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Um equipamento fecundo

Antes do início do projeto em 2005, os pescadores de Petit Paradis eram pobres demais para consumir o produto de sua própria pesca. Hoje, um dispositivo engenhoso possibilita que alguns pescadores ganhem até centenas de dólares por semana.

A grande mudança é a chegada do DCP, ou “dispositivo de concentração de peixes”. O DCP é uma estrutura submersa com longos cabos que atrai plâncton e pequenos peixes, os quais, por sua vez, servem de chamariz para peixes maiores.

Michel Simon (à esquerda) da Fondation Verte e François Ducarmel de FAES na associação de pescadores de Petit Paradis. (Foto Peter Bate)

No caso de Petit Paradis, três desses equipamentos estão instalados a cerca de dois quilômetros da costa, no profundo Canal du Sud entre a península meridional do Haiti e a ilha de La Gonâve.

Os DCPs foram instalados como parte de um projeto de geração de renda patrocinado pelo Fundo de Assistência Econômica e Social (FAES), administrado pelo governo do Haiti, e financiado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento.

Nos últimos seis anos, o FAES entregou dezenas desses equipamentos a 13 comunidades costeiras do Haiti, ajudando centenas de pescadores tradicionais e suas esposas, que vendem o produto da pesca no mercado.

No âmbito de um programa de desenvolvimento apoiado por um empréstimo concessional de US$ 65 milhões do BID, o FAES realizou mais de 500 investimentos comunitários de pequena escala, principalmente em áreas rurais. Os projetos são selecionados pelos próprios moradores, de acordo com suas próprias prioridades. Algumas comunidades escolhem sistemas de água potável, outras optam por latrinas, painéis solares, estradas de acesso, prédios escolares, postos de saúde ou mercados públicos.

No caso de Petit Paradis, a comunidade escolheu DCPs. Os pescadores ficaram sabendo dos equipamentos por intermédio de Michel Simon, um empresário de Porto Príncipe-que administra uma organização filantrópica, a Fondation Verte.

Antes do início do projeto em 2005, os pescadores costumavam sair para o mar ao amanhecer e muitas vezes só voltavam ao cair da noite. Várias horas eram passadas apenas à procura de correntes que transportassem plâncton. A produção em geral era tão pequena que suas esposas tinham que vender todos os peixes só para comprar o suprimento diário de arroz e feijão.

Para complementar sua renda de cerca de 100 gourdes (US$ 2,50) por dia derivada da pesca, os homens de Petit Paradis cortavam árvores dos mangues para fazer lenha para fogo. Embora essa atividade ajudasse a colocar comida na mesa, ela destruía os manguezais que protegem as áreas costeiras de erosão e marés de tempestade.

Apenas duas semanas após a instalação dos DCPs, os pescadores começaram a trazer para casa maiores quantidades de bonito, dourado-do-mar, peixe-rei, atum, brema, agulhão-bandeira e cavala.

Progresso do projeto. Quatro anos depois, o presidente da associação de pescadores de Petit Paradis, Joseph Jean Mary Gelin, diz que “a vida é melhor agora”.

Joseph Gelin, presidente da associação de pescadores de Petit Paradis, mostra um dos freezers abastecido pelos painéis solares.
(Foto Peter Bate)

A aldeia adquiriu painéis solares que abastecem de energia a iluminação pública e os freezers. As crianças vão para a escola, porque seus pais podem cobrir as despesas de instrução. As condições de moradia estão melhorando. Pequenos negócios vêm sendo abertos. O microcrédito está financiando novos refrigeradores, equipamento de pesca e até barcos e motores maiores.

Alguns pescadores ganham hoje até US$ 200 por semana. Uma semana extraordinária pode render até US$ 2.000. A pesca tornou-se um negócio tão bom que está atraindo de volta homens como Gelin, que antes trabalhava em Porto Príncipe como contador. A associação cresceu de 50 para 220 membros.

Em uma reunião com Simon e autoridades do FAES, os pescadores e suas esposas discutem qual deverá ser o próximo passo. Um membro da associação defende a construção de uma câmara frigorífica onde eles possam guardar os peixes quando a pesca for abundante.

François Ducarmel, um gerente do FAES, aconselha os moradores a avançarem aos poucos, adquirindo experiência à medida que forem crescendo na atividade. “Pensem em onde estavam apenas três ou quatro anos atrás”, diz ele. O fundo vem avaliando as necessidades locais, que incluem água potável, latrinas e escolas. “Estamos no final deste projeto. Agora vamos avaliá-lo e ver como podemos reforçá-lo”, acrescenta Ducarmel.

Mais dispositivos. A proliferação de DCPs ajudou a evitar um conflito potencialmente explosivo. Quando pescadores de aldeias próximas ficaram sabendo do sucesso dos dispositivos, começaram a vir em grande quantidade para as águas próximas a Petit Paradis. Mas o FAES acabou instalando equipamentos também nas águas costeiras de outras aldeias pesqueiras, entre elas Kapity.

Com cerca de 12.000 habitantes, Kapity tem a reputação de ser a maior aldeia pesqueira do Haiti. Os líderes locais receberam visitantes do FAES, da Fondation Verte e do BID no novíssimo choucoun comunitário, uma estrutura do tipo de um gazebo construída à beira do mar, onde vários barcos ficam ancorados.

O choucoun é um dos projetos mais recentes do FAES, que também financiou banheiros públicos e quiosques de distribuição de água, painéis solares para abastecer freezers e iluminação pública, dispositivos de concentração de peixes e equipamento de pesca e uma estrada de acesso para Kapity.

“Não havia nada aqui. Nem mesmo uma estrada. Começamos do zero”, diz Michel Simon.

Jean-Claude Joseph Adler, presidente da associação de pescadores local, diz que Kapity tem dois DCPs, que estão em uso há dois anos. A renda da pesca teve um aumento expressivo, de cerca de US$ 10 para US$ 50 por dia. O próprio Adler conseguiu poupar dinheiro suficiente em um ano para construir uma casa nova para sua família de 10 filhos.