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A sala de aula na luta pela paz

Charo Quesada

Quando uma guerra, desastres naturais, crises econômicas ou violência afligem uma sociedade, o sistema educacional geralmente é uma das primeiras instituições a se desorganizar. No entanto, repetidos casos mostraram que, na seqüência dessas perturbações, a presença e continuidade de programas educacionais é crucial para reconstruir o tecido social.

Mulheres e crianças geralmente são quem mais sofre o impacto dos transtornos sociais. Mas o que um país como El Salvador faz com seus ex-guerrilheiros ou ex-soldados do governo? Como a Guatemala ou o Peru devem tratar os habitantes de áreas indígenas traumatizados por décadas de violência? Como a Colômbia pode lidar com os milhões de pessoas que foram desalojadas por conflitos armados? O que o Vietnã e o Camboja fizeram com suas crianças durante os anos do pós-guerra?

Em From Bullets to Blackboards (apenas inglês), publicado pelo BID em 2005, os editores Emily Vargas-Barón e Hernando Bernal Alarcón apresentam respostas para algumas dessas perguntas. Uma educação efetiva, dizem eles, é essencial para preparar as novas gerações pós-conflito para uma vida produtiva, curar feridas, evitar o ressurgimento da violência e alcançar a paz verdadeira. Se as necessidades educacionais da população durante e depois de uma crise forem ignoradas, alertam eles, as condições que levaram ao conflito serão perpetuadas.

Implantar esses tipos de programas no meio de um conflito é algo complexo, mas não impossível, como os exemplos do livro mostram. É preciso um esforço abrangente para lidar com as seqüelas de confrontos armados, do abuso exercido por regimes políticos e do isolamento e abandono de comunidades remotas. Além da alfabetização e das habilidades básicas necessárias para encontrar emprego, as pessoas precisam de ajuda em áreas como auto-estima, diálogo, solução de conflitos, aprendizagem por consenso e direitos humanos básicos. O futuro incerto das populações afetadas pela violência não deve ser um obstáculo a que se iniciem programas de longo prazo.

El Salvador e a reforma educacional. Em 1992, depois de 12 anos de conflito armado e de dois violentos terremotos, El Salvador fez da reforma da educação uma prioridade nacional, como parte dos acordos de paz. Participação, diálogo e consenso nacional foram essenciais para o sucesso subseqüente do programa, assim como a incorporação de objetivos de longo prazo, flexibilidade e descentralização. O investimento em educação subiu de 1,8% do PIB no início da década de 1990 para cerca de 3% em 2000.

Vietnã e as crianças. A política de educação universal adotada pelo Vietnã em 1990 apoiou-se numa estratégia criativa para atender às necessidades de crianças pertencentes a grupos étnicos isolados pela guerra. O governo introduziu o Programa de Ensino Multiníveis, montando escolas com uma ou duas salas de aula que ofereciam educação abrangente para crianças de várias idades, com professores treinados para esse propósito. Hoje, os alunos dessas escolas alcançaram resultados comparáveis aos dos alunos do resto do país. Além disso, a participação de meninas aumentou enormemente, porque as escolas são próximas das residências de suas famílias.

El Salvador e ex-combatentes. Em 1992, cerca de 30.000 ex-militares ou ex-guerrilheiros foram reincorporados à sociedade civil. Muitos eram iletrados, e o único meio de interagir com a sociedade era pelo uso da violência e das relações hierárquicas. Eles eram agressivos, desconfiados e propensos a brigas e posições radicais. Os ex-militares recuperaram-se mais rapidamente do que os ex-guerrilheiros, porque estes últimos haviam vivido mais conflitos entre suas várias facções. Além disso, os ex-guerrilheiros tinham sido deixados à própria sorte, o que contribuiu para o aumento da criminalidade e do mal-estar social. Quando o Programa para Reintegração e Emprego de Ex-Combatentes foi iniciado em 1993, 70% dos inscritos eram ex-guerrilheiros e 60%, mulheres. Como parte do programa, 225 mulheres ex-combatentes aprenderam a ler e escrever. Elas também receberam treinamento em serviços de saúde ou em corte e costura, além de orientação sobre temas como autoconfiança, tolerância, responsabilidade, justiça e solução de conflitos.

Peru e direitos humanos. Décadas de turbulência política empurraram os peruanos para uma cultura de medo e violência que os levou a aceitar condições autoritárias, além de gerar uma falta de respeito em relação ao governo e às instituições. Em 1996, o Instituto Peruano de Educação em Direitos Humanos e Paz lançou o Programa de Capacitação de Líderes Comunitários em Direitos Humanos, destinado a formar líderes em democracia e participação pública. Esses líderes, por sua vez, seriam promotores dos direitos humanos por todo o país. O programa instruiu 2.269 líderes comunitários em temas como o valor da democracia e mecanismos para proteger os direitos humanos no Peru.

Colombia: laboratórios para a paz. Um programa desenvolvido pela Universidade de Ibagué, no Departamento de Tolima, criou um ambiente de coexistência social numa região que havia sido devastada pela violência e pobreza extrema. O mais poderoso grupo guerrilheiro do país – as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (ou FARC) – foi fundado nesse departamento, que é o lar de 1,4 milhão de pessoas. As FARC ou outras facções guerrilheiras ou paramilitares controlam 70% de Tolima, e as restrições de movimento impostas aos moradores locais afetaram os serviços de saúde e a educação. Cerca de 66% da população de Tolima vive em condição de pobreza ou pobreza extrema, e 56% de seus prefeitos receberam ameaças de morte. Para reduzir o desemprego, o analfabetismo e os problemas causados pelos deslocamentos forçados e pelo conflito, a universidade lançou, em 1993, o Programa de Desenvolvimento Social, usando novas tecnologias virtuais para capacitar os moradores a lidar com temas relacionados com o trabalho, administração e negócios. Os programas oferecem treinamento em solução de conflitos e aulas para crianças e adultos de famílias desalojadas. O programa formou 4.995 alunos, enquanto outros 2.594 fizeram cursos de alfabetização e 325 adultos receberam instruções sobre solução de conflitos. Também foram criadas várias microempresas.

Guatemala: ser bilingüe para prosperar. Aplicando o princípio de que uma educação bilíngüe é uma ponte que pode integrar grupos étnicos em sociedades pós-conflito e preservar seu patrimônio cultural, o Projeto de Alfabetização da Comunidade Maia (COMAL) ofereceu educação bilíngüe para 35.560 mulheres maias, jovens, entre 1999 e 2002. Todas as participantes aprenderam a ler e escrever, tecer, plantar hortas e educar seus filhos. O aprimoramento do conhecimento de sua própria língua serviu como base para o início do estudo de um segundo idioma. As mulheres aprenderam a solucionar problemas, obter informações e participar do desenvolvimento da comunidade.

Os exemplos citados nesse estudo enfatizam a importância da intervenção em tempos de crise e mostram que essas atividades podem ser confiadas a equipes de trabalho locais, que provavelmente serão mais bem aceitas e menos dispendiosas do que grupos de fora. Os autores também recomendam que os programas sejam oferecidos para áreas geográficas que incluam todas as populações necessitadas de ajuda. Por fim, eles nos advertem de que os conflitos não terminam quando acordos de paz são assinados e destacam a importância de auxílio internacional para possibilitar que esses tipos de programa sobrevivam a longo prazo.