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Desenvolvimento empresarial

POR LUCY CONGER

Mauricio Flores, da cidade de Tijuana, no México, é o fundador e diretor-executivo da Children’s Corporation, organização que oferece cursos para crianças de escolas primárias, sobre como se tornar líderes e empreendedores. As crianças que participaram dos cursos criaram seus próprios negócios de desenho em camisetas, de fabricação de barras de chocolate e de venda de café.

Inspirar crianças entre 6 e 12 anos a aprender sobre negócios pode parecer una maneira inusitada de ganhar a vida. Mas para Flores, de 32 anos, o mais estranho é que, atualmente, ele seja empresário de uma organização que existe há quatro anos, que emprega quatro pessoas em tempo integral e utros quatro profi ssionais em tempo parcial.

“Nunca me considerei empresário. Os empresários eram meus clientes”, diz Flores, lembrando o seu trabalho anterior em um programa governamental que ensinava pequenas empresas a aumentar a competitividade. Seu trabalho em uma empresa de consultoria consistia em recrutar os gerentes de pequenas e médias empresas, para participar a capacitação.

Há seis anos, Flores participou de um programa de capacitação empresarial para jovens, oferecida pela seção de Tijuana da Confederação Patronal da República Mexicana (Coparmex). Ele assistiu a um seminário de liderança para jovens empresários e aprendeu sobre responsabilidade social, a importância da gestão financeira e o valor das redes de contatos com outras empresas.

“Dei uma volta de 180 graus com a experiência na Coparmex”, afirma Flores. Depois de entrar para a Coparmex, Flores assumiu a função de chefe do seu grupo juvenil e, atualmente, é o presidente dos Jovens Empreendedores da seção de Tijuana. Alguns anos mais tarde, estava dirigindo sua própria empresa.

A Children’s Corporation oferece aulas semanais durante o ano escolar nas quais as crianças aprendem a economizar, a criar um produto, a administrar um negócio e a cuidar das finanças, além de promover os seus produtos, criando cartazes e jingles publicitários. Existem cursos intensivos de menor duração oferecidos em outras escolas. As escolas privadas pagam pelos cursos e a Children’s Corporation arrecada doações de empresas do setor privado, a fim de financiar o custo de capacitação oferecido na rede pública escolar. Até a presente data, mais de 7.000 crianças participaram do programa que continua a ser ampliado.

No programa da Coparmex em Tijuana, uma das 60 cidades mais importantes do México, foram criados 320 negócios nos últimos 4 anos, entre os quais figuram um spa diurno, um restaurante que serve refeições naturais, uma revista de direito societário e um distribuidor de água potável. As empresas administradas pelos jovens são consideradas estáveis quando sobrevivem mais de seis meses com rentabilidade e criam, cada uma delas, empregos para três ou quatro pessoas.

Os cursos de fomento de negócios entre os jovens, como os desenvolvidos por Mauricio Flores principalmente para adolescentes e jovens adultos até 30 anos, estão disponíveis em toda a América Latina e no Caribe. O Fundo Multilateral de Investimentos do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) arrecadou cerca de US$50 milhões em subsídios para iniciativas de ampliação de oportunidades para os jovens. Estes fundos oferecem apoio para 35 programas de colocação no mercado de trabalho, capacitação de pessoal, responsabilidade social corporativa e empreendimento para jovens.

O desemprego entre os jovens da América Latina e da região do Caribe é ainda maior do que entre os adultos. Abordar este problema e ajudar a desenvolver capacidades para que os jovens possam ingressar no mercado de trabalho, como empregados ou trabalhadores autônomos, é um dos quatro pilares da iniciativa do BID.

Segundo Fabian Koss, Coordenador do Programa de Desenvolvimento de Jovens do Escritório de Relações Exteriores do BID, “O programa BID para os Jovens tem como prioridade o incentivo ao espírito empreendedor dos jovens, a fim de que adquiram conhecimentos úteis e que, como empresários, possam criar uma rede e relacionamentos e ter acesso aos recursos necessários”.

