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A prática leva à perfeição: como a IA está mudando o valor da experiência em detrimento de credenciais na América Latina e no Caribe

Ciência, tecnologia e inovação, Comércio e investimento A prática leva à perfeição: como a IA está mudando o valor da experiência em detrimento de credenciais na América Latina e no Caribe À medida que a IA torna abundante o conhecimento codificado, a expertise prática se torna paradoxalmente mais escassa — com grandes implicações para a força de trabalho da Améroca Latina e Caribe. Mai 28, 2026
Tutor enseñanado a alumnos en una mesa
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Pontos principais
  • À medida que a IA torna o conhecimento codificado abundante, o conhecimento tácito — a expertise adquirida por meio da prática apenas — torna-se mais escasso e valioso.
  • A região enfrenta um risco específico: os empregos de nível inicial nos quais jovens trabalhadores adquirem habilidades práticas são exatamente aqueles mais expostos à automação com IA.
  • Os governos devem investir em políticas públicas, treinamento duplo e registros portáteis de emprego, para garantir que a adoção da IA não esvazie as oportunidades de aprendizagem da próxima geração. 

Por um tempo, a conversa sobre inteligência artificial e trabalho girou em torno de uma pergunta simples: quais tarefas as máquinas podem realizar e quais continuarão sendo humanas? Essa pergunta ainda importa, mas o debate já avançou. Pesquisas recentes apontam para uma preocupação mais ampla: a IA (inteligência artificial) pode moldar não apenas o que os trabalhadores fazem, mas também como as capacidades humanas são formadas e transmitidas ao longo do tempo — uma questão urgente para a América Latina e o Caribe (ALC).

Essa mudança ressalta que a experiência e o julgamento prático agora importam mais do que nunca. Para garantir que a IA fortaleça o capital humano em nossa região, os formuladores de políticas devem ampliar a aprendizagem por meio de estágios e treinamento duplo, tornar os registros de trabalho portáteis para indicar habilidades práticas e apoiar a experiência em início de carreira por meio de subsídios direcionados.  

Um lugar útil para começar é com uma distinção simples, mas frequentemente negligenciada: a diferença entre conhecimento explícito e conhecimento tácito. O conhecimento explícito pode ser codificado, escrito, ensinado em sala de aula, armazenado em um banco de dados ou transmitido por meio de manuais e documentos.

O conhecimento tácito é diferente — é uma expertise prática adquirida por meio de experiência, tentativa e erro e contexto. Inclui a intuição de um profissional de enfermagem experiente, a vivência de campo de um assistente social, o julgamento prático de um professor ou a implementação do know-how de um gestor público. Grande parte do que importa no trabalho especializado é difícil de ser documentado e ainda mais difícil de ser transferido apenas por meio de instrução.

Essa distinção é importante porque a IA generativa parece especialmente boa para ampliar conhecimento explícito, visto que pode resumir, classificar, recuperar, comparar, redigir e recombinar informações a um custo muito baixo. Mas isso não significa que possa replicar igualmente bem o julgamento prático que vem da experiência. Pelo contrário, o oposto pode ser verdadeiro: quanto mais abundante o conhecimento codificado se tornar, mais valioso poderá ser o conhecimento adquirido apenas por meio da prática. 

Quando fazer vale mais do que saber

Essa possibilidade permeia grande parte da nova literatura, embora sob diferentes ângulos. Acemoglu, Kong e Ozdaglar estudam como a IA generativa — especialmente a autônoma — pode enfraquecer os incentivos para adquirir conhecimento específico de contexto, corroendo gradualmente a base de conhecimento da qual dependem decisões futuras.

Ide e Talamàs analisam como a IA reestrutura a organização do trabalho do conhecimento, mudando o papel dos trabalhadores que resolvem problemas rotineiros e aqueles de especialistas que lidam com exceções. O artigo mais recente de Ide destaca um risco relacionado: como a automação de tarefas de nível inicial pode reduzir as oportunidades pelas quais a expertise tácita é transmitida entre gerações de trabalhadores.

