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ENERGIA
A escolha da América Latina
Poderia a região se tornar líder mundial em eficiência energética?

Paul Constance

Imagine o que aconteceria se os cientistas descobrissem uma nova fonte de energia que pudesse suprir 20% da necessidade mundial de eletricidade praticamente livre de custos e sem impacto negativo para o meio ambiente.

Uma descoberta revolucionária como essa pouparia centenas de bilhões de dólares por ano de gastos com energia, permitindo que governos, empresas e indivíduos se dedicassem a outras prioridades. Reduziria drasticamente a quantidade de combustíveis fósseis usada para gerar eletricidade, levando a uma diminuição significativa da emissão de gases de efeito estufa.

Na verdade, essa nova fonte de energia foi desenvolvida sete anos atrás, no Brasil. E ela não tem nada a ver com o etanol. Em 2001, o Brasil enfrentou um sério período de seca que debilitou as usinas hidrelétricas que fornecem 80% da eletricidade do país. Diante da perspectiva de blecautes em massa, o governo implantou um plano inovador de eficiência energética que oferecia compensações financeiras aos consumidores que reduzissem o consumo de eletricidade e pesadas sobretaxas para os que não o fizessem.

Os resultados superaram as expectativas. O Brasil reduziu seu consumo de eletricidade em surpreendentes 20% em pouco mais de um mês, de acordo com um estudo da International Energy Agency. Foi uma redução muito maior do que a que países plenamente industrializados conseguiram obter quando se viram forçados a diminuir rapidamente o consumo de eletricidade durante uma emergência (ver quadro à direita). E as reduções foram obtidas sem causar problemas sérios para a economia.

Mas uma surpresa ainda maior aguardava os formuladores de políticas em 2002, depois que a seca acabou e o governo interrompeu os incentivos. Ao contrário das expectativas, o consumo de eletricidade não voltou rapidamente aos níveis anteriores. Na verdade, levou quase quatro anos para que o consumo de eletricidade no Brasil crescesse novamente até os níveis anteriores a 2000.

Carvalho: “Ao descobrir que podiam usar menos eletricidade e mesmo assim viver com conforto, as pessoas preferiram continuar economizando”.

“Ao descobrir que podiam usar menos eletricidade e mesmo assim viver com conforto, as pessoas preferiram continuar economizando”, diz Arnaldo Vieira de Carvalho, especialista em energia renovável do BID. Em essência, o Brasil provou que mudanças voluntárias de comportamento, combinadas com investimentos modestos em equipamentos destinados a poupar energia, podem produzir uma imensa economia sem comprometer o bem-estar humano ou o crescimento econômico. (Ver o artigo relacionado “Começando com um sensor de movimento”).

Gostando ou não. Ironicamente, embora a indústria do etanol no Brasil seja celebrada como o mais bem-sucedido programa de biocombustíveis do mundo, seus êxitos em termos de conservação de eletricidade raramente são mencionados pelos meios de comunicação.

Isso acontece, em parte, porque a eficiência energética sempre envolveu um problema de imagem. Os eleitores associam programas de eficiência a escassez e racionamento de energia, portanto, os políticos preferem evitar o tema. Em debates públicos, a eficiência é com freqüência deixada de lado, como uma resposta tímida para um problema que exige soluções ousadas. Diante de uma escolha − construir uma nova usina elétrica ou promover a redução do consumo de energia −, os líderes quase sempre acabarão escolhendo a primeira opção, ainda que ela não seja a mais eficaz.

Isso está prestes a mudar.

Com o petróleo sendo comercializado a mais de US$ 100 o barril, o gás natural escasseando e uma nova onda de secas ameaçando a produção hidrelétrica, vários países latino-americanos estão, mais uma vez, vendo-se diante da possibilidade de falta de energia. O Brasil, Chile e Argentina encontram-se particularmente sob pressão para garantir que a já sobrecarregada oferta de eletricidade e gás atenda à demanda durante os meses de inverno que se aproximam.

Em contraste com os episódios de escassez do passado, em que a culpa recaía sobre fatores de curto prazo, muitos analistas acreditam hoje que a escassez de energia será um problema de longo prazo. As duas razões fundamentais são a demanda impulsionada pelo crescimento econômico sustentado e a dificuldade de obter novas fontes de combustível fóssil.

Os países da América Latina e do Caribe exemplificam ambas as tendências. A demanda de energia vem crescendo a taxas nunca vistas nos últimos cinco anos. No Chile, por exemplo, o aumento foi de 7% apenas em 2007.

