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Discurso do Presidente do BID, Luis Alberto Moreno, no XII Fórum Interamericano da Microempresa

Boa noite a todos. Senhor Presidente Alan García, Presidente da República do Peru, autoridades nacionais e de Arequipa.

É realmente uma grande satisfação para mim, e para todos nós, que viemos de todos os cantos de nossa América Latina e do mundo, estar aqui e poder dirigir-me a todos os presentes. E, sobretudo, fazer um agradecimento especial ao Peru e a Arequipa pela maneira como nos receberam e pelo êxito que terá este fórum.

Eu gostaria de iniciar estas palavras destacando que estamos cumprindo, por estes dias, um ano desde o começo da crise financeira internacional. Uma crise que em nossa região se fez notar menos pelo lado financeiro do que pelo lado do comércio. Num estudo recente, o Fundo Monetário Internacional informou que a perda conjunta dos bancos norte-americanos e da Europa somou 3,5 trilhões de dólares. É como se quase a totalidade do produto interno bruto de um ano de toda a América Latina e o Caribe houvesse desaparecido.

Como se ele houvesse evaporado da noite para o dia. No entanto, mais importante do que isso, para se ter uma ideia do que foi essa crise, é que esses mesmos países terão de investir cerca de quatro vezes mais, segundo essa análise feita pelo Fundo, para recuperar o crescimento que tínhamos há um ano.

Contudo, contra todos os prognósticos, em nossa região, a América Latina e o Caribe, essa crise não teve as dimensões que prevíamos há um ano. É certo é que são muitas as lições que já aprendemos. Em  25 anos tivemos 35 crises financeiras, nenhuma das quais custou menos de dez pontos percentuais do produto nacional.

Sem dúvida, disso saíram muitas lições, que nos prepararam para atenuar grande parte dos efeitos da presente crise. Aprendemos, por exemplo, que valem a pena boas políticas macroeconômicas. Aprendemos também que a boa regulação financeira vale a pena. Não foi por acaso que nenhum dos sistemas financeiros latino-americanos tiveram, por exemplo, ativos tóxicos nos balanços das instituições financeiras.

Economias diversificadas também valem a pena. Não há melhor  substituto para o dinamismo que a inovação no setor empresarial.

E é por isso que a pergunta que nos ocorre agora é se queremos pensar para a frente. Se queremos pensar como região nos desafios que temos pela frente, em um mundo no qual certamente o crescimento há de demorar a voltar aos números que vimos antes de 2008 e 2007.

E isso me leva ao Peru, um país onde a economia continua a crescer. Um país que está na vanguarda de muitos dos programas prioritários no BID: a sustentabilidade ambiental; todas as iniciativas associadas à mudança climática; e a energia sustentável, que busca soluções estratégicas viáveis não apenas do ponto de vista ambiental, como também do ponto de vista econômico.

A Iniciativa para Todos, que o Presidente García impulsionou com tanto afinco, que oferece, além disso, um conjunto de ferramentas para ajudar a fechar essa lacuna na cobertura dos serviços de água e saneamento. Mas que também toca em algumas das principais metas de desenvolvimento do milênio. Todas essas coisas são desafios do século XXI, desafios que o BID enfrentou em nosso trabalho no Peru. E que, além de tudo, se traduzem em projetos que têm o olhar posto não na próxima eleição, e sim na próxima geração de peruanos, e por isso, senhor Presidente, queremos agradecer-lhe pelo trabalho que pudemos realizar todos esses  anos.

Igualmente, não resta dúvida de que o setor público será fundamental na maneira como esses desafios serão tratados daqui em diante. Os desafios regulatórios, os desafios de políticas financeiras e, sobretudo, os desafios associados à produtividade, que será um dos temas fundamentais, para o qual não há dúvida de que a grande questão pendente está nos temas de ciência e tecnologia. Em nossa região, se somarmos tudo o que fazem a universidade, o setor privado e os governos, não alcançamos sequer o que faz hoje em dia, por exemplo, um país como a Coreia.

Por tudo isso, creio que o que estamos fazendo aqui no Peru, e que é, em certa medida, o foco que desejamos dar ao BID nos anos vindouros, consiste em contribuir para nos inserirmos naquilo que vem sendo chamado de expansão da economia verde.

Todas essas questões ligadas à mudança climática podem ser percebidas em uma cidade como Arequipa, onde vemos que os vulcões, e não somente os picos, que se cobriam de neve no passado, mas todos os grandes picos dos Andes, estão hoje bastante destiutuídos de neve. A mudança climática está diante de nós e, tal como a energia impa, será um tema da maior importância.