A pergunta que eu acrescentaria está mais próxima da economia clássica do capital humano: se a IA amplia o conhecimento codificado mais facilmente do que o conhecimento tácito, quais mudanças devemos esperar na forma como os trabalhadores são pagos e valorizados?  

Isso traz à tona uma questão mais antiga na economia do trabalho, associada a Ben-Porath e Mincer: como o capital humano é construído ao longo do ciclo de vida, por meio de educação e experiência, e como os salários refletem o retorno para ambas. Na era da IA, essa estrutura pode adquirir um novo significado. A IA pode fazer mais do que transferir trabalhadores entre tarefas. Pode alterar a composição do valioso capital humano, reduzindo a relativa escassez de conhecimento codificado, ao mesmo tempo em que aumenta a escassez relativa de experiência adquirida com a prática.

Isso não é apenas uma hipótese vaga. Modelos econômicos de acumulação de capital humano apontam para várias implicações observáveis. Em ocupações mais expostas à IA, o retorno para a educação formal deve enfraquecer em relação ao retorno para a experiência.

O momento na carreira de um trabalhador em que a experiência se torna mais valiosa do  que as credenciais deveria chegar mais cedo para gerações mais novas — uma mudança que pesquisadores têm acompanhado em dados sobre renda entre gerações, e que trabalhos recentes sobre como a escolaridade e a experiência inicial de trabalho interagem ao longo do ciclo de vida ajudam a explicar.  

E as empresas podem começar a depender menos somente de títulos e diplomas, e mais de experiência documentada: históricos de trabalho, portfólios e desempenho comprovado na triagem de candidatos — um cenário em que registros de emprego portáteis podem se tornar cada vez mais relevantes como um novo tipo de "credenciais" de conhecimento prático. 

Por que isso importa para a América Latina e o Caribe

Em nossa região, uma grande parte do crescimento do emprego formal nas últimas duas décadas se deve a serviços e ocupações administrativas (apoio administrativo, atendimento ao cliente, análise de rotina, intermediação administrativa), justamente porque ofereciam uma escada acessível para o mercado de trabalho. Muitos desses empregos também estão entre os mais expostos à IA generativa.

Se essas tarefas de nível inicial forem comprimidas rápido demais, o risco — além de demissões, dificuldades de requalificação, desestímulo e saída precoce — estará em menos oportunidades para acumular o julgamento prático que os trabalhadores normalmente adquirem no início de suas carreiras. acumular o julgamento prático que os trabalhadores normalmente adquirem no início de suas carreiras.

A preocupação, em primeiro lugar, é que a IA se desfaz exatamente das tarefas de tentativa e erro pelas quais os trabalhadores em início de carreira se tornam experientes. Em uma região onde a educação escolar deficiente é frequentemente compensada, ao menos parcialmente, pela aprendizagem no local de trabalho, essa perda pode ser especialmente onerosa.

Além das suas implicações para os trabalhadores, a erosão dos canais de aprendizagem pela prática também prejudica a produtividade e o crescimento a longo prazo. Grande parte do ganho de produtividade da adoção de IA depende não apenas da tecnologia em si, mas da capacidade da empresa para integrá-la a processos de produção complexos –  uma capacidade que depende fortemente do conhecimento tácito acumulado por meio da experiência.

Em setores nos quais a América Latina e o Caribe poderiam construir vantagens comparativas, como serviços globais e outras atividades intensivas em conhecimento, a perda de oportunidades de aprendizagem no início de carreira pode enfraquecer a capacidade de absorção das empresas e, em última análise, a sustentabilidade daquelas especializações produtivas.

O Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) identificou essa dinâmica como um desafio central do grau de preparação para IA na região: um desafio com implicações não apenas para os trabalhadores, mas também para a produtividade das empresas e a capacidade da região para sustentar atividades intensivas em conhecimento. A formação complementar para o trabalho – especialmente a educação dupla e a experiência prática supervisionada – é fundamental para assegurar que a adoção de IA não ocorra às custas das oportunidades dos jovens trabalhadores.

O BID há muito tempo apoia iniciativas voltadas para esse objetivo, notadamente as finishing schools, escolas de formação profissional, onde empresas privadas e governos, juntos, criam programas para que jovens trabalhadores adquiram experiência direta enquanto aprendem as habilidades que a IA eventualmente complementará, em vez de substituir.

