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Artigos

01/08/2006

As mulheres assumem a liderança

Um projeto para levar água com segurança e praticidade a uma comunidade rural produz resultados inesperados

Há anos a população de Villa Real, na província paraguaia de Cordillera, sonhava substituir seus poços pouco confiáveis e pouco higiênicos por um sistema de água potável novo e seguro. Seu sonho agora é realidade. E, além da água, trouxe consigo alguns dividendos inesperados.

Villa Real é uma das quase 100 comunidades rurais que participam de um programa nacional de água potável, executado pelo Serviço Nacional de Saneamento Ambiental (SENASA) do Paraguai. O programa está sendo financiado com a ajuda de um empréstimo de US$12 milhões do Banco Interamericano de Desenvolvimento.

Na verdade, em si, não há nada de inovador nos programas comunitários de água potável. Eles consistem em fazer uso de uma nascente ou de um lençol freático, em geral por meio da construção de um tanque para armazenamento de água e de encanamentos para sua distribuição, idealmente para cada residência.

Mas essa tecnologia simples pode ter um impacto profundo. Quando membros de comunidades se reúnem para conversar sobre projetos prioritários, é quase certo que colocarãoos sistemas de água potável no alto da lista. Pessoas que passaram muito tempo sofrendo com diarréias e outras doenças causadas pelo uso de água imprópria para o consumo, ou que enfrentaram o cansaço de incontáveis caminhadas até o rio ou poço mais próximo, sabem que nada melhorará sua vida tão rápida e drasticamente quanto um sistema de água potável.

No Paraguai, água potável é uma prioridade particularmente alta. Apenas 20% da população rural do país têm acesso a sistemas de água, uma das taxas mais baixas da América Latina.

Em muitos desses programas, como ocorre no Paraguai, os projetos de água são implantados e administrados como uma iniciativa de cooperação entre a comunidade e um órgão governamental. Em Villa Real, o SENASA contratou uma empresa privada de engenharia, a Constructora D.M.V.S.A., para perfurar o poço de 150 metros de profundidade, instalar uma bomba elétrica simples, construir o tanque de armazenamento de água e planejar as conexões domésticas.

Por seu lado, a comunidade deVilla Real organizou um Comitê de Saneamento para mobilizar a força de trabalho local a fim de construir a rede de distribuição e as conexões domésticas e, depois, operar o sistema e realizar sua manutenção. A parte financeira também fica sob sua responsabilidade. Antes do início da construção, o comitê arrecadou fundos de cada uma das 118 famílias participantes para cobrir 1% do custo do projeto e, depois, mais 2% durante a construção. O SENASA entrou com um subsídio de até 70%, dependendo do número de conexões. O comitê recebe o restante do custo do projeto na forma de empréstimo, e seus pagamentos periódicos financiam novos sistemas em outros locais. Depois que o sistema estiver pronto, o comitê cobrará dos usuários tarifas de cerca de US$ 2,50 por mês para cobrir os custos operacionais e de manutenção.

Dividendo inesperado. Em muitos projetos, a criação de um Comitê de Saneamento tem repercussões que vão bem além do fornecimento de água. A água com freqüência é apenas a primeira de uma série de mudanças que podem afetar o papel das mulheres em projetos comunitários e até fortalecer a prática da democracia.

Em Villa Real, essa cadeia de eventos aconteceu quase por acidente. No dia escolhido para a eleição do Comitê de Saneamento, muitos dos homens estavam trabalhando no campo. Assim, a maioria dos moradores que compareceram à reunião eram mulheres. Embora a votação para os membros do comitê não tenha sido marcada por parcialidade de gênero, apenas mulheres acabaram sendo eleitas.

Como resultado, as mulheres estão encarregadas do maior e mais importante projeto comunitário já realizado em Villa Real. Elas organizaram o trabalho de escavação das valas onde os encanamentos seriam colocados, administram o dinheiro e mantêm relacionamento com os funcionários do SENASA e com os engenheiros da firma de construção. Claro que os homens também participam – principalmente com picaretas e pás.

Membros do comitê de saneamento incentivam um dos vizinhos, que cava uma vala para o novo sistema de distribuição.

“Eles suam, e nós supervisionamos”, brincou Beatriz Ruiz Moreno, presidente da Junta de Saneamiento de Villa Real.

Foi uma revolução, mas pacífica, reforçou Ruiz Moreno. “O homem rural paraguaio é muito machista”, disse ela. “Mas acho que eles confiam em nós porque vêem como administramos nossa casa e resolvemos nossas necessidades. Acredito que, agora, eles estão começando a reconhecer o valor das mulheres dentro da comunidade e da sociedade, e não apenas em casa.”

