News banner image

Notícias

Novas experiências turísticas
POR DIEGO FONSECA

Em 2004, Heloísa Barros estava convencida de que a venda era o único destino de sua chácara ngenho Velho, uma propriedade de menos de 4 hectares em São Bento do Sapucaí, a 200 quilômetros de São Paulo. Apesar de estar em mãos de sua família há mais de 100 anos, tudo prenunciava que Heloísa, a mãe, o irmão, a cunhada e os sobrinhos ficariam ao relento. Foi então que ela soube da existência do programa de turismo rural “Agregando Valor à Propriedade”, uma iniciativa do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar), instituição parestatal brasileira que faz a capacitação dos trabalhadores rurais.

Heloísa se inscreveu no programa e nele encontrou o caminho para a salvação do Engenho Velh o turismo rural. Sob a orientação do Senar, afamília gastou US$1.000 para restaurar a propriedade e adaptá-la para visitantes. Fixou um preço de US$70 de diária por acomodação e refeição. Quando as pousadas vizinhas começaram a lhe enviar hóspedes, Heloísa soube que o sucesso estava garantido. Retornou então ao Senar para adquirir capacidade em comercialização e assim abrir uma loja, onde sua mãe vende café, doces e pães caseiros, toalhas e guardanapos.

Engenho Velho é um dos projetos bem-sucedidos de turismo rural comunitário (TRC) citados pelo Centro Interamericano para o Desenvolvimento do Conhecimento na Formação Profi ssional (Cinterfor), da Organização Internacional do Trabalho. O TRC cresce entre as comunidades camponesas da América Latina. Até 2006, só no Brasil operavam 5.000 microempreendimentos,enquanto na Costa Rica, em cada dez turistas um havia tido uma experiência na área rural.

O TRC compreende uma série de atividades planifi cadas e integradas de modo sustentável pelos habitantes locais, que resgatam a cultura do campo e aplicam os benefícios na própria comunidade, estimulando práticas de proteção de bosques, economia de energia e água e um uso racional da biodiversidade. É assim que se propõe, ao chamado “turista do novo milênio”, não apenas visitar locais interessantes, mas também conviver com as famílias, participando das atividades do campo, desde a semeadura e colheita de produtos à ordenha e mesmo dos preparativos de um festejo. Em resumo, “envolver-se”.

O TRC é visto como uma atividade social que organiza uma oferta flexível, variada e profi ssionalizada em grupos de autogestão comunitária, razão pela qual é um terreno fértil para o microcrédito. Segundo Gonzalo Freiría, diretor de Turismo Rural da Faculdade de Ciências Agrárias da Universidade da Empresa (UDE), no Uruguai, a expansão de micro e pequenas empresas de serviços avaliza o negócio, “pois o desenvolvimento empresarial compreende unidades identificadas como ‘paragens’(parada), subsidiárias de programas preparados de acordo com o interesse e a demanda do público”.

A Organização Mundial do Turismo assevera que o TRC é “chave” para a diversificação de economias de subsistência, na medida em que usa fatores ociosos como mão-de-obra e capital em  microempresas familiares de serviços. Sob uma administração sustentável, criam-se empregos, gerando atividade locais encadeadas, sem necessidade de maiores investimentos em infra-estrutura além dos requeridos para serviços de água, luz ou estradas.

Crescimento a partir da base
O TRC surgiu na Europa no decorrer de 1950 e chegou à América Latina na década de 1980 como um mecanismo de sobrevivência, uma proteção contra a crise do campo. Inicialmente, dependia dos recursos da cooperação internacional; a unifi cação dos estados era recente.

Hoje, o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), por meio do Fundo Multilateral de Investimentos (FUMIN), fi nancia um cluster de 24 projetos na América Central, América do Sul e no Caribe que reúne mais de 6.500 MPMe [micro, pequenas e médias empresas]. Trata-se do maior laboratório de TRC existente na região, e inclui a criação de rotas autogerenciadas, programas de desenvolvimento sustentável e capacitação profi ssional no Equador, Peru e Bolívia, Colômbia, Guatemala e Argentina. Os recursos do FUMIN também chegam às Redes Empresariais Etnoturísticas Locais de Honduras, ao sul de Belize, à macrorregião sul do Peru e a 30 comunidades do Consórcio Cooperativo Rede Ecoturística Nacional (Cooprena), o principal promotor de TRC da Costa Rica.

