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Cultura cidadã é a chave para reduzir a violência, diz estudo

Relatório apoiado pelo BID explora a cultura cidadã como fator de sucesso em longo prazo para a redução da violência

Qualquer estratégia bem sucedida para a prevenção da violência deve incluir medidas para reconhecer e mudar comportamentos que respondam a crenças, emoções e fatores culturais, de acordo com um novo estudo apoiado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).

Para alcançar mudanças profundas na segurança das cidades latino-americanas não é suficiente aumentar a capacidade da polícia, reduzir as desigualdades socioeconômicas ou alterar leis, diz o estudo. O relatório Antípodas da Vilência examina a cultura cidadã como um mecanismo para transformar comportamentos nocivos que afetam a vida e a segurança de outros cidadãos, para ajudar a reduzir os altos níveis de homicídio e lesões pessoais na América Latina e no Caribe.

Segundo o estudo, a cultura pode ajudar a regular, justificar e interpretar os comportamentos dos indivíduos. A cultura é definida como o universo das normas sociais, atitudes, crenças e hábitos compartilhados pelos indivíduos de um conjunto social e na qual se baseia a possibilidade de vida em comunidade sem violência.

Com base na Pesquisa de Cultura Cidadã aplicada em cidades latino-americanas como Belo Horizonte, Cidade do México, Quito, La Paz, Bogotá, Medelín e Caracas, e analisando dados sobresegurança e variáveis ​​socioeconômicas dessas cidades, o estudo explora o papel das crenças e atitudes sobre a violência e a insegurança, destacando a necessidade de incluir os aspectos culturais no âmbito das políticas públicas voltadas para este problema.

"Os comportamentos das pessoas têm uma base cultural que os governos podem ajudar a mudar positivamente para melhorar a convivência e segurança", diz Efrain Sanchez, pesquisador, sociólogo e co-autor do livro. "A harmonia ou desarmonia entre lei, moral e da cultura muitas vezes, determinam as atitudes das pessoas perante a lei e na base de comportamentos legais ou ilegais. Quando uma sociedade ou grupo social aprova comportamentos ilegais e desaprova comportamentos legais, a lei, é claro, perde força como um sistema regulador e aumenta a probabilidade de que se cometam atos ilegais".

Fatores culturais na violência da América Latina

Uma das conclusões do estudo é que nas cidades pesquisadas, a violência interpessoal resultante de lutas, vinganças e crimes sexuais tem um papel muito maior do que normalmente é pensado como causa de óbitos. Essas causas são mais comuns do que a violência causada por fatores sociopolíticos, e que os homicídios por roubos, classificados como violência econômica.

De fato, a América Latina está bem à frente de outras regiões na taxa de homicídios de jovens entre 16 e 25 anos de idade, com um total de 36,4 homicídios por 100.000 habitantes, enquanto a África, por exemplo, registrou 17,6 homicídios para este segmento demográfico.

Em Belo Horizonte entre 2004 e 2009, 92 por cento das vítimas de homicídio eram do sexo masculino. Em Quito, em 2009, 87 por cento dos assassinados eram homens, em comparação com 90 por cento em Bogotá e 65 por cento em La Paz.

Embora a entrada de pessoas jovens para o mundo do crime geralmente responde a princípio a problemas econômicos ou de oportunidades em alguns contextos, os autores do livro insistem que a causa é cultural, e que corresponde a razões tais como reconhecimento social e machismo.

Entre os jovens das cidades estudadas, 74 por cento justifica usar a violência principalmente pela própria defesa, 44 por cento a usa para ajudar a família, e 41 por cento o fazem para defender a propriedade ou bens. Embora a resposta "obter benefícios econômicos" seja relativamente elevada, com uma média de 37 por cento, não é a justificativa imediata ou mais forte.

Neste sentido, o reforço de sanções, por exemplo, não atacaria o problema em profundidade, uma vez que a imposição de sanções aos indivíduos que não sentem culpa ou vergonha por suas ações criminosas pode ser inútil na prevenção de recaída nelas, diz o estudo.

No entanto, os argumentos culturais e ascrenças coletivas que nutrem os comportamentos violentos, são suscetíveis a mudanças.

Antanas Mockus, ex-prefeito de Bogotá, leva essas ideias no estudo técnico "Cultura Cidadã, programa contra a violência em Santa Fé de Bogotá, na Colômbia, 1995-1997", publicado pelo BID em 2001: "Em suma, o divórcio entre os três sistemas que regulam o comportamento humano seexpressa em ações, muitas vezes ilegais, mas aprovadas moral e culturalmente ou reprovadas culturalmente, mas moralmente aceitáveis ou moralmente inadmissíveis, porém toleradas ou aceitas culturalmente. Ainda, algumas obrigações legais não são reconhecidas como obrigações morais, ou carecem de aprovação cultural em certos meios sociais. "

Entre vários exemplos de programas que estão ajudando a mudar a cultura de cidadania, os autores de Antípodas da Violência mencionam a iniciativa "Porque nada justifica o maltrato", implementada em Barrancabermeja, no departamento colombiano de Santander.

Um diagnóstico indicava que a violência doméstica havia se tornado uma das principais causas de homicídios nesta cidade. Para reverter isso, o programa implementou uma série de ações que buscavam educar, informar e solidarizar com o público sobre o problema. Tendo verificado que o ciúme era registrado como uma das principais causas do comportamento violento na dinâmica da família, foi criada uma linha chamada Celan (Ciúme Anônimo). A linha, destinada a homens e mulheres afetados e suas famílias, oferecia desde ferramentas de alívio, de contenção, gestão emocional e de comunicação para neutralizar possíveis agressões e melhorar o relacionamento entre os parceiros.

De acordo com dados do Instituto Nacional de Medicina Legal e Ciências Forenses, entre abril de 2009 e março de 2010 eram registrados um total de 1.127 de casos de lesões de violência doméstica. Após o início do programa houve 717 casos registrados, uma redução de 36 por cento.

Outro resultado do estudo chama a atenção em relação as diretrizes de tolerância. Quando perguntadas sobre quem não gostariam de ter como vizinho no seu bairro, exceto no caso de Belo Horizonte, nas outras cidades a maioria das pessoas declarou que não gostariam de ter como vizinho um viciado em drogas, por cima das opiniões que afirmaram que não gostariam de ter como vizinho um traficante de drogas.