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Ernesto Rosales foi assassinado em julho último
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PAUL CONSTANCE
Ernesto Rosales Bonilla foi seqüestrado do lado de fora de sua casa em Soyapango, bairro
da classe operária nos subúrbios de San Salvador, na noite de 7 de julho de 1999.Seu corpo
foi encontrado quatro dias depois perto de uma rodovia fora da cidade. Tinha sido amarrado,
torturado e morto com cinco tiros na cabeça. Talvez porque trabalhasse no influente jornal El
Diario de Hoy, a morte deste engenheiro elétrico e ex-professor de inglês de 27 anos ocupou
as manchetes do dia. Até o final de outubro ninguém tinha sido preso e nem a polícia nem o
procurador geral tinham divulgado qualquer informação sobre o caso. Aos olhos do público,
as conquistas da reforma judicial de El Salvador estão sendo constantemente eclipsadas por casos
como o de Rosales. Oito anos após a assinatura dos acordos de paz, El Salvador continua sendo
um lugar violento para se viver. As armas existem em grande quantidade e são usadas com uma
freqüência desanimadora. Áreas marginais ao redor de San Salvador são aterrorizadas por
quadrilhas armadas, conhecidas como maras, que controlam os bairros e mantêm vínculos
estreitos com organizações criminosas de Los Angeles e outras cidades dos Estados Unidos.
Conquanto se acredite que a situação tenha melhorado nos últimos anos, o Conselho Nacional de
Segurança Pública do governo registrou em 1996 6.972 homicídios -- uma média de 19 por dia
em um país com apenas seis milhões de habitantes. Mas, ainda segundo dados do Conselho, foram
efetuadas somente 415 prisões relacionadas com esses homicídios, sendo que menos de um quarto
desse total acabou em condenação. Embora não se disponha de números comparáveis para o
período que se seguiu à implementação do código penal de El Salvador, fica bastante claro que as
melhorias ocorrem de maneira muito lenta. Os críticos da reforma judicial têm-se apoiado neste
fato para censurar os novos códigos penais pela persistência do crime e da impunidade. As novas
leis são descritas na imprensa como "feitas na Suíça" e totalmente impróprias para a realidade
social "tropical" de El Salvador. Diz-se que elas atam as mãos da polícia impondo garantias
demais ao devido processo. Em uma pesquisa do Gallup com 1.200 salvadorenhos realizada entre
agosto e outubro, sete de cada 10 entrevistados afirmaram que as leis protegem mais os
criminosos do que as vítimas. Para os defensores das reformas, essas críticas refletem uma
confusão fundamental sobre as causas do crime e o papel do sistema judiciário. "Algumas pessoas
acreditam que a causa do crime é a falta de repressão", diz Lorena Peña, membro da Assembléia
Legislativa. "Achamos que a sua causa são as condições sociais e econômicas em que vivemos. O
fato de sermos pobres não significa que devamos ter um sistema judicial da Idade
Média." Francisco Rodolfo Bertrand Galindo, Ministro da Justiça e da Segurança Pública de
El Salvador, acredita que o sentimento público contra as novas leis se deve em parte ao fato de
que "não se fez um marketing adequado da reforma" junto ao público. "A reforma vai além da
questão da lei. Ela tem a ver com juízes, promotores, com a polícia e seus procedimentos. Assim,
quando ocorre uma falha, ela se deve a um desses fatores." Além do mais, o novo código
penal de El Salvador não é tão liberal quanto os seus críticos acreditam que seja. Ele permite as
assim chamadas confissões extrajudiciais (o que significa que as confissões feitas à polícia, na
ausência de um juiz, são em alguns casos admissíveis como provas no tribunal), muito embora
grupos de direitos humanos relatem que essas confissões têm estado associadas a torturas. E em
setembro a Assembléia Legislativa aprovou emendas ao código penal ampliando sentenças
máximas e estendendo o uso da detenção antes do julgamento. O problema real, de acordo
com muitos observadores, é que os problemas sociais de El Salvador simplesmente excedem os
recursos de suas instituições. Antes de entrar em um tribunal, por exemplo, a maioria dos
salvadorenhos tem que passar pela Polícia Civil Nacional. Criada como resultado dos acordos de
paz, esta força inclui milhares de ex-soldados e ex-guerrilheiros. Embora tenham sido feitos
enormes esforços no treinamento e na reeducação da polícia, sua capacidade global de investigar
crimes é ainda muito limitada. Muitas vezes não se dispõe dos recursos necessários para coletar e
analisar provas, encontrar testemunhas e conduzir as autópsias apropriadas. O mesmo se pode
dizer das prisões de El Salvador: embora as novas leis incluam planos ambiciosos para a
reabilitação de presos, a falta de recursos faz com que a maioria dessas reformas permaneça no
papel. No longo prazo, o risco da reforma judicial de El Salvador é que ela gere expectativas
de justiça que não possam ser cumpridas de fato. "Estamos muito orgulhosos da estrutura
institucional e judicial que construímos", afirma María Teresa de Mejía, que dirige o Instituto
Salvadorenho de Proteção de Menores. "As novas leis possibilitam a todos reclamar seus direitos.
Mas o que acontecerá se não formos capazes de dar uma resposta a essas reclamações?" O
atual governo de El Salvador está determinado a impedir esse cenário. E anunciou planos para
lançar um Projeto para a Prevenção Social do Crime, com ênfase em educação pública, em
programas para jovens e em um novo conceito de policiamento apoiado na cooperação entre
grupos de bairro e patrulhas de polícia baseadas na comunidade. Para Benjamín Cuéllar,
defensor dos direitos humanos, essa cooperação é exatamente aquilo de que El Salvador precisa.
"A única maneira de fazer com que essa volta da roda não retroceda é levar o povo a confiar,
participar e empurrar na mesma direção."
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