Embora sejam inúmeras as experiências, nem todos os países têm uma clara política de promoção do TRC. O México, dono da engrenagem turística mais poderosa da América Latina, é um deles. De sua atividade turística não participam a população rural e a semi-rural, de cerca de 40 milhões de pessoas. De fato, há no país 24 locais que constituem patrimônio da Unesco, e a preservação de alguns deles, como as cidades maias de Chichen-Itza, Uxmal y Calakmul, poderia ser feita mediante projetos ruralistas.

Mas o Estado mexicano ainda não atingiu essa meta. Assim, seria melhor e mais conveniente que ele atentasse para o bem-sucedido caso do Quindío, na Colômbia, afi m de planejar sua chegada a esse terreno promissor. Em 1991, as autoridades do departamento colombiano reformaram quatro fazendas de café, que estavam em crise, preparandoas para receber turismo. O trabalho, em conjunto com as autoridades departa mentais, acabou gerando um conglomerado empresarial ou cluster. Quinze anos depois, encontram-se registrados 600 empreendimentos ruralistas na região, e o Quindío passou a ser o segundo pólo turístico da Colômbia.

Líderes e emergentes
As regulamentações, as políticas e experiências que permitem a criação de uma indústria sustentável de TRC são no momento visíveis apenas no Peru, Costa Rica e Equador, a estrela ascendente. Em 2007, o Projeto MET (Microempresas Turísticas, Microcrédito e Redução da Pobreza), uma aliança da OMT com o Ministério do Turismo do Equador, a cooperação holandesa e a Rain Forest Alliance (RAF), identifi cou 100 microempreendimentos integrados a rotas ou circuitos de potencial turístico. Cerca de 30 deles foram certifi cados em termos de sustentabilidade pela RAF e vários outros mais estão sendo estudados pelo MET, para determinar sua necessidade de microcréditos.

Na Costa Rica, o TRC está em consolidação. Aproximadamente 20 dos 35 grupos fi liados à Mesa Nacional Campesina – a principal organização da agremiação – decidiram integrar agricultura e turismo. Neste momento, há cerca de 70 comunidades e assentamentos rurais e aproximadamente 1.500 famílias que oferecem serviços de alojamento e refeições em casas de família, todas agrupadas nas redes Actuar, Grupo Jazón e Cooprena.

Em 2004, essas redes criaram a Aliança para o Fortalecimento do TRC, responsável pela tarefa de fazer com que a Costa Rica tenha um programa ofi cial muito organizado. Em 2007, o TRC foi declarado de interesse ofi cial pelo governo e é, junto com o ecoturismo, o turismo de sol e praia e o de aventura, o quarto macro-produto oferecido ao visitante internacional. O TRC, que possui uma  categorização especial baseada na experiência do visitante e não em padrões hoteleiros tradicionais, “começou a buscar a sustentabilidade das iniciativas e a consolidação como segmento”, diz Lelia Solano, gerente da Cooprena.

O que a Costa Rica representa em matéria de institucionalização, o Peru tem em massa crítica. Na cúpula de 2007 da OMT, realizada em Cartagena,na Colômbia, o Peru revelou que 60% dos 1,7 milhão de turistas que visitam o país a cada ano possuem alguma experiência em turismo rural. Na Costa Rica, esses números chegam a 12% de 1,8 milhão de visitantes. Foram essas cifras que levaram o governo peruano a promover seu país como destino de turismo vivencial. Some-se a isso que o Peru já fez um perfi l do chamado “turista cultural” e um Guia de Turismo Rural, além de ter mobilizado  recursos para tornar mais competitiva a oferta das comunidades,adotando as boas práticas da Costa Rica. O Peru, no momento, tempadrões de qualidade para a prestação de serviços em albergues, e comenta-se a existência de modelos de negócio para estabelecimentos inclusivos. O governo também lançou um fundo de investimento não reembolsável para fi nanciar projetos de TRC.

O que já existe… e o que falta
Agora a experiência do TRC parece prometer um fi nal feliz. As autoridades se envolveram de maneira decisiva. No Brasil, por exemplo, o Senar, que ajudou a chácara Engenho Velho, é a autoridade máxima na formação de empresários rurais. Na Argentina, foi criado um curso de pós-graduação na área de Alta Direção em Turismo Rural, na Faculdade de Agronomia da Universidade de Buenos Aires (UBA), onde se formam muitos promotores da região.

As experiências estão começando a dar resultados nas comunidades. Um estudo da Universidade da Empresa do Uruguai mostrou que o TRC gerou empregos em vilarejos e povoados, além de posicionar as pequenas empresas rurais do país. Além disso, organizações costa-riquenhas do ramo comentam que o ganho por hora de um trabalhador no setor de TRC é 50% superior ao salário rural do país.

