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Um lugar na sociedade

Anascas del Río Moncada

Nota do editor: A autora deste artigo foi a segunda colocada no Concurso de Bolsas BIDAmérica 2005. Ela estuda ciências políticas na Universidad Nacional de Colombia, em Bogotá.

Sierra Morena é uma área de casas pequenas e deterioradas, apinhadas nas montanhas da periferia urbana de Bogotá. Os degraus estreitos entre elas não levam ao céu, mas aos minúsculos espaços ocupados por famílias que foram forçadas a abandonar a casa onde viviam.

É aqui que Teresa Díaz e Diva Trujillo vivem. Ambas são vítimas da violência que um dia as fez abandonar seu lar, deixando para trás pertences e muitos de seus entes queridos, para enfrentar um dos maiores flagelos que afetam a vida e a integridade de milhares de colombianos todos os anos: o desalojamento forçado.

Quando Teresa e Diva falam do lugar onde viviam, seus olhos se enchem de nostalgia, e a tristeza contagia o ambiente. “Eu era enfermeira e me faziam ir cuidar de membros dos grupos armados a qualquer hora”, conta Teresa, que foi desalojada de Chaparral, no departamento de Tolima. “Não opodia suportar mais e tive de fugir de lá.” Sem nenhum apoio e sem saber a quem recorrer, Teresa e Diva foram para Bogotá e começaram a enfrentar a dura vida da cidade e as conseqüências de sua situação de desalojadas.

Um ano atrás, num momento em que a vida lhes parecia especialmente desesperadora, Teresa e Diva decidiram transformar seu infortúnio numa fonte de esperança e oportunidades para outras pessoas que se viram forçadas a fugir de casa em busca de anonimato e segurança em Bogotá. Cerca de 48% das pessoas desalojadas são mulheres, muitas delas chefes de família depois que seus parceiros foram mortos, desapareceram ou foram recrutados à força por grupos armados. Elas precisam enfrentar um ambiente desconhecido, hostil e cheio de obstáculos, entre eles a intensa discriminação social que todos os colombianos desalojados sofrem.

Um cenário caótico. Produzido pela dinâmica da guerra, dos conflitos internos e da violência - e intensificado nas décadas de 1980 e 1990 - o desalojamento forçado tem sido acompanhado de discriminação, espoliação e violações dos direitos humanos e das leis humanitárias internacionais. O problema foi exacerbado pelo acúmulo de terras e capital, pelo narcotráfico, que “narcotizou” o país em todos os âmbitos, por conflitos pelo controle de áreas com plantações ilícitas, e pelo poder conferido por essas plantações aos grupos insurgentes.

Os números sobre casos de desalojamento são cheios de contradições e imprecisões. Por exemplo, enquanto a Rede de Solidariedade Social, um órgão do governo, registrou 97.229 casos de desalojamento até outubro de 2005, a organização sem fins lucrativos CODHES (Consultoria para os Direitos Humanos e o Desalojamento) calculou que 252.801 pessoas haviam sido desalojadas durante esse mesmo período. O resultado é uma situação caótica, em que as soluções são adiadas em meio a interesses diversos de grupos poderosos que estão destruindo a vida de indígenas, negros e habitantes das áreas rurais da Colômbia.

Yo Mujer. Teresa e Diva dizem que sua iniciativa teve origem quando viram mulheres e crianças dormindo nas ruas. “Queríamos ajudar as mulheres que haviam chegado recentemente à capital e não tinham para onde ir, nem um lugar para dormir”, diz Teresa. “Queremos que todas as mulheres ajudem umas as outras, porque todas nós estamos sofrendo a mesma catástrofe.” Em 24 de dezembro de 2004, depois de dias longos e exaustivos caminhando por Lucero, Tesoro, San Francisco, Patio Bonito e outros bairros em Ciudad Bolívar [uma área periférica de Bogotá], sem nenhum dinheiro no bolso, essas novas empreendedoras sociais encontraram uma casa em Sierra Morena, que alugaram por 250.000 pesos (aproximadamente US$ 105) ao mês com a ajuda de um empréstimo da Casa de la Mujer, uma organização não-governamental.

