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Mulheres que transformam a Cidade #6: Diversidade e Direito à Cidade

Análise Econômica Mulheres que transformam a Cidade #6: Diversidade e Direito à Cidade Como construir cidades mais inclusivas, considerando a perspectiva de pessoas LGBTQ+ e respeitando também as suas necessidades? Fev 22, 2021
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De que forma o direito das pessoas LGBTQIA+ à cidade não é respeitado diariamente nos espaços urbanos? Como a voz das pessoas LGBTQIA+ poderia sermelhorouvida no planejamento da cidade?Neste podcast,falamosde respeito, educação e tolerânciacomo elementos-chave na construçãode cidades e de uma sociedade maisinclusiva.

Ouça aqui o podcast!

Discriminação à comunidade LGBTQIA+no acesso à cidade

Os espaços urbanos refletem as relações sociais e os sistemas de dominação. Por esta razão, eles podem ser construídos de acordo com lógicas patriarcais, racistas,binárias e/ouhetero-normativas. A heteronormatividade é o ato de considerar a heterossexualidade como uma norma, e efetivamente excluir todas as outras orientações sexuais e identidade de gênero. Assim como o gênero, a sexualidade não é binária nem fixa, ela pode mudar ao longo da vida de uma pessoa.

Como as análises têm sido frequentemente limitadas a essabinaridade, as necessidades das pessoas trans e não-binárias são hoje pouco discutidas ou pesquisadas. As pessoas trans, gays e lésbicas são altamente invisibilizadas e sujeitas a muita violência, tanto em espaços públicos como privados, e seu direito à cidade não está sendo respeitado. Osrelatórios anuais de mortes LGBT+(lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais) mostram que, em 2019, 329 LGBT+ tiveram morte violenta no Brasil, vítimas da homotransfobia: 297 homicídios (90,3%) e 32 suicídios (9,7%). Ou seja, a cada26 horas uma pessoa LGBT+ é assassinada ou se suicida,vítima daLGBTfobia,posicionandoo Brasilcomoum dos paísescom maior índice deassassinatosde minorias sexuais.

Isto mostra que as políticas públicas, incluindo as políticas urbanas, ainda não estão adaptadas aos direitos da comunidade LGBTQIA+. Para isso, é importante criar espaços de conversas e trocas para incorporar estas necessidades específicas às reflexões sociais e intervenções urbanas. Um primeiro passo para isso é aprender, por exemplo,por meiodestasériede 10artigos, sobre os desafios e lutas da comunidade trans no Brasil.

Proposta de sinalização para banheiros mais inclusivos e sem gênero binário. Fonte: UERJ Resiste

Uma iniciativa interessante é oprojeto de leipara banheiros de acesso público a travestis e transexuais de acordo com sua identidade de gênero. Visa representar um grande passo para resolver a violência simbólica e física que os banheiros de gênero representam (mostrando explicitamente que existe um banheiro para as mulheres e outro para os homens).

As palavras da deputada Renata Souza no projeto de lei ajudam a entender as questões em jogo:“Muitas pessoas que não são trans (pessoascisgêneras, ou simplesmente “pessoas cis”) não imaginam o sofrimento que é ficar horas sem poder ir ao banheiro, segurando a vontade de fazer as necessidades fisiológicas por temer olhares de reprovação, piadas de mal gosto, assédios e até mesmo agressões físicas.” Ao projetar um espaço ou equipamento público com banheiro, é importante levar estas questões em consideração.

Outra ferramenta de peso para valorizar a voz da comunidade LGBTQIA+ nodireito à cidade, entre outras coisas,são os Centros de Cidadania LGBT. Sãoequipamentospúblicosondesãoofertados atendimentosjurídico, social epsicológicoa pessoaslésbicas, gays, bissexuais e transgêneras, alémde funcionar como mobilizador empolíticaspúblicasde combate à homofobia, à transfobia e depromoçãoda cidadania LGBT. Funcionam como articulador de uma rede de proteção e garantia de direitos à população LGBT, minimizando as vulnerabilidades a que este público está submetido. Rio de Janeiro, Natal, Brasília, Recife e São Paulo estão entre as muitas cidades que inauguraram seus Centros de Cidadania LGBT.

O segundo Centro de Cidadania LGBT da cidade de São Paulo em Santo Amaro, zona sul. Fonte: Divulgação/ fotospublicas.com

Backtothebasics: o que é interseccionalidade? O que quer dizer LGBTQIA+?