Claro, também há desafi os. “Entre os desafi os mais importantes [ainda por resolver] estão a baixa participação dos atores locais nos benefícios, a baixa integração para planifi car o desenvolvimento turístico em nível regional ou de destino e produto, e um enfoque de desenvolvimento de produtos, desde a oferta sem conhecimento preciso dos mercados e de suas tendências”, diz Santiago Soler, especialista do FUMIN e coordenador do cluster de turismo sustentável. “Há [além disso] uma perda e fuga dos grandes benefícios do turismo para os países desenvolvidos, principalmente no que se refere a pacotes pré-pagos”.

A participação das comunidades é escassa. Um nível de educação mais baixo, limitações de capacitação e gestão empresarial, falta de acesso a tecnologias e fi nanciamento ou desconhecimento de marketing e comercialização são desafi os ainda enormes,que deverão ser
enfrentados.

Também é essencial que se mantenha o compromisso, pois o TRC não produz resultados em curto prazo. Nessas etapas, o acompanhamento público pode ser crítico. Na Costa Rica, o Plano de Desenvolvimento Turístico Sustentável 2002-2012 tentou regular os modos de posicionar os micro-empreendedores. Um ponto difícil de conciliar é a geração de benefícios econômicos e o compromisso paralelo dos investidores como desenvolvimento local.

Não é fácil. As operações comunitárias precisam de consensos difíceis de forjar, enquanto o negócio em seu apogeu exige decisões rápidas. A OMT calcula que a oferta de TRC aumentará notavelmente nos próximos 15 anos. Suas estimativas dizem que 3% dos turistas mundiais se inclinam a experimentá- lo, e que essa cifra cresce cerca de 6% ao ano, acima da taxa média de crescimento do turismo mundial.

Assim, a demanda existe, e esta requer infra-estrutura e serviço, cuja disponibilidade pode tornar realista – ou não – a projeção do negócio. As expectativas são altas: o Cinterfor calculou que os agricultores poderiam captar até 8% do gasto agregado da indústria turística com seus projetos. Isso proporcionaria entre US$114 e US$384 milhões anuais só para os camponeses do Peru, por exemplo, US$360 milhões aos costarriquenhos se seu TRC captar 5% do consumo turístico, e uns US$4.000 milhões para os proprietários de pasto mexicanos, se eles conseguirem participar com 8% do mercado.

A questão é fazer com que o dinheiro viaje para o campo. Para isso, é preciso investir, mas, especialmente, são necessários programas como o “Turismo para todos”, lançado em 2007 pelo Equador para capacitar cerca de 4.500 microempresários com base no conhecimento interdisciplinar lançado pela experiência do Projeto MET.

O BID também está contribuindo com seu empenho. O cluster FUMIN de 24 empreendimentos, apoiado pelo Banco, está profi ssionalizando a oferta e ampliando sua base social. “Isso inclui desde projetos de turismo rural a operações que querem aproveitar parte do grande fluxo turístico de cruzeiros e desviá-lo para benefícios tangíveis direcionados às populações locais”, diz Yves Lesenfantes, assessor técnico do cluster. “O cluster pesquisa e inova no uso de tecnologias de informação e comunicação para abrir novos mercados para ofertas locais, como o trabalho com comunidades virtuais ou a melhoria técnica de destinos”.

O objetivo do BID é conseguir que se desfaça certa idéia romântica e empírica do desenvolvimento turístico no âmbito das MPMe e gerar metodologias nos vários níveis da cadeia, iniciando por proponentes e executores. Segundo Lesenfants, a estabilidade da oferta de TRC se estrutura rapidamente, à medida que cresce a demanda e, por sua essência, deve ser manejada por meio de uma cadeia de comercialização especializada. “Esse mercado não é passiv interage com o produto e se sente participante de um esforço de desenvolvimento social”, diz. “Esse é o gancho de comercialização, e no cluster estamos atentos ao encadeamento da comercialização,por seu evidente papel na sustentabilidade do processo.”

A questão é abrir o campo, e abri-lo à vontade. “A promoção do turismo rural na região, como uma estratégia de luta contra a pobreza, de criação de emprego e de inclusão de uma política de gênero, é uma estratégia política que deve ser considerada em nível de superestrutura, já que na temática existem numerosas competências cruzadas”, diz Ernesto Barrera, diretor do curso de pós-graduação da Faculdade de Agronomia da UBA e responsável pelo estudo do Cinterfor. “Se não se executar uma política ativa de turismo rural, o desenvolvimento espontâneo fará que se incorporem ao negócio, especialmente os produtores com maior capacidade empresarial, mas a participação dos pequenos agricultores, camponeses e indígenas será marginal”.