“Pode subir, irmã!", gritou Fedia Castro, pisando forte nos freios. A mulher descalça jogou uma volumosa sacola na parte traseira da picape e subiu em seguida. Castro acelerou, deixando uma nuvem de pó atrás de si.
Estava com pressa, porque ainda tinha muitos quilômetros de sinuosas estradas de montanha para percorrer antes que caísse a noite. Mas isso não a impediu de parar várias vezes para recolher quem quer que parecesse estar precisando de carona. “Para onde vai, companheiro?”, perguntava ela. “Suba aí!”
Castro é a primeira mulher a ocupar a prefeitura nos 147 anos de história da província de La Convención, a maior do Peru, com um enorme território que desce pela encosta oriental dos Andes e segue o rio Urubamba até a Amazônia peruana. Ali, as terras baixas são o lar não só de diferentes grupos de habitantes nativos, como também do conhecido elenco de rudes personagens amazônicos: colonos, madeireiros, especuladores de terras, caçadores de fortuna e simples aventureiros.
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| Uma instalação localizada na área amazônica da província de La Convención processa o gás natural para enviá-lo a centros de consumo e pontos de exportação. A receita de Camisea financia iniciativas de desenvolvimento econômico e social na área do projeto. |
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Embora fique distante dos centros populacionais do Peru, o baixo Urubamba tornou-se uma peça chave para o futuro econômico do país. Sob a floresta tropical praticamente intocada, com suas incalculáveis riquezas biológicas, há uma imensa riqueza geológica de gás natural.
O Projeto de Gás Natural de Camisea está explorando esse tesouro de hidrocarbonetos e, ao mesmo tempo, impulsionando a economia do Peru e colocando o país no caminho da auto-suficiência energética. O projeto, executado por três empresas privadas, tem um custo total de US$1,7 bilhão, dos quais o BID emprestou US$75 milhões para financiar uma parte da construção do gasoduto (ver link à direita para o artigo “O BID e o Projeto Camisea").
Além disso, o BID emprestou US$5 milhões ao governo peruano para fortalecer as instituições envolvidas na criação da estrutura reguladora do projeto, na supervisão de seu cumprimento e na aplicação de sanções quando necessário (ver link à direita para o artigo “Muito além do Bloco 88").
Parte do empréstimo do BID para fortalecimento institucional foi usado na elaboração de um sistema para o financiamento de projetos de desenvolvimento econômico e social na área de influência do projeto com a receita dos royalties que a companhia de gás está pagando ao governo peruano. O dinheiro vai diretamente para as instituições governamentais distritais, onde seu uso é regulado por normas rígidas estabelecidas pelo Ministério de Economia e Finanças.
Os fundos de royalties tiveram um enorme impacto. No departamento de Cusco, que inclui a província de La Convención, quase US$95 milhões foram transferidos para os governos locais para financiar projetos em 2005. O valor projetado para este ano é de US$120 milhões. Cerca de metade desse montante é dividido entre projetos de educação e transporte, e o restante vai para saúde, irrigação, gestão ambiental, infra-estrutura agrícola e outros setores.
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| O governo provincial anuncia alguns de seus projetos num cartaz gigantesco em Quillabamba. |
Segundo Castro, a receita de Camisea está financiando 95% das obras públicas atualmente em andamento na província de La Convención.
Além de ajudar a população, os projetos também colaboram com os governos locais para que se tornem protagonistas no desenvolvimento econômico e social de sua região. Antes, apenas o governo central, distante e, em muitos casos, omisso, tinha os recursos e a capacidade técnica para executar tais projetos. Mesmo depois que o Peru adotou medidas para descentralizar o poder, os governos locais ainda não dispunham de dinheiro para exercer uma responsabilidade real.
Agora, porém, no departamento de Cusco e na província de La Convención, os governos locais estão planejando programas de investimento, administrando recursos e desenvolvendo capacidade técnica. Estão fazendo com que a descentralização deixe de ser apenas um conceito para se tornar realidade.
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| Em um projeto de renovação urbana, a prefeita encontra-se com o engenheiro responsável e dá suas orientações. |
Pessoas e projetos. Armada com o dinheiro dos royalties e uma determinação férrea, Castro exerce com satisfação a função de prefeita, cargo que ocupará até dezembro de 2006. Ela sorri radiante enquanto caminha pelo canteiro de obras, cumprimentando homens e mulheres que empunham picaretas e pás, misturam argamassa e plantam árvores. Encontra o engenheiro responsável e passa o braço sobre seus ombros. Trata os operários pelo nome, pergunta de suas famílias, posa com eles para fotografias.
Castro começou seu roteiro de visitas pela sede de seu governo, Quillabamba. É uma cidade pequena que, claramente, já conheceu melhores dias. Hoje, porém, hectares de concreto fresco e de jardins e árvores recém-plantados parecem proclamar: “Aqueles dias estão de volta”.