O escopo da perspectiva feminista visa questionar as relações de poder para provocar uma ação transformadora ao longo da vida de meninas e mulheres, com objetivos emancipatórios contra a violência, o sexismo e a exclusão. O termointerseccionalidadeé usado para fazer referência às formas como diferentes aspectos sociais - de gênero, raça, classe, sexualidade, idade, entre outros - interagem entre si, influenciando a forma como experimentamos a vida em sociedade e na cidade.

O conceito foi popularizado por feministas negras, respondendo ao movimento feminista ocidental, principalmente branco e burguês. Entretanto, essa abordagem nos permite ampliar o olhar às diversas discriminações que podem ser vivenciadas, particularmente, nos espaços públicos, com base na raça, etnia, classe, religião, nacionalidade, sexualidade, capacidade física e cognitiva, idade e gênero. A discriminação ocorre ainda mais com as mulheres negras da classe trabalhadora, ou com mulheres trans. Em resumo, os indivíduos possuem identidades complexas que não podem ser compreendidas em um único plano (ser mulher ou ser homem, por exemplo). Isso requer uma análise sob várias perspectivas e em diferentes níveis para entender como os indivíduos se posicionam na cidade e na sociedade de um modo geral.

As letrasLBGTQIA+significam:

  • Lésbicas: mulheres que sentem atração afetiva/sexual pelo mesmo gênero.
  • Gays: homens que sentem atração afetiva/sexual pelo mesmo gênero.
  • Bissexuais: homens e mulheres que sentem atração afetiva/sexual pelos gêneros masculino e feminino. As pessoas que sentem atração afetiva/sexual por todos os gêneros se identificam como pansexuais.
  • Transexuais ou transgêneros: pessoas que se identificam com outro gênero, diferente do atribuído no nascimento, inclusive dentro do espectro não binário. Trata-se de um conceito relacionado à identidade de gênero e não à orientação sexual/afetiva.
  • Queer: pessoas que seauto-identificamcomo gêneroqueertransitam entre os gêneros feminino e masculino, ou em outro(s) gênero(s) no(s) qual(ais) o binarismo não se aplica. O termo faz referência à teoriaqueer, que afirma que orientação sexual e identidade de gênero são resultados de uma construção social e não de uma funcionalidade biológica.
  • Intersexo: pessoas cujo desenvolvimento sexual corporal - caracterizado pelos hormônios, genitais, cromossomos, e/ou outras características biológicas - não se encaixa na norma binaria.
  • Assexual: pessoas que não sentem atração afetiva e/ou sexual por outras, independente do gênero.
  • +: abriga todas as diversas possibilidades de orientação sexual e/ou identidade de gênero que existam.

Por quenós fazemos perguntas sobre gênero no espaço público e na cidade?

Simplesmente porque são lugares que promovem o encontro, a visibilidade e a troca entre as pessoas na sociedade, e onde o gênero é demonstrado. Muitas vezes, o espaço público é definido como um espaço "neutro", quando ele não é. O espaço público também não é público para todos, como seu nome sugere.Paracompreender as relações de poder no desenho, uso e ocupação do espaço público que perpetuam as representações sociais de gênero,e impulsar mudanças,o BID criou umGuiapráticoe interseccional para cidades mais inclusivas.

Baixe o guia aqui!

O guiavisa abrir um espaço de reflexão sobre as perspectivas feministas e interseccionais na concepção e gestão das cidades no Brasil. Aborda o planejamento urbano através da integração de diferentes características dos usuários da cidade como gênero, raça, orientação sexual, idade e condição física.Qual é o papel da mulher no diagnóstico e na tomada de decisões na cidade? As funcionalidades dos espaços urbanos são pensadas de forma equitativa de acordo com as necessidades de cada usuário, incluindo crianças, idosos, pessoas com deficiência, pessoas LGBTQIA+, pessoas de distintas etnias e raças? Como esta diversidade de usuários pode ser mais bem integrada na cidade para torná-la acessível, segura e inclusiva?

Participe do evento sobre o tema no dia 8 de março. Inscrições aqui!

Essas são algumas das perguntas que o guia poderá responder, e que serão discutidasem nosso webinarespecialnopróximo 8 de março, na ocasião do Dia Internacional da Mulher: façaaquisua inscriçãoe não deixe de participar enviando perguntas!

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