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Uma economia ética e humana para a América Latina

O Brasil é hoje a oitava potência industrial do mundo. A Argentina é o quinto maior produtor de alimentos. Ambos são excelentes exemplos de um continente repleto de riquezas. Contudo, na mesma América Latina, em 2002, 20% da população era pobre. No Brasil, 44 milhões passam fome; na Argentina, mais de 50% da população é afetada pela pobreza; no México, 24 milhões dos 100 milhões de habitantes estão na mesma situação.

Com explicar tanto sofrimento social diante de tantos recursos disponíveis? Este foi o ponto de partida do Dr. Bernardo Kliksberg, coordenador da Iniciativa Interamericana de Capital Social, Ética e Desenvolvimento do BID, para demonstrar que uma economia com face humana ainda é possível e imprescindível. Na palestra “Como enfrentar a pobreza no Brasil e na América Latina? Novas idéias e experiências”, ministrada na Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP, em São Paulo, Brasil, no dia 11 de setembro, Kliksberg falou da viabilidade de se construir hoje um novo paradigma de desenvolvimento para a América Latina. Fundador do primeiro programa de formação de gerentes sociais da ONU e ex-coordenador do Instituto de Desenvolvimento Social do BID (INDES), o palestrante apresentou a uma platéia de professores e estudantes dados alarmantes sobre a situação da pobreza latino-americana, mas enfatizou as condições existentes para que mudanças sejam feitas. “Tenho muita esperança, sei que é possível e é por isso que estou aqui.”

Para onde foi o crescimento?

Durante toda a década de 90 a produção na América Latina cresceu. No entanto, 57% das crianças entre 6 e 12 anos da região continuam pobres; 100 milhões de pessoas ainda não têm acesso a serviços básicos de saúde; 20% dos jovens estão desocupados; o índice de Gini, que mede o nível de desigualdade de um país (quanto mais próximo de 1,0, menos distribuída é a renda, e quanto mais próximo de 0, mais distribuída), é de 0,57 no continente, atualmente.

Segundo Kliksberg, este último dado seria o mais relevante para poder compreender a situação latino-americana. “Não temos pobreza e desigualdade. Temos pobreza porque há desigualdade.” Isso explicaria, de acordo com o palestrante, o fato de o crescimento já mencionado não se refletir na vida da população. “Não basta produzir alimento. São necessárias políticas públicas para direcionar a distribuição deste alimento”, exemplificou.

A mesma desigualdade seria a fomentadora de um aumento da criminalidade, cujas causas estruturais, de acordo com Kliksberg, não são debatidas, o que leva a região a ser considerada hoje a segunda área geográfica com maior índice de criminalidade no mundo, perdendo apenas para a África Subsaariana. “A desigualdade gera desconfiança, abrindo espaço para um vazio ético que facilita a aparição de valores que permitem o crime, a corrupção.”

Caminhos possíveis

Não é à toa, disse, que a Noruega, país patrocinador da Iniciativa Interamericana de Capital Social, Ética e Desenvolvimento do BID, é o número um em desenvolvimento humano, e a Finlândia, a campeã mundial em transparência (lá o índice de corrupção é zero). “A cultura ética é predominante nestes países. Existe uma crença suprema no capital social e no igualitarismo.” Referências mais próximas também existem, como é o caso da Costa Rica, onde a pobreza é menor que 20% e a taxa de mortalidade infantil está entre as mais baixas do mundo.

Ao partilhar com o público estas idéias e experiências, Kliksberg apontou a agressividade nas políticas públicas, uma sociedade civil fortemente mobilizada, a articulação entre ações do Estado e do terceiro setor e o aprofundamento da democracia como as peças chaves da luta “por uma economia com face humana”. É este o título de seu livro que acaba de ser lançado em português no Brasil. Para o palestrante e autor, a saída para a América Latina seria, portanto, a recuperação da ética na economia. “Tenho esperança de que isso é possível porque o ser humano carrega a consciência ética dentro de si. Como já diria Amartya Sen, ‘os seres humanos não são econômicos. Todos os que conheço são muito parecidos com Hamlet, todos os dias com dúvidas e indagando-se em busca da coerência’.”