Estamos também em um fórum sobre microempresas e microfinanças. E quero também reconhecer o fato de que estamos realizando, já faz alguns anos, um estudo com The Economist e a Unidade de Inteligência da Economist. Este último estudo, que cobre mais de 50 países, conclui, por exemplo, que o país que está na vanguarda de todo esse grupo de países é o Peru, na posição número um. E creio, por isso, que é mais do que oportuno que esse fórum seja realizado aqui no Peru, onde há um imenso conhecimento por parte não somente dos reguladores e dos microempresários, como também das instituições microfinanceiras.

E quando pensamos no papel que as microempresas desempenham em nossa região, percebemos que não somente delas depende uma parte muito importante do emprego gerado em toda a América Latina e o Caribe. No fim de 2008, por exemplo, estimávamos que existiam na região nada menos que 636 instituições de microfinanças, com uma carteira que superava 11 bilhões de dólares e com mais de 9,5 milhões de clientes. Entretanto, são inúmeros os desafios. Isso pode parecer muito. Mas o certo é que esse setor somente chega a 15 por cento de todas as microempresas. Os desafios são muito grandes.

Por isso, nós, do Banco, temos procurado trabalhar em uma série de atividades pontuais. Hoje, Presidente García, tivemos a oportunidade de lançar um fundo sobre o qual o senhor ouviu o próprio Presidente Obama falar na reunião de cúpula de Trinidad e Tobago, entre outras coisas. Um fundo que terá cerca de 250 milhões de dólares e foi pensado justamente para podermos ajudar as entidades de microfinanças a crescer muito mais depressa.

Outra lição que aprendemos é que os tempos de crise são  um tempo de mudança. E em finanças, mudança exige prudência. Atualmente, as boas instituições de microfinanças  dedicam cada vez mais tempo e recursos na identificação de bons clientes e num acompanhamento melhor e mais adequado dos clientes já existentes. E o tempo de crise é também tempo de inovar. E nesse sentido, lançamos hoje, com a Ministra e com vários parceiros que nos acompanham, um programa para trabalhar com mulheres da área de microfinanças, já que os estudos que realizamos mostram que são as mulheres que mais poupam e reinvestem em suas empresas.

Por todas essas razões, senhor Presidente, estamos muito felizes por estar aqui em Arequipa, parte muito importante da história. Foi aqui em Arequipa que há 50 anos o Banco fez seu primeiro empréstimo. Justamente para a empresa de água e saneamento de Arequipa, que se via diante da necessidade de se refazer devido a um violento terremoto ocorrido nesta cidade.

Eu gostaria de encerrar estas palavras dizendo a todos os microempresários, a todas as empresas de microfinanças que nos acompanham hoje, que realmente o futuro está em suas mãos, que no futuro não depende do tamanho das empresas. Não resta dúvida de que é importante que a cada dia se consolide e se articule, da melhor maneira possível, a relação entre o Estado e a empresa. Mas a inovação e a geração de emprego está nas mãos de vocês.

Quero por fim, Presidente, dividir com o senhor uma reflexão. Sempre que venho ao Peru, fico surpreendido com uma coisa. A primeira pergunta que me fazem os jornalistas sempre se reveste de um imenso pessimismo -- um tom de “por que será que tudo vai mal aqui no Peru?”. E então, na noite passada eu pensava nessa cozinha maravilhosa que tem o Peru, nessa gastronomia peruana, que qualquer outro país gostaria de ter, eu pensava no quanto o turismo vem se desenvolvendo aqui. Pensava em que, apesar de toda esta crise financeira que estamos vendo, o Peru é o único país que não apenas vai crescer, quando toda economia da América Latina se contrai quase 2 por cento. O Peru vai crescer quase 2 por cento. Que não houve um só dia em que o país deixasse de gerar emprego.

Mas, além disso, é um país que tem diante de si um futuro imenso. Por isso, essa dissociação é uma coisa que chama a atenção.

Mas eu acompanho o otimismo das pessoas que trabalham todos os dias. E vejo que estão convencidos de que aqui será construído um amanhã melhor para todos. E quero lhe dizer, senhor Presidente, que, como um Banco Interamericano, estamos prontos para acompanhá-lo nesse esforço. Esse esforço com que, a cada dia, o senhor procura construir um amanhã melhor para todos os peruanos. Muito obrigado.