Essential worker

Sem água nem luz: como enfrentar o coronavírus?

“Já pensou uma casa sem internet, ventilador e geladeira”?, pergunta Pedro Torres, técnico em distribuição elétrica no Rio de Janeiro, Brasil, em uma mensagem na televisão. “E tenho uma esposa grávida em casa, de sete meses e meio. Quem puder, fique em casa”, acrescenta ele, antes de descer por um poço de vistoria para fazer a revisão preventiva dos equipamentos de energia

Torres é um dos profissionais de manutenção que trabalha durante este período da quarentena provocada pela COVID-19. Seu trabalho é essencial para evitar que a luz se apague, uma necessidade mais urgente do que nunca. A pandemia representou uma reviravolta em todas as facetas do cotidiano; hoje nos comunicamos com nossos entes queridos principalmente por via eletrônica e o trabalho virtual remoto é a nova realidade para muitos.

À medida que cresce o número de contágios da COVID-19 na região, o acesso a serviços básicos pode ser crucial para salvar a vida de dezenas de milhares de pessoas. Um hospital às escuras ou uma estação de abastecimento de água sem energia não são uma opção.

“O desafio mais importante para todas as empresas fornecedoras de eletricidade na região tem sido garantir que o abastecimento de energia se mantenha apesar dos efeitos da pandemia. Esse não é um setor em que se possa trabalhar em casa; é necessária a administração diária dos equipamentos para que a eletricidade chegue às residências em quantidade e qualidade apropriadas”, diz Ariel Yépez, chefe da divisão de energia no Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).

A prestação de um serviço de eletricidade confiável e acessível para 600 milhões de latino-americanos é um desafio de grande porte, especialmente quando ele é mais necessário do que nunca. A resposta dos governos da região refletiu essa urgência desde março, quando vários países tiveram seus primeiros casos de contágio confirmados.

“O primeiro objetivo dos governos foi: como fazer para que não haja nenhuma residência sem eletricidade? Em quase todos os países da região, decidiu-se não cortar o serviço de usuários residenciais que não conseguissem pagar a conta”, diz Yépez.

“Outras medidas tomadas foram ampliar o prazo para pagamento das contas por dois ou três meses. Os primeiros que fizeram esse anúncio foram Costa Rica e Panamá. Mais ambiciosos ainda foram governos que não só decidiram ampliar o prazo de pagamento, como somaram a isso reduções nas tarifas”, acrescenta Yépez.

Electricity
Fonte: Baseado em pesquisas de despesas domésticas: 2017 para México DF, 2018 para Lima e Santiago e 2019 para São Paulo (Cavallo, Powell e Serebrisky, 2020)

Para garantir a segurança de funcionários como Torres, as empresas elétricas proporcionaram a seus empregados equipamentos de proteção individual, principalmente máscaras e luvas. Além disso, implementaram estratégias de gestão para evitar o contato. Entre estas, a divisão das equipes em grupos menores, o estabelecimento de trabalho em turnos e o distanciamento em relação ao resto da população.

“Não se pode mandar a campo sem proteção as pessoas que nos permitem garantir o fornecimento de energia, porque, se eles se contaminarem, esse será o pior dos cenários: não se poderá mais garantir o fornecimento do serviço”, diz Yépez.

A eletricidade não é o único serviço essencial durante a crise. Um dos métodos mais eficientes para evitar a propagação do vírus é lavar as mãos com água e sabão. Mas e se não houver água? Em períodos em que há aumento da demanda em toda parte, especialmente nas residências e hospitais, esse serviço é crucial para a luta contra o vírus.

“Quase todos os países decretaram que o serviço de água e resíduos sólidos são essenciais e isentos de quarentena”, diz Sergio Campos, chefe da divisão de água e saneamento do BID, que descreve medidas similares às do setor elétrico, incluindo a suspensão dos cortes por falta de pagamento.

“Vai desde El Salvador, onde foi determinado que não se paga nem se cobra, à Bolívia onde se resolveu dar um subsídio, até países como a Colômbia, onde foi decidido que as dívidas poderiam ser pagas nos próximos três anos”, diz ele.