Naquela noite, acompanhadas de 38 famílias, Teresa e Diva superaram sua maior preocupação no moment ter um lugar para dormir e algo para comer. Sem perder tempo, começaram a fazer tamales e vendê-los nas ruas para tentar se manter. Porém, a concorrência era muito forte, e elas tiveram de encontrar outras maneiras de ganhar dinheiro, como rifas e busca de apoio em várias organizações que compreenderam a importância do projeto. O sonho que impulsionou Diva e Teresa cresceu e hoje está representado no El Hogar de Paso (“Residência temporária”) e no Yo Mujer (“Eu, mulher”), uma associação formada por 216 líderes que oferecem segurança, esperança e aconselhamento para centenas de pessoas que foram desalojadas.

O objetivo da Yo Mujer é proporcionar opções a mulheres desalojadas e suas famílias por meio de uma variedade de projetos. El Hogar de Paso é uma casa de quatro andares usada para abrigar até 80 pessoas por períodos de dois meses. Durante esse tempo, é oferecida orientação sobre a cidade e as instituições a que se pode recorrer para pedir ajuda em caso de necessidade. Auxiliada pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) e pela Mencoldex, uma ONG local, a Yo Mujer transformou a casa num local acolhedor, mesmo com as histórias amargas dos residentes que circulam como espectros pelos pequenos quartos onde, às vezes, dormem até 20 pessoas. Desde sua fundação, cerca de 700 famílias já passaram por El Hogar de Paso.

Um mês e meio depois que El Hogar de Paso começou a funcionar, foi aberto um refeitório comunitário do outro lado da rua, que serve atualmente refeições a 112 pessoas mas logo ampliará sua capacidade para 150, com a assistência do Programa Mundial de Alimentos das Nações Unidas.

Recuperação da cidadania. Outro aspecto vital do programa Yo Mujer é a ajuda psicológica oferecida em colaboração com a Universidad Nacional e o Hospital Estrellita. “As pessoas acham que vão morrer, que não valem nada. Algumas mulheres chegam aqui em péssimo estado psicológico, depois de cinco ou sete membros de sua família terem sido mortos”, explica Teresa. “Em um caso, tivemos uma mulher que havia perdido 11 parentes. Outra precisou de ajuda por seis meses, porque não queria continuar vivendo. Mas a vida tem de continuar, e nós temos de viver pelos nossos filhos.”

A Yo Mujer também tenta ajudar as mulheres desalojadas não só a conhecer seus direitos e aprender a exigi-los. Para isso, oferece capacitação e apoio, o que representou um dos maiores desafios devido à intensa discriminação por parte do governo. “O representante diz, ‘Eu sei quem é desalojado e quem não é’”, contou Teresa. “Há mulheres que não podem preencher as declarações porque há muitas restrições, por isso não as incluem na lista de pessoas desalojadas.” Para melhorar essa situação, a Yo Mujer oferece assistência jurídica confiável com a ajuda da Universidad Nacional. Além disso, 75 mulheres estão recebendo formação em direitos humanos.

Outra parte do programa Yo Mujer envolve projetos de moradia e geração de renda. Em 2005, o grupo conseguiu 15 casas para mulheres desalojadas e suas famílias. No entanto, a organização continua pressionando as autoridades para conseguir mais auxílio, uma vez que o subsídio oficial é de apenas 8 milhões de pesos [aproximadamente US$ 3.382] e os complicados procedimentos burocráticos retardam as soluções. O projeto atual de geração de renda da Yo Mujer é uma microempresa que prepara refeições rápidas e já proporciona sustento a várias mulheres. Também está em andamento um plano de parcerias para empregar mulheres de acordo com suas habilidades em confecções, panificação, fabricação de produtos de soja e trabalho em restaurante.

Um projeto desenvolvido por mulheres. Essa iniciativa, liderada por vítimas dos conflitos colombianos e por mulheres que têm sido tradicionalmente ignoradas e silenciadas, teve sucesso graças à crescente capacidade de organização tanto da sociedade civil como da população afetada. “O importante é que ninguém tenha seus direitos violados”, diz Diva, com os olhos cheios de entusiasmo. “Nossa meta é aumentar o respeito pelos direitos humanos por meio da criação de empregos, de condições de vida decentes, saúde, alimentação, trabalho, etc. Tudo por meio do desenvolvimento pacífico.”

Os primeiros êxitos da Yo Mujer tornaram-se as bandeiras de sucesso da proposta. Assim o demonstram o prêmio Bogotá Cívico que a associação ganhou há alguns meses e os testemunhos de beneficiários do projeto. Ainda assim, o desalojamento é um problema tão grande que requer um projeto nacional que conte com a participação responsável e consciente de todos os colombianos. A solução depende de todos!