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Tecnologia e redes
POR DIEGO FONSECA

Colocar nossa própria música na web, passando longe das casas de discos. Ligar de um telefone óvel usando a rede da Telefônica, mas sem se conectar com a gigante. Vender artesanato a bom preço, sem ser traído pelo intermediário! E que tal pedir um financiamento para um icroempreendimento a investidores da Europa ou dos Estados Unidos, sentado no sofá da própria sala? Não, Aldous Huxley não voltou para re-inaugurar nenhum fantástico “mundo feliz”, mas a tecnologia está criando um bastante mais simples e,quem sabe, talvez mais divertido.

Costuma-se identifi car os microempreendedores como comerciantes e provedores de serviços tradicionais, mas há um vasto campo no qual pessoas inovadoras estão buscando alternativas para projetos pequenos porém bem alicerçados. Exemplos como os anteriores são, de fato, produto do cruzamento entre microempreendedores inovadores e novas plataformas tecnológicas, mais acessíveis, de menor custo e presentes em qualquer lugar, um fenômeno defi nitivamente universalizado.

Especialistas independentes e o próprio Banco Interamericano de Desenvolvimento começaram a estudar os modelos de negócio que estão por trás dessas experiências para determinar suas potencialidades e riscos. É uma mudança de paradigma para os microempreendedores? “Na verdade, o que se procura é determinar como e por que surgem esses fenômenos, e não julgá-los”, diz Jaime García Alba, especialista do BID em inovação e gestão do conhecimento. “O interessante é observar como as novas tecnologias permitem o desenvolvimento de modelos de negócios inovadores e analisar se estes trazem consigo risco e inovação e como os microempreendedores podem se benefi ciar de tal fenômeno”.

A chave desses empreendimentos está em uma palavra curta em letras porém imensa em significad redes. Defi nitivamente, os projetos não progridem sem a massa crítica produzida pelo que podemos chamar de anéis, ou seja, pelos círculos e comunidades de usuários-clientes-consumidores. Não haverá recursos para garantir a sustentabilidade se não houver um mercado ou um nicho com o qual esse capital dialogue. Por outro lado, exige-se respeito pela propriedade intelectual – que funciona melhor quando o usuário se envolve na geração do produto ou serviço –, e precisamente o vínculo e a apropriação dos participantes.

Essas experiências vêm se desenvolvendo há algum tempo na região e no mundo. Em todos os casos, são modelos reproduzíveis em escala.

Músicos, turistas e artesãos O estudo “Indústrias culturais na web 2.0”, do especialista David Casacuberta,tipifi cou quatro interessantes exemplos de uso da Internet como suporte de microempreendimentos. Isso é possível já que o barateamento da tecnologia possibilitou que a indústria passe da produção em massa para a personalização em massa, permitindo o uso da Internet como canal de promoção, distribuição e comercialização de produtos e serviços tradicionais.

Exemplos como esses estão começando a surgir em toda a região. Na Jamaica, por exemplo, alguns artistas estão tentando vender sua música pela rede social MySpace ou produzindo-a para telefones móveis ou para o iTunes, o site de músicas baixadas da Apple.

Num trabalho editado pela Trànsit Projectes e o BID, Casacuberta e sua equipe identifi caram 45 práticas de empreendimentos associados à circulação tecnológica e dentre elas selecionaram quatro. A seguir, são descritas três experiências latino-americanas e uma quarta européia, ainda que reproduzível na região.

TecnoBrega.
Trata-se de uma rede brasileira que agrupa DJs e músicos brega (que fazem música muito popular, considerada às vezes de gosto duvidoso) – que fazem shows semanais para financiar seu trabalho. Distribuem a música para divulgar o que produzem e sua rede. Obtém recursos com festas e apresentações e cedem aos ambulantes os direitos da venda de seus CD personalizados. Como independentes, acabam se tornando populares.
Respondem à lógica do ministro da Cultura do Brasil, Gilberto Gil, que defende o uso de novas políticas de direitos autorais mais livres, como as licenças da Creative Commons, uma ferramenta gratuita para registros de direitos de diversos níveis. Como não possuem site na rede, não se expandiram o suficiente.

Gran Canaria Trip (Europa).
A rede social e empresarial de turismo da ilha Gran Canaria, na Espanha, faz contato com empresas, turistas e habitantes locais para facilitar a compra e venda direta. As empresas incorporam uma plataforma em seu site na web para que os usuários a utilizem. A informação é retro-alimentada por todos os participantes. É um caso de produto comunitário, cada vez mais comum na web 2.0, que permite melhorar a oferta de serviços. Países como a Costa Rica, Peru e Equador estão começando a operar modelos similares para o turismo e o artesanato. Os empreendedores se benefi ciam interconectando-se e chegando a uma comunidade de clientes, os quais obtêm informação, socialização e interação. Como nos sistemas de vendas de múltiplos níveis, o site oferece descontos
em compras feitas online no interior da rede como recompensa para o usuário que participar e trouxer novos usuários.