Em um colóquio organizado pelo BID entre empresas fornecedoras de serviços de água e saneamento, Cristina Arango, gerente da Empresa de Acueducto y Alcantarillado de Bogotá, detalhou as medidas adotadas para enfrentar o desafio:

“Nós temos 1.570 pessoas em operações de campo, o que é realmente necessário para que a água chegue aos usuários. Isso envolveu o desenvolvimento de um manual de limpeza e desinfeção para os funcionários e mais de 12.038 capacitações para informar como devem ser seguidos os níveis de proteção mais rígidos. Foi feita a desinfecção constante de veículos e uniformes e a entrega de todos os equipamentos de proteção. Também temos um monitoramento diário de saúde de todos os trabalhadores, com a implementação de quarentenas”.

Todos esses esforços por parte dos setores público e privado acontecem, além disso, em um contexto em que existiam lacunas no acesso a esses serviços essenciais. O impacto da pandemia as tornou, no entanto, ainda mais urgentes.

Desde antes do impacto econômico e social da COVID-19, cerca de 18 milhões de pessoas na América Latina e Caribe já viviam em pobreza energética, como se denomina a falta de acesso a eletricidade ou de recursos financeiros para pagar a energia domiciliar.
Além disso, o acesso a água potável é um desafio na região, onde 30% não contam com esse serviço constantemente. As populações vulneráveis também se veem duplamente afetadas, uma vez que incorrem em maiores gastos físicos e monetários para se abastecer por meio de fontes alternativas, como poços e bombas de água, caminhões-pipa ou água engarrafada.

“Há cerca de um terço da população da América Latina, mais de 200 milhões de pessoas, que recebem um serviço intermitente”, explica Campos. “Quem mais é afetado por esta crise são os mais vulneráveis, os que fazem parte dos quintis de renda mais baixos, dos quais 70% não têm acesso a água potável e 85% não têm acesso a saneamento. Para eles, lavar as mãos não é algo óbvio”.


Diante de desafios históricos, exacerbados por uma crise cujas ramificações podem vir a ser sentidas por anos, as respostas precisam estar não só no presente, mas no planejamento de um futuro diferente.

Para Ariel Yépez, isso requer olhar, desde já, para a recuperação depois da pandemia. Implica não só apoiar as empresas prestadoras de serviços elétricos, mas investir em energias renováveis de geração e no acesso universal à eletricidade.

“Com a COVID-19, o que vemos é uma oportunidade de ajudar os países a promover essa agenda de desenvolvimento que esteja vinculada ao tema do acesso, para que, quando se iniciar a reativação econômica, um dos instrumentos seja criar empregos e novas fontes de ingresso associadas ao objetivo de dar acesso universal à energia elétrica”, diz ele.

No setor de água e saneamento, a prioridade na região tem sido garantir que a água chegue a quem não tem acesso a ela, expandindo a cobertura para responder à crise. Um exemplo disso é o Peru, onde o Servicio de Agua Potable y Alcantarillado de Lima (SEDAPAL) tem distribuído água diariamente, de forma gratuita, a 700.000 habitantes.

"Com apoio do governo, assumimos o compromisso de entregar água a todas as áreas não administradas, e foram contratados mais de 300 caminhões-pipa para esse abastecimento”, disse Jorge Rucoba Tello, Gerente de Desenvolvimento e Pesquisa do SEDAPAL, durante o colóquio organizado pelo BID.

Esse tipo de medidas é apenas uma das facetas da estratégia necessária para o presente e futuro do setor em três linhas de trabalho, segundo Campos:

“A primeira é assegurar fluxos financeiros para a operação e manutenção adequadas da infraestrutura: que as empresas tenham como pagar seu pessoal e fazer manutenções rotineiras. Sem recursos, não vão poder fornecer água e saneamento e surgirão outras doenças como diarreia, dengue ou zika, que imporão muito mais estresse ao sistema de saúde. A segunda é que, se não se der acesso a água e saneamento para as populações mais vulneráveis, a pandemia não vai acabar. A terceira linha de trabalho são planos de emergência: muitas empresas vão ter que contratar segundos turnos de operadores, financiar horas extras, obras de emergência e compra de equipamentos adicionais”.

Esses esforços podem ser a base para as melhoras duradouras que são necessárias para acelerar a conectividade das populações vulneráveis, reverter as lacunas existentes e transformar a gestão deficiente da água, que hoje faz com que 50% de todo o líquido seja perdido nas tubulações antes de chegar a quem necessita dele.

A inspeção da iluminação pública ou a garantia de que a água não pare de fluir da torneira são possíveis graças ao trabalho de milhares de operadores da região que garantem a continuidade desses serviços. Esses trabalhos são essenciais antes, durante e depois da pandemia.


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