- Um enfoque mais pragmático e voltado para resultados concretos está reconfigurando a cooperação regional na América Latina e no Caribe a partir das lições aprendidas de esforços anteriores de integração, que nem sempre corresponderam às expectativas.
- No centro dessa transformação estão iniciativas como Amazônia Sempre, América en el Centro, ONE Caribbean e Conexão Sul, impulsionadas conjuntamente pelo BID e pelos países participantes, que transformam desafios comuns em objetivos coordenados e ações regionais tangíveis.
- Por meio dessas plataformas, os países da América Latina e do Caribe podem ampliar o alcance de suas soluções, mobilizar investimentos e fortalecer sua voz coletiva como ator global.
Os países da América Latina e do Caribe (ALC) buscam há décadas promover a integração econômica regional como forma de ganhar escala, reunir recursos e ampliar o comércio e o investimento. Esses esforços geraram avanços importantes. No entanto, estruturas rígidas, mandatos excessivamente amplos e desalinhamentos entre os países frequentemente limitaram a implementação e diluíram o impacto, reduzindo gradualmente o impulso dessas iniciativas.
Hoje, a cooperação regional entra em uma nova fase. Em uma economia global mais fragmentada, marcada por crescentes desafios comerciais, tecnológicos e de resiliência, os países da ALC estão adotando abordagens mais pragmáticas, flexíveis e orientadas a resultados para a cooperação, com o apoio do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).
Essas novas abordagens se baseiam em lições do passado, mas concentram-se sobretudo em gerar benefícios concretos e mensuráveis para os países participantes, ao mesmo tempo em que contribuem para enfrentar desafios globais e fortalecer a voz coletiva da ALC no cenário internacional.
A busca por maior colaboração nas dimensões econômica, política, social e em outras áreas tem sido uma constante na América Latina e no Caribe. De projetos de infraestrutura que encurtam distâncias a iniciativas regulatórias que ampliam mercados, da interconexão elétrica para fortalecer a segurança energética a esforços conjuntos para erradicar doenças, a cooperação entre os países da região produziu resultados relevantes. Ainda assim, ao lado desses avanços, instalou-se certa fadiga em relação à integração regional, alimentada por expectativas que nem sempre foram atendidas e por dificuldades de implementação, enquanto muitos desafios comuns continuaram a superar a capacidade de resposta de qualquer país isoladamente. O que está mudando agora?
Em um contexto global mais complexo e incerto, caracterizado por baixo crescimento e por restrições fiscais e estruturais mais rigorosas, os países da região estão revisitando a cooperação regional com foco mais claro na implementação e nos resultados. A integração passa a ser entendida como uma ferramenta para resolver problemas de forma conjunta e gerar oportunidades compartilhadas.
O Banco Interamericano de Desenvolvimento trabalha com os países da região para promover modelos de cooperação mais focados. Baseados na proximidade geográfica e organizados em torno de objetivos comuns, esses esforços buscam catalisar a colaboração em torno de prioridades estratégicas, com resultados mensuráveis e a participação ativa de múltiplos atores.
Nesse espírito, quatro programas emblemáticos liderados pelos países e apoiados pelo BID foram estruturados: Amazônia Forever, América en el Centro, ONE Caribbean e Conexão Sul. Em conjunto, essas iniciativas compartilham características que refletem uma nova forma de organizar a cooperação regional.
Esses programas funcionam como marcos estruturados para a ação conjunta, definidos pelos governos e desenvolvidos pelo BID sob sua orientação. Eles não buscam reunir toda a região sob uma única estrutura nem constituem apenas um conjunto de projetos nacionais isolados. Em vez disso, atuam como plataformas focadas para catalisar financiamento, mobilizar investimentos, fortalecer a assistência técnica e ampliar a produção de conhecimento em apoio a seus objetivos.
A cooperação no âmbito desses programas é de natureza funcional. Cada iniciativa traduz desafios regionais compartilhados em um conjunto limitado de prioridades e pilares operacionais, refletindo a demanda dos países, as necessidades de desenvolvimento territorial e as lacunas de integração existentes. Por exemplo, como o fortalecimento da conectividade regional é fundamental para ampliar a competitividade e o crescimento na América do Sul, as prioridades do Conexão Sul concentram-se em infraestrutura física e digital, logística e facilitação do comércio e convergência regulatória.
América en el Centro, por sua vez, busca fortalecer a produtividade e a integração comercial, aumentar a resiliência e ampliar as oportunidades para a juventude, com o objetivo de construir uma América Central mais integrada e produtiva.