Em toda a região, existem inúmeras organizações que oferecem capacitação que visa promóver as habilidades sociais para participar de entrevistas e o ambiente de trabalho, assim como para adquirir capacidades administrativas, financeiras e gerenciais. Em sua maioria, os programas dividemse em várias fases que incluem uma capacitação realizada em um espaço semelhante ao de uma sala de aula, onde são ensinados os aspectos básicos sobre como manter um emprego ou gerenciar um negócio; oficinas de capacitação técnica; como se tornar um mentor para os jovens que abrem uma empresa. As aulas são dadas por estudantes, empresários e administradores de negócios com bastante experiência no setor. “Oferecemos apoio aos microempresários que não receberam uma educação formal e os colocamos em contato com voluntários universitários e empresários que compartilham seus conhecimentos e experiências explica Isabel Álvarez, Coordenadora da rede BID de Jovens Empreendedores.

Gabriela Rondeau, de 26 anos, proveniente de Bariloche, na Argentina, é um bom exemplo. Depois da capacitação que lhe foi proporcionada por intermédio da Fundação FUNDES, Gabriela Rondeau ampliou as suas capacidades e conseguiu ser promovida dentro da empresa em que trabalhava. Um passo crucial foi a apacitação inicial em competência social e no trabalho. “Eles nos ensinaram a interagir com as pessoas, a nos comportar durante uma entrevista e a preparar um currículo”, comenta Rondeau.

Nas aulas de informática, Rondeau  aprendeu as últimas versões dos programas Word, Excel e de desenho gráfico. “Isto me ajudou, pois eu havia esquecido grande parte do que aprendi na escola”, diz Gabriela. Antes de fazer os cursos, ela nunca havia trabalhado. Há cinco anos a FUNDES a ajudou a conseguir um emprego na empresa na qual trabalha até hoje.

Na cidade industrial de Soyapango, nos arredores de São Salvador, a Fundes oferece aos alunos da universidade técnica uma capacitação em habilidades ráticas tais como marketing, contabilidade e planejamento estratégico. Os estudantes universitários também trabalham como estagiários em empresas do parque industrial vizinho e ali estabelecem redes de relacionamento com instrutores que os orientam a desenvolver planos de negócios, conforme relata Carlos oreno, especialista do FUMIN em El Salvador. A Fundação Fundes de El Salvador pertence a uma rede de instituições semelhantes que promovem o empreendedorismo em nove países latino-americanos.

“Após a capacitação básica e o estágio, os jovens devem ter um plano de negócios adequado para apresentar à instituição financeira”, diz Moreno. O FUMIN ajuda a estabelecer o vínculo essencial entre o plano de negócios e o financiamento, pois proporciona um capital de quase 50% do custo de lançamento da empresa e zela para que as idéias empresariais se desenvolvam da maneira correta, a fim de facilitar a obtenção do empréstimo.

O objetivo do Fundes é capacitar 600 estudantes universitários, fomentar a criação de 40 novas empresas e criar um total de 500 empregos como programa piloto de Soyapango, afirma Moreno. Posteriormente, o programa será reproduzido em Santa Tecla, subúrbio de São Salvador e também no porto de La Unem.

Na Colômbia, a Fundação Corona já ofereceu capacitação em habilidades empreendedoras a 10.000 jovens em todo o país. “A nossa metodologia deve ir além da capacitação, utilizando um modelo de desenvolvimento empresarial baseado em competências”, afirma Pablo Vanegas, que dirige o programa “Jovem Empresa”  de desenvolvimento empresarial da Fundação.

O pacote de capacitação é iniciado com seminários sobre a filosofia do empreendedorismo, segue com sessões sobre conceitos empresariais e termina com a preparação de planos de negócios. Menos de um terço dos alunos completa a capacitação de planos empresariais.

As pessoas que desenvolvem um plano de negócios obtêm uma série de serviços de acompanhamento, entre eles o de assessoria de instrutores e consultores, acesso a assistência e apoio financeiro. “Os serviços que acompanham a capacitação são a nossa grande preocupação; criar empresas é fácil, o difícilé mantêlas”, declara Vanegas.