No entanto, com exceção do Brasil, que encontrou recentemente reservas importantes em alto-mar, a produção de petróleo e gás na região está estagnada ou em declínio. De acordo com a maioria dos analistas, os gastos atuais em exploração e nova infra-estrutura de combustíveis fósseis estão muito abaixo do necessário para atender à demanda prevista. Embora a região tenha um considerável potencial hidrelétrico ainda não utilizado, represas são caras, demoram para ser construídas e encontram cada vez mais oposição de ambientalistas. Fontes renováveis como biocombustíveis e energia solar e eólica estão aumentando, mas ainda não podem suprir mais do que uma pequeníssima parcela das necessidades energéticas totais da região.

Enquanto isso, os crescentes custos da energia estão corroendo a força das economias da região, particularmente em países que importam a maior parte da energia que utilizam. Na América Central, que é quase totalmente dependente de importações de combustível fóssil, a “conta do petróleo” dobrou entre 1998 e 2004, medida como uma porcentagem do PIB da região. Nenhuma indústria ou serviço está imune. O fornecedor público de água e saneamento da Nicarágua, por exemplo, está sofrendo com o enorme custo da energia usada para operar as bombas (Ver artigo relacionado: “Para matar a sede de eletricidade”). Os preços dos alimentos estão aumentando em toda parte devido aos custos energéticos mais altos associados ao transporte, fertilização e processamento.

Além das emergências. Tudo isso está forçando os governos da região a pensar tanto em medidas de emergência como em soluções de longo prazo para lidar com a demanda de energia.

A boa notícia, como o Brasil descobriu, é que essas medidas podem produzir resultados muito mais promissores do que se imagina. No ano passado, o McKinsey Global Institute, um grupo de pesquisa privado, ganhou as manchetes com um estudo aprofundado intitulado “Curbing Energy Demand Growth: The Global Energy Productivity Opportunity” (Contendo o crescimento da demanda de energia: a oportunidade da produtividade energética global). O relatório apresentou uma conclusão simples mas impressionante. Seus autores calcularam que o crescimento da demanda de energia pode ser reduzido à metade, sem comprometer o crescimento econômico, simplesmente com o aumento da “produtividade energética” por meio de medidas de conservação de energia abrangentes que incluam a adoção ampla das tecnologias existentes.

Essa conclusão tem implicações enormes para a América Latina. No México, por exemplo, a estimativa é de que a demanda de eletricidade expanda-se 5,6% ao ano entre hoje e 2013 − um ritmo significativamente mais rápido que o do crescimento econômico previsto. O BID estima que o México, apenas para atender a essa demanda, precisará investir US$ 5,5 bilhões por ano em novas capacidades de produção de energia. Se as recomendações do estudo do McKinsey fossem adotadas no México, o país poderia poupar mais de US$ 2 bilhões por ano em gastos destinados a aumentar a produção.

As autoridades mexicanas convenceram-se dessa realidade há algum tempo. O governo criou uma Comissão Nacional para a Economia de Energia (CONAE) em 1989 e, um ano depois, estabeleceu um Fundo Fiduciário de Apoio à Eficiência Energética do Setor Elétrico (FIDE) para executar programas concretos em setores específicos, como iluminação e máquinas industriais.

Em 1997, o BID aprovou um empréstimo de US$ 23 milhões para ajudar o FIDE a executar um programa inovador de melhoria da eficiência energética nos setores industrial e comercial. O programa usou um sistema de abatimentos para incentivar os varejistas de motores elétricos, compressores e iluminação a comercializar modelos eficientes e financiou uma variedade de medidas reguladoras, como o desenvolvimento de padrões de eficiência e rótulos de produto para esses equipamentos. Embora fosse essencialmente um projeto piloto, o programa produziu resultados impressionantes: durantes os seis primeiros anos de operação, economizou cerca de 5.274 gigawatts/hora de eletricidade − o suficiente para abastecer mais de 200.000 residências com eletricidade por um ano.

O Brasil e o Chile também têm programas de conservação de energia bem estabelecidos e com resultados demonstráveis. Além disso, países como a Argentina e o Uruguai estão desenvolvendo planos para promover o uso de lâmpadas fluorescentes compactas e outras tecnologias voltadas para a economia de energia.

“As alternativas são bastante claras”, diz Vieira de Carvalho, do BID. “Pode-se gastar muito tentando aumentar a oferta de energia para evitar blecautes, ou pode-se gastar muito pouco para obter o mesmo resultado pelo aumento da eficiência.”

O Brasil já provou que um país em desenvolvimento pode usar medidas de conservação sofisticadas para evitar uma crise energética. A questão agora é se a região usará medidas similares para garantir segurança energética de longo prazo.


Perguntas? Comentários? Sugestões? Escreva para editor@iadb.org

 

LINKS
Site na Web Setor do BID – Energia
Site na Web: International Energy Agency
Site na Web: Fundo de Energia Sustentável e Mudança Climática (SECCI)
Artigo relacionado: Para matar a sede de eletricidade


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Publicado na Web em abril de 2008