“Há uma nova escola ali”, apontou ela. “E um mercado”, prosseguiu, onde os campesinos (pequenos agricultores) podem vender seus produtos diretamente aos consumidores às segundas, quintas e domingos. As pessoas estão encantadas com os preços mais baixos, embora os rivais políticos de Castro a acusem de “abuso de autoridade”, porque suas ações puseram de lado os antigos intermediários.
Um grupo de turistas estava armando suas barracas numa nova área de acampamento. As instalações sanitárias e chuveiros também foram construídos com a receita de Camisea, disse Castro. Havia ainda um caminho para pedestres e uma “bela rua asfaltada que antes era de terra”.
Ela reduziu a velocidade da picape ao passar por uma farmácia municipal. Castro negociou com os distribuidores para poder vender remédios a um preço mais baixo. Sua principal preocupação era a hepatite. O ministério da Saúde do Peru só oferece vacinação gratuita para recém-nascidos, disse ela. Os adultos precisam pagar 80 soles por cada uma das três doses básicas. Mas sua farmácia consegue vender as mesmas vacinas por 20 soles cada dose.
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| Misture-se imaginação com um pouco de pigmento vermelho e o resultado é uma calçada agradável aos olhos e aos pés. |
O trabalho das mulheres. Castro parou diante de uma parede de concreto pintada com figuras de desenhos infantis. Do lado de dentro, operários estavam dando os toques finais num novo parque de diversões para as crianças da cidade, um complexo do tamanho de um quarteirão, com lagos , brinquedos, jardins e bancos. “Vejam todas essas pessoas trabalhando”, disse ela, “mulheres e homens.” Uma equipe plantava grama, outra pintava os banheiros - rosa para as meninas, azul para os meninos. Pedreiros decoravam uma nova calçada com desenhos vermelhos, ondeados. “Esse é o toque feminino - o meu”, disse Castro.
Explicou que os projetistas do parque tomaram um cuidado especial para criar uma área não só divertida, mas também educativa. Por exemplo, as aberturas cortadas nas estruturas para janelas e ventilação representam diversas formas geométricas.
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| Uma peça central do parque infantil é uma fonte que representa uma criança indígena com um bagre enorme nas mãos. |
“Vai ser de primeira classe”, disse Castro, “porque nossas crianças merecem.”
Ela posou para uma foto com um grupo de mulheres. “Nossa política é gerar empregos para nossos homens e mulheres”, explicou. As mulheres são contratadas por períodos de dois ou três meses, principalmente para cuidar de jardins e limpar áreas públicas. “Muitas mulheres são suficientemente fortes para realizar trabalhos físicos e, mais importante, elas levam tudo o que ganham para a família. Muitos homens não fazem isso.”
Desse modo, além dos benefícios mais amplos do fortalecimento da descentralização, a receita de Camisea está produzindo mudanças no plano pessoal. “Essas são mulheres muito humildes, que nunca teriam sonhado em trabalhar para uma instituição”, disse Castro. “É muito importante para sua auto-estima estarem recebendo um salário mensal.”
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| As mulheres que trabalham em projetos municipais ganham salários estáveis que permitem que elas mandem os filhos para a escola. |
A renda segura também é importante para a família das mulheres. Muitos pais não têm condições de mandar os filhos para a escola. Outros enviam um filho num ano, outro no ano seguinte. Muitas crianças acabam abandonando a escola de vez. Os novos empregos para as mulheres estão permitindo que muitas famílias enviem todos os filhos para a escola, disse Castro. Ela lembrou a visita de um grupo de crianças que tinha ido ao seu gabinete para agradecer. “As crianças tinham lágrimas nos olhos”, contou, “e eu também.”
Retomando sua ronda, Castro apontou para outro local, antes conhecido por ser ponto de reunião de viciados em drogas, bêbados e ladrões. “Era um lugar horrível”, comentou. Agora, o local está sendo convertido num parque recreativo, com uma piscina para adultos e crianças, banheiros, chuveiros e uma cerca ornamental.
Tributo a uma árvore. Castro entrou numa ampla avenida de concreto novo, onde ainda se viam pilhas de pedras e trabalhadores empurrando carrinhos de mão. Essa antiga rua de terra virava barro durante a temporada de chuvas e levantava nuvens de pó sufocante na estação seca. Esse e outros projetos de rua, disse ela, foram financiados em grande medida pela receita de Camisea.
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| Esta árvore especial, a cinchona, fonte do quinino, é o último espécime que resta na região de Quillabamba. |
Chamava-se Alameda, contou ela, mas não seria assim por muito tempo. Seu trajeto em direção à pátria florestal da população indígena da província pedia um nome indígena. A avenida terá estátuas de uma família indígena, de uma mulher camponesa e de um missionário dominicano, informou Castro. Entre as duas pistas de trânsito, uma larga faixa de jardins com bancos proporcionará alívio aos olhos e às pernas cansadas.