Os jovens que completaram a capacitação da Fundação Corona abriram empresas de confecção, alimentos congelados e tecnologia de sensores para cegos, assim como programas para cinema e televisão. Para abrir as empresas foram necessários investimentos iniciais entre US$8.000 e US$10.000.

A arrecadação desse tipo de financiamento é difícil, devido à falta de recursos e à relutância dos bancos comerciais em conceder empréstimos a principiantes. A Fundação Corona está encontrando “anjos” para investir em empresas iniciantes. Até agora, os anjos são estrangeiros, dos Estados Unidos e da Holanda. “Estamos realizando exibições itinerantes para promover a criação de redes de investidores-anjos colombianos”, afirma Vanegas.

No Chile, a Ação Empreendedora oferece capacitação para proprietários de micro e pequenas empresas, muitos dos quais têm menos de 35 anos. O treinamento é feito por meio de um modelo que inclui capacitação para administração de empresas, treinamento nas áreas fi nanceira e técnica e acesso à informática, com curso de internet, fax e Skype. Com uma doação do FUMIN, a Ação Empreendedora está ampliando o programa, a fim de capacitar 1.000 empresários adicionais, comenta Aníbal Pinto, fundador e presidente da organização.

Depois de completar o curso de 12 semanas em administração de empresas, os empresários desenvolvem um plano de negócios e logo são apresentados a uma das instituições de microfinanciamento (IMF), onde a capacitação de Ação Empreende Empreendedora serve como recomendação. Aos empresários são oferecidas condições favoráveis, com taxas de juros mais baixas e acesso mais rápido ao crédito. Apenas dois dos empresários da Ação Empreendedora atrasaram o pagamento das suas prestações.

Os jovens das áreas rurais constituem um grupo-alvo importante para a Fundação Paraguaia, que possui uma escola agrícola e oferece capacitação empresarial nas escolas rurais. Na escola agrícola da Fundação, os alunos estudam administração de empresas e agricultura, com cursos voltados para o cultivo orgânico, a produção de vegetais, a criação de suínos e caprinos, além de gestão hoteleira em área rural. Depois de completar o treinamento, os alunos recebem microcréditos para desenvolver suas empresas rurais, explica Claudia Pompa, chefe de projetos da Fundação Paraguaia.

Nas escolas rurais, tanto públicas como privadas, a Fundação oferece aos estudantes capacitação empresarial para que eles possam criar suas próprias microempresas, “como uma maneira de escapar da pobreza”, afirma Pompa.

A magia dos programas que ajudam as pessoas a se tornarem empresários gira em torno do aumento da confiança e da aquisição de conhecimentos técnicos. Uma ferramenta fundamental que os aspirantes a empresários adquirem é a da preparação de um plano de negócios. “Ter uma idéia não é sufi ciente, é necessário colocá-la no papel”, adverte Ariosto Manrique Moreno, de 31 anos, que foi líder do programa de Jovens Empresários do Coparmex em Tijuana e é, atualmente, proprietário-gerente de uma empresa de pesquisa de mercado.

Sem estes conhecimentos é fácil subestimar a importância do plano de negócios. “Cerca de 80% das empresas no México não subsistem mais de dois anos se não tiverem um plano de negócios”, afirma Manrique Moreno.

Os conhecimentos são importantes, mas a confiança também é essencial para aspirantes a empresário, quer sejam jovens ou não. Na zona sul da cidade de Santiago do Chile, a MaxLine Serviços, oficina de pneus de Valentin Navarro, é uma empresa próspera. Após assistir às aulas da Ação Empreendedora, Navarro pôs em prática os seus conhecimentos e passou a oferecer revisões gratuitas de pastilhas de freios e conquistou novos clientes para seus serviços, fazendo trocas e balanceamento de pneus. O redesenho dos letreiros da empresa também ajudou a atrair novos clientes.

O aspecto mais benéfico da capacitação foiparticipar das aulas de psicologia, afirma Navarro. “A capacitação psicológica é a mais importante, porque aprendemos que nunca é tarde para abrir um negócio”, afi rma. Os três negócios dirigidos anteriormente por Navarro, de 48 anos, haviam falido. “Quando dizem que fracassar também significa adquirir experiência, você fica mais forte”, conclui Navarro.