem enfraquecer o capital humano e a produtividade, assim como ocorreu quando a mudança para aulas on-line levou a perdas de aprendizagem entre aqueles sem acesso adequado à tecnologia.
À medida que os governos são pressionados para agir rapidamente, o princípio orientador deve ser claro: não causar danos. O objetivo é um conjunto de políticas que estabilize o presente sem comprometer o futuro.
No Grupo BID, estamos oferecendo apoio em políticas públicas para ajudar os países a atravessar esse choque sem reverter conquistas duramente alcançadas.
3. Resposta estrutural: diversificar e ampliar a oferta
Não se trata de um choque isolado. As disrupções globais estão se tornando mais frequentes, mais complexas e mais interconectadas. Reduzir vulnerabilidades exige mais do que alívio temporário. Exige ação estrutural para diversificar a oferta, assegurar insumos-chave e fortalecer a capacidade da região de responder a choques futuros.
Várias vulnerabilidades se destacam. A América Latina e o Caribe são grandes produtores de alimentos, mas continuam dependente de fertilizantes importados. Choques nos preços dos fertilizantes, por si só, podem reduzir o crescimento em até 0,16 ponto percentual e elevar a inflação em cerca de 0,3 ponto percentual. A logística é outra restrição. Disrupções no transporte marítimo global e nos processos de fronteira podem reduzir o crescimento em até 0,3 ponto percentual e acrescentar pressão à inflação.
A agenda é clara. Os países precisam diversificar fontes de energia, expandir a produção local e regional de fertilizantes, melhorar a logística e fortalecer a infraestrutura comercial. Essas medidas reduziriam a exposição a disrupções externas, ao mesmo tempo em que ajudariam a manter a produção quando os mercados globais estiverem sob pressão.
Esta é uma oportunidade para a região se posicionar como um parceiro seguro e confiável nas cadeias de suprimentos globais — da agricultura aos minerais críticos. Avançar na cadeia de valor pode apoiar o crescimento, fortalecer a resiliência e gerar empregos.
O Grupo BID está apoiando essa agenda por meio de financiamento, linhas de crédito e plataformas de investimento que ajudam países e empresas a assegurar insumos-chave — incluindo fertilizantes, energia e derivados de petróleo; manter a produção; e investir em projetos de longo prazo nas áreas de energia, agricultura e infraestrutura.
Olhando para o futuro
Para a América Latina e o Caribe, o desafio é responder de maneiras que protejam a estabilidade hoje, ao mesmo tempo em que reduzam a vulnerabilidade ao longo do tempo.
Os choques não são uma escolha, mas podemos escolher como responder e como nos preparar para eventos futuros.
A prioridade deve ser proteger os mais vulneráveis, manter a disciplina e fortalecer a oferta de bens essenciais.
No Grupo BID, estamos trabalhando em estreita colaboração com os países e parceiros de todo o sistema multilateral para transformar as ações de hoje nos pontos fortes de amanhã. O que importa não é apenas atravessar este choque, mas sair dele mais fortes.
Notas de rodapé:
1 Em relação a janeiro, o “World Economic Outlook” de abril de 2026 do FMI revisou para cima em 0,1 ponto percentual a projeção de crescimento para a América Latina e o Caribe em 2026, sendo a única revisão regional positiva.
2 Os spreads do EMBI se ampliaram em março, atingindo o pico na maioria dos países em 30 de março, mas, no início de maio, estavam cerca de 25 pontos-base abaixo dos níveis pré-choque, em média (excluindo a Venezuela).