Ela parou em frente a uma árvore. Era uma cinchona, um dos mais valorizados presentes do Novo Mundo para a humanidade, graças à sua produção do antimalárico quinino. Esse espécime particular é o último que sobrevive na região e está sendo usado como fonte de sementes para projetos de reflorestamento. A avenida respeita a árvore fazendo um ligeiro desvio em torno dela. Um muro de concreto manterá os veículos afastados e uma placa especial explicará sua importância.
Para o campo. Saindo da cidade, Castro apontou para um conjunto empoeirado de máquinas pesadas. “Elas pertencem ao Ministério dos Transportes e não são usadas há meses. E precisamos tanto delas para a construção e manutenção de estradas! Mas eles não nos deixam usá-las para nossos projetos. É uma vergonha. Tenho vontade de arrumar uma chave, ligar um trator e colocá-lo para trabalhar!”, exclamou ela.
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| Uma placa anuncia um projeto de construção de uma nova ponte com fundos de royalties de Camisea.]. |
Seu governo provincial tem uma modesta frota de tratores e pás-carregadeiras, alguns dos quais ela mantém em operação 24 horas por dia, com alternância de turnos dos operadores. Castro insiste na necessidade de mais e melhores estradas para oferecer aos agricultores uma maneira confiável de levar seus produtos até o mercado. Com a receita de Camisea, sua administração está fazendo o possível para melhorar as estradas existentes e construir outras novas.
Castro engrenou a tração nas quatro rodas de sua picape e entrou num riacho de águas rápidas. Com os pneus deslizando sobre as pedras arredondadas e a água batendo no piso do carro, ela seguiu canal abaixo por uns 50 metros, usando pequenos marcadores para manter o curso.
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| O projeto de uma nova ponte está sendo realizado pela equipe técnica do governo provincial e construído com mão-de-obra local. |
De volumosos rios a minúsculos córregos, a província está cheia de pontos em que a estação chuvosa pode interromper por completo o transporte.
Na margem oposta desse riacho, Castro parou para conversar com operários que estavam terminando de fixar as estacas para uma nova ponte, que proporcionará acesso durante o ano todo a uma estrada e reduzirá significativamente o tempo de viagem até Lima. A ponte também fará com que não seja tão complicado chegar a um centro de recreação próximo. Esse centro é um complexo de jardins, instalações esportivas e restaurante, que tem como atração máxima uma piscina de tamanho olímpico, uma das quatro únicas existentes no país. Quillabamba agora poderá hospedar eventos internacionais, disse ela. Enquanto isso não acontece, os jovens da região usarão a piscina para treinar para competições nacionais.
Sem cidadãos de segunda classe. Avançando aos solavancos por estradas rurais, Castro estava claramente em seu elemento. Junto com seus dez irmãos, ela cresceu numa família de campesinos e conhece pessoalmente as dificuldades que a população rural enfrenta dia após dia (ver link à direita para o artigo “Na primeira pessoa”).
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| Os projetos de água tornam a vida rural um pouco mais fácil e saudável. Embora a água seja clorada, muitas pessoas mantêm o hábito de fervê-la, por segurança. |
Ela está convencida de que a melhora dos padrões de vida no campo ajuda não só a população local, mas também as cidades, por reduzir a migração que sobrecarrega os serviços urbanos. Por isso, sua meta é realizar tantos projetos quanto possível. Sistemas de água e saneamento, eletrificação, estradas, telefones, antenas parabólicas para TV, tudo isso ajuda a aumentar a produtividade.
“Eu acredito fervorosamente que as pessoas do campo devem dispor dos mesmos serviços que as pessoas da cidade”, diz ela.
Castro parou para conversar com uma mulher sobre seu novo sistema de água potável e instalações sanitárias. Ao longo do vale, uma fila de postes de concreto seguia em direção a uma comunidade anteriormente isolada, uma das oito em que o dinheiro dos royalties de Camisea está financiando a extensão dos serviços elétricos. Os postes e a instalação são obra de empresários locais, explicou.
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| Numa oficina de usinagem local, uma das centenas de pontes para pedestres projetadas localmente está pronta para ser instalada sobre um riacho de montanha. |
Ao chegar a um pequeno riacho, ela parou junto a uma ponte de aço para pedestres. Esta e muitas outras iguais estão substituindo a tradicional tecnologia rural de pontes, que consiste em três troncos lançados sobre a água, unindo as duas margens. A travessia era feita às escorregadelas, e cair na água era comum, disse Castro. Quando o volume de água dos riachos aumentava, crianças e idosos às vezes se afogavam. As novas pontes de nove metros foram projetadas localmente e produzidas numa oficina em Quillabamba.
Castro orgulha-se de seus projetos e acredita firmemente em sua missão como prefeita da província.
“Tenho 200.000 filhos aqui em La Convención”, disse ela, “e temos de fazer o melhor possível para resolver seus problemas e lhes dar oportunidades. Isso é o que eu faço a cada dia, o que é uma grande responsabilidade.”
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