Os homens de Villa Real cavaram nove quilômetros de valas, que depois receberiam os canos de PVC. A construtora forneceu kits para conexões domésticas ao Comitê de Saneamento e ensinou seus membros a fazer as instalações.

Todos, homens e mulheres, concordam plenamente com a necessidade do projeto. Antes, cada família tinha seu próprio poço, em geral de oito a quinze metros de profundidade. Para obter água era preciso o trabalho cansativo de içar um balde pesado e carregá-lo até a casa. Pior do que o trabalho, porém, era a facilidade com que os poços eram contaminados, e não só com patógenos causadores de doenças. Ocasionalmente, eles se tornavam o lar de rãs ou o local do repouso final de alguma outra criatura desafortunada.

E isso era nos melhores tempos. Quando as chuvas paravam, até mesmo os poços mais profundos às vezes secavam. O problema não é apenas de estações climáticas, de acordo com Ruiz Moreno. Villa Real está crescendo, e um número cada vez maior de pessoas consome a água do aqüífero pouco profundo com mais rapidez do que a natureza consegue reabastecê-lo. Além disso, os recém-chegados estão acelerando o desmatamento, de modo que as árvores não podem mais desempenhar sua função normal de captar água. Como resultado, as pessoas estavam tendo de tirar água que utilizavam do que Ruiz Moreno chama de riachos “supercontaminados”, com a conseqüência de um aumento nos índices de doenças parasitárias, como a disenteria. “Quinze anos atrás, as pessoas daqui eram muito saudáveis”, contou Ruiz Moreno. “Agora não são mais.”

A bomba oferece uma amostra preliminar de água de 150 metros de profundidade – fresca, limpa e suave.

Durante a construção, Ruiz Moreno e as outras componentes do comitê acompanharam os técnicos da empresa de engenharia numa visita a um dos locais de construção. Examinaram juntos os planos, e as mulheres asseguraram aos engenheiros que sua parte seria feita dentro do cronograma.

O engenheiro de projeto Zoilo Benítez disse que um dos desafios de sua empresa era encontrar um local para instalação de poço com água suficiente para os aumentos projetados da população até 20 anos adiante. Outro objetivo era resolver o problema do que fazer com a água depois que ela fosse usada para lavar pratos e outros fins. O hábito era simplesmente deixar a água empoçar ao lado da casa, o que acabava produzindo um criadouro de mosquitos. Agora, em Villa Real, cada bacia de água é esvaziada em valas ou buracos que a absorvam. “Estamos usando uma solução simples, de manutenção zero, para um problema que, de outra maneira, teria sido agravado pelo aumento da disponibilidade de água”, disse Benítez.

Marcelo Barros, do BID (à esquerda), encontra-se com membros de uma empresa de engenharia no local de uma nova torre de armazenamento de água.

Um comitê para todas as estações. Por que ficar em um só projeto de água? Depois que uma organização comunitária aperfeiçoa a capacidade de resolver um problema, ela pode utilizar esse conhecimento para lidar com outros. E isso é o que acontece em muitas das comunidades do programa do SENASA, de acordo com Marcelo Barros, especialista em saneamento e meio ambiente do BID no escritório do Banco na capital do Paraguai, Assunção. “Quando uma cidade cria um comitê de água, ela adquire uma experiência com organização que pode ser usada para executar outros projetos”, diz ele. “Pode voltar sua atenção para a educação, saúde e outras atividades produtivas.”

Dessa maneira, os comitês são uma expressão da democracia em ação, num país em que as tradições democráticas são ainda muito recentes. “Particularmente em áreas rurais, as pessoas entenderão que democracia é quando eles votam em membros de um comitê cujas ações terão um impacto direto sobre sua vida, seu lar, sua família e seus filhos”, disse Barros.

“Eles representam instituições que antes não existiam”, comentou, “e das quais surgirão novos líderes.”

Os comitês às vezes também ajudam a criar um espírito de solidariedade que beneficia individualmente os membros das famílias. Além de discutir negócios formais, outros temas podem vir à tona. Uma mulher pode confidenciar que seu marido a maltrata, levando outras a admitir que o mesmo se dá com elas. Podem discutir problemas de alcoolismo ou decidir ajudar uma família necessitada.

“Aqui no campo, as pessoas se preocupam com seus vizinhos”, disse Barros. “Elas conhecem os vizinhos, conhecem os filhos deles e estão prontas para lhes estender a mão, sabendo que elas próprias também podem vir a precisar de ajuda no futuro.”


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