Flexibilidade, acessibilidade, produtividade, consciência sobre o impacto negativo sobre o meio ambiente de locomover-se até o local de trabalho... Existem muitas razões pelas quais alguém gostaria de trabalhar de casa pelo menos alguns dias por semana. Porém, essa vez, não é uma questão de escolha: para muitos trabalhadores, o coronavírus (COVID-19, para ser mais precisos) impôs o teletrabalho de forma obrigatória, não como uma escolha. De alguma forma, foi colocada em prática uma experiência de teletrabalho em escala mundial. Mas não é uma experiência como todos havíamos querido planejar, já que o fechamento das escolas levou pessoas com crianças em casa a fazer malabarismos para cuidar de seus filhos enquanto trabalham; uma realidade que muitos trabalhadores autônomos da América Latina e do Caribe vêm enfrentando desde sempre. Quais serão os resultados dessa intervenção?
Teletrabalho: um conceito em movimento
Um livro recentemente publicado sobre teletrabalho conta que há uma evolução muito interessante desse conceito. Inicialmente, falava-se de “escritório em casa”, visto que o fato de poder ter tecnologias como computadores e internet em casa abriu a oportunidade de trabalhar fora da empresa. Logo passou-se ao conceito de “escritório móvel”, já que os telefones celulares, laptops e tablets permitiram que o teletrabalho não precise ser exclusivamente a partir de casa, mas, sim, de qualquer lugar onde exista conexão com a internet ou uma rede de dados. A última etapa dessa evolução é o “escritório virtual”, que expande o conceito anterior com o aparecimento dos smartphones e a capacidade de ter informações na nuvem. Hoje em dia, tudo que precisamos para o teletrabalho está na palma de nossas mãos.
Vantagens e desvantagens do teletrabalho
O teletrabalho foi um dos temas de maior destaque no contexto do coronavírus, visto que muitas empresas pediram a seus funcionários para trabalhar em casa. Nesse debate, há três aspectos fundamentais que reúnem algumas das vantagens e desvantagens do teletrabalho: os horários de trabalho, o equilíbrio pessoal-profissional e a produtividade. Em primeiro lugar, apesar de conferir maior flexibilidade de horários, o teletrabalho torna mais difícil definir de que horas a que horas trabalhamos, podendo ter efeitos negativos na nossa saúde mental e física. Em segundo lugar, apesar de o teletrabalho poder ser considerado uma ferramenta que tem efeitos positivos no balanceamento entre a vida pessoal e a vida profissional, também pode acabar tendo justamente o efeito oposto, se as fronteiras entre esses dois âmbitos são apagadas (sobretudo considerando-se que, como dizíamos acima, nessa oportunidade, as pessoas estão fazendo teletrabalho com seus filhos em casa). Quanto à produtividade, os efeitos do teletrabalho dependerão de fatores como a rapidez dos sistemas de informação e comunicação da empresa, a cultura corporativa e a capacidade dos supervisores de apoiar o trabalhador. O teletrabalho é um conceito crescente aceitação na América Latina. Um estudo chegou à conclusão de que o Brasil é o país com mais empregados trabalhando em suas casas, com 12 milhões de pessoas em teletrabalho, seguido pelo México (com 2,6 milhões), Argentina (com 2 milhões) e Chile (com 500 mil). No entanto, fazer teletrabalho na região nos faz ver que existe um choque entre dois mundos: o da tecnologia, que possibilita a muitas pessoas que trabalhem de onde estiverem (desde que tenha conexão com a internet), e o das regulamentações trabalhistas, muitas delas com seu conceito tendo surgido no século XIX (onde não existia nem se sonhava com as tecnologias que temos hoje). A quinta parte da série O futuro do teletrabalho na América Latina e no Caribe, justamente, mostra como é a regulamentação do teletrabalho nos nossos países e destaca que a Colômbia é o país mais avançado nesse tema.
Lições do coronavírus em matéria de teletrabalho
A vida antes e depois do coronavírus não vai ser a mesma. Uma das maiores lições que essa experiência nos deixará é que muitas pessoas podem trabalhar de forma remota sem problemas com a tecnologia existente. Além de eficiência, o teletrabalho oferece grandes promessas em outros aspectos. Por exemplo, pode dar maior flexibilidade para aquelas pessoas – muitas vezes mulheres – que têm compromissos familiares e pessoais (por exemplo, cuidar dos filhos ou de idosos) que lhes impedem de trabalhar fora de casa em horário integral ou fixo. Também possibilita maior acessibilidade, ajudando a derrubar as barreiras estruturais que enfrentam as pessoas com deficiência para ter acesso a um emprego. O fato de que mais pessoas estejam trabalhando a partir de casa em meio à crise mundial do coronavírus nos deixará aprendizados que, sem dúvidas, marcarão como será o teletrabalho no futuro do trabalho. Se essa experiência mundial for implementada de maneira efetiva, demonstrar-se-á porque o teletrabalho pode ser uma ferramenta muito valiosa tanto para a empresa como para o trabalhador.