Todos os países dentro do escopo geográfico de uma iniciativa podem participar. Amazônia Sempre, por exemplo, está aberto aos países da região amazônica que buscam ampliar oportunidades econômicas ao mesmo tempo em que fortalecem a resiliência e a sustentabilidade. A participação em projetos específicos depende do interesse dos países. Um projeto de passagem de fronteira, por exemplo, naturalmente envolve apenas países vizinhos.
Esses programas também podem incluir projetos nacionais quando há claros efeitos regionais, como infraestrutura que melhora a conectividade ou iniciativas que podem ser replicadas em outros países. A governança permanece simplificada. As iniciativas operam de acordo com as normas e políticas institucionais do BID, sem a criação de estruturas adicionais de tomada de decisão. Em um contexto de acesso limitado a financiamento de desenvolvimento em condições favoráveis, esse desenho pragmático é reforçado pelo uso de instrumentos financeiros inovadores de desenvolvimento, incluindo garantias, trocas de dívida e seguros paramétricos.
Embora ancorados no BID, os programas regionais mobilizam ação coletiva em diversos setores, com ênfase particular na participação do setor privado. No âmbito do ONE Caribbean, por exemplo, um mecanismo de coordenação contribui para preparar e levar ao mercado projetos viáveis do setor privado. O engajamento com instituições regionais e multilaterais também fortalece a implementação. Para viabilizar investimentos estratégicos em energia renovável, por exemplo, o ONE Caribbean vem trabalhando com organismos regionais, empresas de energia e ministérios para desenvolver um roteiro de harmonização de padrões energéticos.
Por fim, cada iniciativa é explicitamente orientada para resultados, com objetivos claramente definidos e indicadores mensuráveis que permitem aos países e parceiros acompanhar o progresso e ajustar as ações quando necessário. No âmbito do América en el Centro, por exemplo, um projeto de 130 milhões de dólares destinado a acelerar os processos de liberação nas fronteiras para operadores certificados, fortalecer a rastreabilidade digital de cargas e ampliar serviços logísticos ao longo do Corredor do Pacífico transformará a principal rota de carga da América Central em um sistema logístico plenamente integrado e competitivo, gerando ganhos econômicos anuais de até 700 milhões de dólares.
Amazônia Sempre, América en el Centro, ONE Caribbean e Conexão Sul são iniciativas lideradas pelos governos e baseadas em objetivos e prioridades compartilhados. Uma ampla apropriação nacional, inclusive por parte de outros atores, é fundamental para o sucesso. Também é essencial o papel do BID em apoiar os países na definição de suas prioridades, na identificação de áreas de convergência, na promoção de uma implementação eficaz e na construção de sustentabilidade ao longo do tempo.
O BID estruturou cada uma das quatro plataformas regionais com o objetivo de promover ações de curto prazo inseridas em uma visão de desenvolvimento de longo prazo. Para apoiar esse esforço, o Banco mobiliza equipes dedicadas para coordenar e acompanhar cada iniciativa, ao mesmo tempo em que reúne governos e outros atores, incluindo cidades, bancos de desenvolvimento e empresas privadas, para facilitar acordos, construir parcerias e ampliar o impacto. O BID também atua como um polo de conhecimento, apoiando o diálogo de políticas públicas e o desenho de projetos com base em evidências e em colaboração com parceiros regionais e multilaterais.
O Banco também desempenha um papel catalisador ao impulsionar iniciativas regionais por meio da estruturação de carteiras de projetos, do alinhamento de incentivos e da mobilização de financiamento em escala. Com seus instrumentos financeiros e sua capacidade de articulação, o BID estrutura projetos viáveis, direciona capital de forma estratégica e mitiga riscos para atrair recursos privados e concessionais, em coordenação com o IDB Invest e o IDB Lab, os braços do Grupo voltados ao setor privado. Ao ancorar projetos em bases técnicas sólidas e em prioridades regionais, o Banco contribui para transformar compromissos compartilhados em resultados escaláveis e sustentáveis, com potencial de replicação entre países.
O BID assegura que essas iniciativas regionais estejam alinhadas com padrões internacionais e boas práticas globais, aproveitando parcerias com instituições como o Banco Mundial, a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico e outras organizações multilaterais e regionais. Dessa forma, contribui para conectar os países da América Latina e do Caribe a mercados globais, conhecimento e inovação.
No entanto, o valor de uma cooperação regional renovada vai além do alinhamento com padrões internacionais. Ao atuar de forma coletiva, os países da região podem fortalecer sua voz em fóruns globais, influenciar agendas internacionais em temas como resiliência climática, biodiversidade, facilitação do comércio e segurança alimentar e participar de forma mais efetiva em iniciativas globais. Nesse sentido, a cooperação regional pragmática torna-se não apenas uma ferramenta para promover crescimento e desenvolvimento, mas também uma plataforma para ação global e posicionamento estratégico em um contexto global cada vez mais fragmentado.