Novica.
Criada em Los Angeles pelo peruano-americano Roberto Milk e a empreendedora social e ex-funcionária das Nações Unidas, a brasileira Armenia Nercessian, a rede já é um exemplo estabelecido. A plataforma, que permite que artesãos de zonas de escassa difusão ofereçam seus produtos, ganhou o apoio do National Geographic, que a promove. A Novica trabalha com 132 empreendedores artesãos de sete regiões do mundo, entre eles artistas dos Andes peruanos, do Brasil e do México. Os artistas podem visitar os escritórios regionais da Novica, onde têm acesso grátis à Internet, enquanto a rede lhes manda fotógrafos profi ssionais para retratar seus produtos e estilos de vida. “O que fazemos com a Novica é revolucionário”, diz Nercessian. A própria fundadora costuma contar que, além do fator econômico, o grande benefício da Novica é o sentido de dignidade e orgulho que o reconhecimento internacional confere aos artesãos. “Quando o artesão tem sucesso e se torna importante, seus filhos e outros jovens das comunidades começam a ter respeito pelas tradições”, diz.

Financiamento em família
Kiva (www.kiva.org) e Microplace (www.microplace.org) são dois sites que canalizam investimentos para microempreendedores. Ambos utilizam a rede para conectar quem toma empréstimos com quem empresta. O conceito é novo e ainda está longe de estar maduro.

O Kiva é um site com foco em fi lantropia. Por seu intermédio, é possível doar recursos para financiar projetos comerciais, produtivos e de serviços de microempreendedores de todo o mundo. Na América Latina e Caribe, o Kiva fi nanciou, com microempréstimos de US$500 a US$1.200, mais de 110 taxistas, padeiros, modistas e alfaiates, artesãos, lojistas e pedreiros, esteticistas e transportadores do Peru, Nicarágua, Bolívia, Paraguai e Guatemala.

O projeto do Kiva, que trabalha com instituições como Finca, CrediMujer e Impro, entre outras, pode crescer e atingir dimensões internacionais, já que há menos limitações para as operações filantrópicas do que para o investimento baseado na renda, como ocorre no caso do Microplace. Lançada pelo site de compras online eBay no inicio de 2008, o Microplace trabalha com fundos de organizações como a Calvert Foundation e Oikocredit, que entregam uma renda mínima anual ao investidor individual.

No total, o Microplace sustenta 17 projetos de investimento na América Latina. Organizações como a Pro Mujer no México e Bolívia, Banco Solidário no Equador, Fundação Chispa na Nicarágua e Banco da Família no Brasil ou a Fundación Paraguaya de Cooperación y Desarrollo, entre outros, está financiando empreendedores que montaram restaurantes, lojas, serviços de consertos e produzem potes, tijolos ou roupa de bebê.

Em ambos os casos é interessante ver como a Web 2.0 permite que se dê visibilidade a pequenos microempreendedores em economias emergentes e que sejam estabelecidos contatos entre eles e sócios tão improváveis como investidores americanos ou europeus.

Chamada sem espera
Alguns empreendedores estão ajudando a conectar regiões muito remotas com as grandes cidades da América Latina, embora, até agora, trate-se de um esforço embrionário. Mas é graças ao fato de estarem dispostos a chegar a milhares de pessoas espalhadas por pequenas aldeias de áreas montanhosas, áridas ou selvagens da América Latina e Caribe, cujos mercados não são considerados rentáveis pelos grandes operadores de telecomunicações, que os menos favorecidos da região começam a ter acesso a esses serviços.

Assim, o que não é negócio para os grandes é considerado como tal pelos microoperadores locais, como o Oportunet MicroTelco e o NanoTelco. Nascida como parte do Projeto Última Milla, da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID), a Oportunet oferece serviços de telecomunicações com base na tecnologia WiMax e WiFi para pequenos povoados rurais da Guatemala, Paraguai e Colômbia. Em pequenas localidades das províncias do Chaco, Jujuy, Salta ou Catamarca, no norte e noroeste da Argentina, por exemplo, as cooperativas estão se encarregando da interconexão de diminutos grupos de casas. E estão fazendo o mesmo na Bolívia, inclusive em áreas maiores.

Essas empresas compram de atacadistas “megas” de banda larga e os distribuem entre as comunidades. Para funcionar, o modelo precisa de um mínimo de massa crítica que lhe dê sustentabilidade. A existência de um acordo com escolas, comunidades e associações rurais ou prefeituras, por exemplo, permite que o microempresário agregue novos serviços para cobrir ou compensar os custos de intermediação.

O cenário ampliou-se a tal ponto que atores tão distintos como os operadores de telecomunicações, no caso da colombiana Avantel, municípios do Brasil e da Argentina e redes sociais comunitárias do Peru voltaram-se para esse modelo que desperta cada vez mais interesse. Tanto assim que, para os pesquisadores Hernán Galperín e François Bar, da Universidade do Sul da Califórnia,este foi o tema de uma pesquisa intitulada “A oportunidade Microtelc evidência da América Latina”.

Sendo assim, se tal fato ocorre é porque as grandes telcos não se interessam pelos usuários de baixo poder aquisitivo. Por outro lado, se uma microtelco é capaz de agrupar usuários de baixa renda, localizados em pontos dispersos, para realizar a microgestão de suas comunicações, ela pode oferecer um pacote mais atraente com base no volume. García Alba, do BID, explica a fórmula mágica: “O conceito se apóia no barateamento das tecnologias baseadas em WiFi, 3G (terceira geração de telefonia móvel) e WiMax (maior largura de banda), combinadas com modelos de negócio inovadores”. E assim é possível ampliar substancialmente o acesso daqueles que até então haviam permanecido ilhados ou alienados do universo das redes modernas que possibilitam um amplo acesso aos mercados.