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Economias latino-americanas são obstruídas por alto custo do transporte, mostra estudo do BID

O alto custo do transporte na América Latina e no Caribe dificulta o comércio e tem impactos nocivos sobre a produtividade de toda a economia, protegendo empresas ineficientes e impedindo que produtores competitivos expandam seu negócio, de acordo com um estudo recém-lançado do Banco Interamericano de Desenvolvimento.

A região como um todo gasta quase duas vezes mais que os Estados Unidos em despesas de frete para importar seus bens. A maior parte dos países latino-americanos tem taxas de frete mais altas quando exportam para os Estados Unidos do que países do Extremo Oriente e da Europa. Isso é alarmante, em particular quando se pensa em países que estão muito próximos dos Estados Unidos, como os do Caribe. (Ver gráficos abaixo)

Em uma classificação de 22 países da região, Paraguai e Argentina estão entre os países com os custos de frete mais elevados como porcentagem das exportações para os Estados Unidos, o que é explicado em parte pela longa distância. No entanto, até regiões mais distantes do mundo, como China ou Oceania, têm taxas de frete mais baixas do que a maioria dos países da América Latina, incluindo Guiana ou Guatemala. Os portos da América Latina e do Caribe estão entre os menos eficientes do mundo, segundo o estudo

As conclusões são parte do livro do BID a ser publicado, The Age of Productivity: Transforming Economies from the Bottom Up. O BID divulgará os resultados apresentados no livro durante sua reunião anual de 20 a 23 de março, em Cancun, no México. O livro, parte da série Development in the Americas, a principal publicação anual do BID, traz uma análise abrangente dos índices de produtividade na região e de seu impacto sobre o crescimento econômico e recomendações para os formuladores de políticas sobre como lidar com as causas da baixa produtividade.

O livre comércio pode impulsionar a produtividade ao expor os produtores a uma maior concorrência, forçando-os a reduzir custos e aumentar a eficiência, ao mesmo tempo em que amplia o acesso a mais e melhores insumos, em particular bens de capital. No entanto, os altos custos do transporte distorcem a alocação de recursos, impedindo a região de colher os plenos benefícios de produtividade que poderiam resultar da maior liberalização do comércio.

Tradicionalmente, as tarifas têm sido um dos maiores empecilhos para o aumento da produtividade, mas sua participação relativa nos custos totais do transporte diminuiu na última década depois que a região começou a abrir suas economias para um comércio mais amplo. Atualmente, os custos do transporte são mais de quatro vezes maiores do que os custos das tarifas na América Latina e no Caribe, representando uma barreira comercial maior do que as tarifas, disse o estudo.

“Baixar as tarifas, como a maior parte dos países da região fez em tempos recentes, provavelmente não é o bastante. Os custos do transporte precisam ser reduzidos em conjunto para que seja possível colher todos os efeitos positivos do comércio para a produtividade”, disse Juan Blyde, um dos economistas que trabalharam no livro. “Uma redução nesses custos do comércio precisa ser uma prioridade para a região, em particular num momento em que os países estão tentando consolidar sua posição econômica em um mundo que começou a sair de uma crise financeira.”

Impacto sobre a produtividade

Os altos custos do transporte protegem produtores ineficientes, reduzindo sua probabilidade de sair do mercado, e limitam a expansão de empresas eficientes, por reduzir sua probabilidade de exportar. Os custos do transporte são um dos aspectos que contribuem para os baixos índices de produtividade registrados na América Latina e no Caribe, diz o estudo.

A análise estatística para o Brasil e para o Chile mostra que os custos do transporte reduzem a eficiência das empresas e distorcem a alocação de recursos na economia, o que afeta o índice total de produtividade das nações. Um corte de 10 pontos percentuais nos custos de frete elevará a produtividade das empresas em 0,5% a 0,7% no Brasil e no Chile, respectivamente.  

