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Residentes do dormitório masculino da Escola Secundária Santa Rosa, no norte da Guiana.

NOTÍCIAS
Cama, comida e um futuro
Internatos escolares em áreas remotas da Guiana propiciam a jovens ameríndios a oportunidade de uma melhor educação

Daniel Drosdoff, Kumaka, Guyana

A ambição de Ubete Milington, 12 anos, é estudar ciências da computação na universidade.

Jane Wilson, 15, gostaria de ser professora.

Ananca Charles, também com 15 anos, está decidida a tornar-se âncora de jornal em uma emissora de rádio ou televisão.

Os três têm uma chance de alcançar seus objetivos graças a um sistema de internatos escolares apoiado pelo BID e que atende comunidades ameríndias isoladas no interior da Guiana. As escolas são freqüentadas por estudantes que moram num raio de 100 quilômetros das aldeias vizinhas de Kumaka e Santa Rosa na região Barima-Waini. Para chegar a elas, saindo da capital de Georgetown, é necessário viajar quatro horas em lancha motorizada e percorrer duas estradas que interligam três rios.

Um dos dormitórios abriga 72 dos 264 alunos da Escola Secundária Santa Rosa, situada numa comunidade agrícola que produz laranjas, madeira, mandioca e outros produtos tropicais. O internato aceita alunos por até cinco anos de educação secundária depois que eles passam por exames de seleção. Quando se formam, os alunos podem prestar o exame do Conselho Caribenho de Exames – conhecido como CXC –, que lhes permitirá ingressar em muitas faculdades ou universidades regionais.

Embora tenham revolucionado as oportunidades educacionais para os jovens da área, os internatos não podem garantir que os alunos optarão por regressar a suas cidades após a conclusão dos estudos. Empregos na área são difíceis de encontrar e o futuro econômico dos habitantes é limitado dada a precariedade de recursos. Barcos a motor trazem a maior parte dos suprimentos, incluindo asfalto para estradas, cimento para construções, bens de consumo e alguns veículos motorizados.

Arthur La Rose, sub-diretor da escola secundária, comenta que existem poucas oportunidades além da agricultura, do ensino e de postos no governo local para os formandos do colegial e da universidade que optem por regressar.

A maioria dos moradores locais descende de grupos nativos aruaques, mas a língua aruaque em grande parte cedeu lugar ao inglês. Em algumas fazendas locais sobrevive uma outra língua nativa, o warrau.

Decepção após a volta. Duarte Hetsberger, 22 anos, é um dos que trocaram sua Kumaka natal por uma oportunidade educacional mas decidiram voltar após estudar três anos numa faculdade de educação. Ele também é presidente de um grupo de jovens chamado High Flyers Youth and Sports Club.

Duarte Hetsberger:“Só posso ensinar o que aprendi quando chegar o equipamento”.

Uma de suas frustrações, diz ele, é a dificuldade para conseguir máquinas e equipamento para o curso de artes industriais que a escola oferece. Há encomendas que demoram meses para chegar.

“Não posso ensinar o que aprendi até que o equipamento chegue”, diz ele.

Julia De Silva, 36 anos, professora primária em Santa Rosa, decidiu voltar a sua cidade natal após obter um título de bacharel em educação pela Universidade da Guiana.

“Achei que não era justo eu ficar morando em Georgetown”, diz ela. “Senti que precisava dar alguma coisa de volta para a comunidade.”

Entretanto, ela não pretende permanecer mais de dois anos. Agora, para visitar o marido que trabalha como gerente numa fábrica de azeite, ela precisa fazer uma viagem de um dia por barco. As conexões aéreas para visitar o marido na fábrica distante são mais viáveis a partir de Georgetown.

Sete pequenas cidades enviam alunos para o internato de Kumaka. Uma delas é Waramuri, situada a quase 20 quilômetros a jusante do rio Moruca. O desembarque no porto fluvial da aldeia é feito sobre pranchas em cima da lama.

A principal fonte de energia elétrica em Waramuri são painéis solares que fornecem luz e refrigeração para o único posto de saúde da cidade, onde uma única enfermeira atende os pacientes. O resto da cidade depende de uma única célula solar que também fornece energia para comunicação por rádio para o escritório do prefeito David Newsum.

Newsum está estudando maneiras de trazer maior vitalidade econômica para cidade de 1.800 pessoas mediante a diversificação da agricultura. Uma idéia consiste em iniciar a produção de gado para o mercado regional. Mas ele ainda não encontrou maneiras de mobilizar a comunidade ou o capital necessário para incentivar os moradores a ir além de sua economia tradicional baseada na produção de mandioca.

Os recursos para os painéis solares e uma escola primária em Waramuri vieram do Programa de Melhoria do Impacto Social da Guiana, conhecido como SIMAP, que também financiou o internato em Kumaka, o centro social e o clube de jovens da cidade, além de uma pré-escola e uma escola primária em Santa Rosa.

O SIMAP está voltado para comunidades de baixa renda, o que inclui os ameríndios, que respondem por 17% da pobreza do país, apesar de representarem apenas 7% da população. O programa investe em educação, saúde e infra-estrutura, definindo prioridades após consultas às comunidades beneficiadas.

A Guiana mobilizou recursos para o SIMAP e investimentos no setor social ao conseguir aliviar sua dívida graças à iniciativa mundial HIPC para países pobres altamente endividados.

O BID apoiou os projetos do SIMAP com três empréstimos: US$13,5 milhões em 1993, US$17 milhões em 1996 e US$20 milhões em 2001.


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LINKS
Artigo complementar: Os ameríndios da Guiana, isolados mas não esquecidos
Comunicado de imprensa (2001): BID aprova empréstimo de US$20 milhões em condições favoráveis à Guiana para pequenos projetos, serviços sociais e comunidades ameríndias.




Publicado na Web em abril de 2004