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Inovações em habitação como estratégia de reabilitação do centro de Campo Grande

Análise Econômica Inovações em habitação como estratégia de reabilitação do centro de Campo Grande Campo Grande busca soluções para provisão de moradia acessível nas áreas centrais, como estratégia para diminuir a segregação socioespacial gerada na cidade Mai 26, 2022
CBR_Blog Campo Grande_foto

No Brasil, uma das problemáticas referentes à ocupação do território é o esvaziamento das áreas centrais. Essa característica marcante das cidades brasileiras decorre da segregação socioeconômica presente no espaço urbano, que acaba abraçando a população de rendas média e alta nos centros, onde há mais oferta de infraestrutura e oportunidades de emprego, e isolando a de baixa renda em áreas periféricas.

Desse modo, cria-se uma bola de neve sob a ótica da segregação espacial, pois formam-se cada vez mais vazios urbanos nas áreas centrais, o que encarece a urbanização, já que o número de deslocamentos aumenta e as redes de infraestrutura e serviços urbanos precisam ser estendidas para que se consiga atender a população que mora nos bairros mais afastados. Essa situação ocorre em diversos municípios brasileiros. Um deles é Campo Grande, no Mato Grosso do Sul.

Desde 1960, a cidade de Campo Grande apresenta um aumento das ocupações perimetrais, sendo a maioria dos lotes destinados para a população de baixa renda. De acordo com a Agência Municipal de Meio Ambiente e Planejamento Urbano de Campo Grande (Planurb), essa configuração foi resultado de três fatores principais: o crescimento populacional, a disponibilidade de áreas urbanizáveis e a dinâmica imobiliária.

Em 2019, a Planurb apontou que as áreas centrais de Campo Grande concentram famílias com maior renda média mensal por pessoa. Por outro lado, a taxa média de crescimento anual da população é maior em bairros periféricos como Prosa, Segredo e Anhanduizinho. Essa dinâmica está ilustrada nos mapas abaixo.

Além disso, o déficit habitacional do município é maior que 25 mil domicílios, sendo os componentes de coabitação (mais de 11 mil domicílios) e ônus excessivo com aluguel (mais de 9 mil domicílios) os que mais impactam este cenário.

Outro ponto de destaque foi a implementação do antigo Programa Minha Casa Minha Vida (PMCMV), que financiava a construção, aquisição ou requalificação de imóveis habitacionais para a população que recebia entre R$ 1,8 mil a R$ 9 mil reais mensais, e como esse programa influenciou a política habitacional de Campo Grande. Em resumo, grande parte das moradias ficaram localizadas em áreas perimetrais, pois os terrenos tinham um custo menor de aquisição, o que reforçou ainda mais a densificação dos bairros periféricos e sem muita infraestrutura pela população de baixa renda.

E por que destacamos o município de Campo Grande?

A prefeitura de Campo Grande e o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) trabalharam em parceria na elaboração de um projeto-piloto para a provisão de moradia acessível nas áreas centrais, como estratégia para diminuir a segregação socioespacial gerada na cidade.

Uma das formas elencadas para reduzir a perda de pessoas residindo em áreas centrais foi a locação, que também foi tema do projeto piloto para a cidade. A locação trabalhada no piloto é uma dentre outras possibilidades de atendimento habitacional, pois, de acordo com Blanco et al. (2014), esse modelo possibilita a provisão de moradia em áreas mais centrais e acessíveis, contribuindo com a redução da segregação territorial.

Já o projeto-piloto foi proposto em 2015 para a área central de Campo Grande, no contexto do programa Viva Campo Grande II, cuja principal intervenção é a requalificação da Rua 14 de julho, uma via tradicional de comércio do centro da cidade.

Uma das garantias para o sucesso da intervenção do espaço público foi também propor medidas de desenvolvimento da política de habitação do centro, de modo a reverter o esvaziamento das moradias na região e evitar a expansão urbana de baixa densidade. Após a análise de sete terrenos indicados pela Prefeitura, a área denominada Fernando Corrêa da Costa foi a selecionada para construção de dois condomínios: o condomínio 1 seria destinado para o empreendedor do Programa MCMV faixa 2 e o condomínio 2, para a Prefeitura promover o futuro parque de locação social. Para definir as características do projeto foram elaborados quatro cenários, nos quais verificou-se a viabilidade tanto econômica como financeira dos empreendimentos. Mais detalhes sobre o projeto-piloto realizado estão disponíveis na publicação 'Alternativas para viabilizar habitação em áreas centrais: o caso de Campo Grande'.

A partir do piloto mencionado, foram criadas evidências para melhor apoiar a posterior elaboração de estratégias para o município nos temas de urbanização, adensamento e moradia social. Como resultado, o BID avançou numa segunda fase do programa, apoiando algumas ações como a elaboração do decreto 15.167, de 2022, que regulamenta o Programa de Locação Social no município; a produção de um guia (em andamento) para apoiar a construção de programas de locação social como alternativa para a provisão de moradia; e o apoio na revisão do plano habitacional para incluir soluções mais adequadas às reais demandas de Campo Grande.

O caminho percorrido pelo município de Campo Grande na busca por mitigar a segregação urbana e a falta de moradia para a população de baixa renda nos mostrou diversas possibilidades, desafios e potencialidades. Essas descobertas podem apoiar outras municipalidades na construção das melhores estratégias para reduzir os problemas territoriais.

Leia mais:

https://blogs.iadb.org/brasil/pt-br/moradia-no-brasil-perspectivas-para-melhorar-quantitativamente-e-qualitativamente-o-acesso-a-habitacao-para-familias-de-baixa-renda/https://blogs.iadb.org/brasil/pt-br/mulheres-no-mercado-de-financiamento-habitacional-brasileiro/
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