Uma redução nos custos de frete também elevará a produtividade agregada por tornar mais provável que empresas ineficientes saíam do mercado e empresas eficientes atuem em exportação. Por exemplo, um corte de 10 pontos percentuais nos custos de frete aumenta em 1,5% a probabilidade de saída de uma empresa ineficiente no Chile e em 4% a probabilidade de atuação em exportações

Tanto tarifas como fretes são importantes, mas o espaço para redução dos custos do transporte é hoje muito maior do que para as tarifas. Por exemplo, o Chile precisaria cortar suas taxas de frete em mais de 50% para igualar os níveis dos Estados Unidos, enquanto as tarifas teriam que ser reduzidas em apenas 10% para atingir os mesmos níveis que nesse país.

O tamanho do problema

Os custos do frete equivalem a 6,6% do valor das importações na região, quase duas vezes mais que os 3,4% registrados nos Estados Unidos, de acordo com os cálculos do autor. Os custos variam amplamente entre os países da região, com os custos no Paraguai, um país sem litoral, sendo quase o triplo dos custos nos Estados Unidos, como porcentagem das importações.

Os gastos com frete como uma porcentagem das exportações mostram que a proximidade nem sempre se traduz em taxas de frete mais baixas. Os custos de frete do Panamá e da Guatemala ao exportar para os Estados Unidos, por exemplo, são quase duas vezes maiores que os custos dos países da União Europeia, apesar de a distância ser muito menor. Os custos de frete na América Latina e no Caribe são muito mais altos do que em outras regiões distantes do mundo, incluindo China e Oceania, como indica o gráfico abaixo.

A falta de eficiência na infraestrutura de portos e aeroportos explica cerca de 40% da diferença nos custos do transporte entre a América Latina e os Estados Unidos e Europa. A baixa concorrência entre as empresas de transporte e sistemas locais de transporte ineficientes, incluindo os congestionamentos de trânsito cada vez maiores nas áreas metropolitanas, também contribuem para os custos elevados.

Os portos da região têm os menores índices de produtividade quando comparados aos portos da América do Norte, Europa Ocidental, Oriente Médio e Ásia. A eficiência dos portos está relacionada não só à qualidade de suas instalações físicas, mas também a várias outras atividades de apoio, como pilotagem, reboque e manuseio de cargas.

Além disso, a eficiência tanto de portos como de aeroportos depende também de aspectos como a clareza dos procedimentos portuários, a precisão de seus sistemas de informação ou a existência de restrições legais, como a exigência de licenças especiais para realizar operações de carga e descarga.

O que os governos podem fazer?

O estudo diz que a redução dos custos do transporte requer não só melhor infraestrutura, mas também um marco regulatório que promova investimentos e concorrência. Aumentar a eficiência de portos e aeroportos e melhorar a regulação devem ser prioridades máximas dos governos da região, segundo o estudo.

O governo precisa incentivar uma maior concorrência entre as empresas de transporte e descentralizar as operações portuárias, assegurando, ao mesmo tempo, investimentos importantes, como a dragagem de um canal para permitir que navios grandes entrem no porto com menos custos operacionais.

Em termos de transporte aéreo, a eficiência e a regulação dos aeroportos estão no centro dos problemas da região. A América Latina precisa buscar mais efetivamente acordos de “céu aberto”, porque eles promovem concorrência e ajudam a reduzir os custos do transporte aéreo, disse o estudo. Além disso, o estudo alerta que a região precisa assegurar uma regulação aeroportuária adequada para garantir a qualidade dos serviços ao mesmo tempo em que amplia os esforços de privatização.

“O momento para essa agenda não poderia ser mais oportuno, uma vez que a região ainda está lutando para elevar sua produtividade e consolidar seu reencontro com o crescimento”, disse Blyde. “A redução dos custos do transporte certamente não é a resposta para todos os problemas econômicos da região, mas sem dúvida pode contribuir para aumentar o comércio e melhorar a produtividade.”