Sob essa perspectiva, as escolas de formação profissional são mais do que apenas programas de empregabilidade; são mecanismos institucionais para preservar a transmissão de conhecimento tácito em contextos de rápida mudança tecnológica.

Evidências sintetizadas pelo BID sobre programas de formação para a indústria global de serviços apontam para um padrão consistente: os resultados melhoram quando o treinamento é criado com os empregadores, ancorado em tarefas reais em vez de em exercícios simulados, e avaliado com base em desempenho comprovado e não apenas em credenciais.  

Esse é exatamente o formato que importa em um mercado de trabalho em que a experiência serve cada vez mais como um sinal de valor, junto com – ou em vez de – qualificações formais. 

Um roteiro realista para habilidades de IA

O que os países da ALC devem fazer nessa etapa? Três direções se destacam.

Primeiro, repensar a educação para priorizar a aprendizagem pela prática. Se a IA lida cada vez mais com conteúdos codificados, a vantagem comparativa do treinamento centrado no ser humano pode estar em cultivar julgamentos sutis e dependentes do contexto por meio da prática. Isso significa mais estágios, residências, mentoria, experiência de trabalho supervisionada e ambientes de aprendizagem estruturados — tais como treinamento duplo e escolas de formação profissional —, que intencionalmente incorporem a prática na formação de habilidades e não apenas mais informações.  

Vale dizer que não se trata um chamado para substituir a educação formal, mas sim para reequilibrá-la na margem, expandindo os componentes experienciais nos quais a IA reduz mais diretamente a escassez de conhecimento codificável. O argumento se baseia em evidências convergentes: a literatura clássica sobre retorno para a experiência, o próprio histórico operacional do Banco com escolas de formação profissional e as primeiras constatações de como a automação por IA de tarefas de nível inicial já está comprimindo os canais pelos quais a expertise tácita é transmitida. A espera por uma prova causal definitiva acarreta seu próprio risco: se esses canais de aprendizagem se deteriorarem mais rapidamente do que as políticas conseguirem se adaptar, o custo pode ser difícil de reverter.

Segundo, tornar os registros de emprego portáteis e acessíveis. Atualmente, jovens trabalhadores usam suas credenciais como cartões de visita no mercado de trabalho. Se a experiência prática é o que importa cada vez mais, eles deveriam ser capazes de documentá-la e levá-la consigo: um registro do que fizeram, do que resolveram, de onde aprenderam. A maioria dos países tem registros de emprego fragmentados e privados, inacessíveis aos próprios trabalhadores. Tornar esses registros portáteis e públicos ajudaria os trabalhadores a validar seu conhecimento prático da mesma forma que as credenciais validam a educação formal. Esta é uma mudança de política simples e com grande potencial.

Terceiro, considerar subsídios para a experiência em início de carreira. Jovens trabalhadores sem experiência prévia são inicialmente menos produtivos, mas geram efeitos positivos ao aprender no local de trabalho. À medida que a IA reduz as vagas de nível inicial, o argumento econômico para apoio público a programas de treinamento em início de carreira se torna mais forte.

Se delegarmos excessivamente ao algoritmo a dimensão do trabalho de tentativa e erro, baseada na prática, corremos o risco de nos privarmos justamente das experiências pelas quais é difícil documentar o know-how. O resultado poderia ser o ganho de produtividade de curto prazo, aliado à erosão gradual das capacidades humanas das quais essa produtividade depende, com externalidades econômicas e sociais negativas substanciais.

O debate sobre a IA em nossa região deve ir além de adoção, infraestrutura ou regulamentação, e questionar que tipo de capital humano estamos construindo.  

Estamos dando aos trabalhadores a experiência prática para desenvolvê-lo? Quanto estamos dispostos a pagar hoje para dar uma chance aos futuros trabalhadores?  

Para explorar as pesquisas e publicações do BID sobre inteligência artificial e o futuro do trabalho na América Latina e no Caribe, visite nossa biblioteca de publicações sobre IA.

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