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O primeiro ponto
de acesso: o juiz de paz
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PAUL CONSTANCE
Se você fosse uma esposa espancada em El Salvador, na prática o seu marido poderia
matá-la antes de enfrentar o risco sério de ir para a cadeia. Se fosse produto de uma união
conjugal de fato, podia estar certo de não receber apoio financeiro de um pai que não quisesse
dá-lo. Se fosse um menor suspeito de delito grave, seria jogado em uma cela abarrotada de
delinqüentes endurecidos no crime com duas vezes a sua idade e talvez tivesse de esperar aí anos
pelo julgamento.Estas são apenas algumas das situações que eram tecnicamente legais em El
Salvador até 1994, quando a Assembléia Legislativa substituiu o código civil em vigor desde 1860
por um dos conjuntos de leis mais avançados da América Latina na área do direito familiar. Um
ano depois, a Assembléia aprovou novas leis classificando os crimes juvenis e determinando
instalações separadas para detenção e reabilitação de delinqüentes juvenis. Em abril de 1998,
entraram em vigor os códigos penal e processual que tipificam diversas categorias novas de
crimes, estabelecem novos procedimentos de investigação e julgamento de delitos e novas regras
para sentenciar e tratar presos (ver destaques das novas leis em "Um novo panorama legal", neste
número). O caso de El Salvador é relativamente único no cenário latino-americano porque
esse país optou por começar do zero e elaborar leis novas nas áreas que respondem por mais da
metade das atividades de seus tribunais. (Todas as outras áreas, inclusive a comercial e a
trabalhista, continuam sujeitas ao antigo código civil.) A maioria dos países latinos escolheu um
caminho gradual, aprovando modificações para o código civil ou alterando aspectos processuais
para melhorar a eficiência dos tribunais. Diversos fatores estimularam a abordagem
ou-tudo-ou-nada de El Salvador. Um foi o efeito da guerra civil, que expôs o vínculo entre
violações dos direitos humanos e deficiências da legislação do país e de seus procedimentos
judiciais. A guerra também forçou os formuladores de políticas a reconhecer o enorme hiato entre
o código civil de El Salvador e a realidade social da maior parte da população. Milhares de
crianças que tinham se tornado órfãos ou sido separadas de seus pais durante a guerra civil, por
exemplo, estavam sendo mantidas em centros provisórios do governo. Mas, como o código civil
não contemplava uma situação como essa, o governo não dispunha de base legal sobre a qual
criar políticas sobre o cuidado ou o destino dessas crianças no longo prazo. Da mesma forma, um
estudo realizado depois da guerra mostrava que quase metade dos casais salvadorenhos com
filhos não estava legalmente casada. Devido à definição estrita de casamento no código civil,
essas famílias viviam em um vazio legal em que era impossível resolver disputas sobre custódia de
filhos, bens ou outras questões. O código civil de El Salvador também não refletia os direitos
e princípios articulados na Constituição de 1983 e nos tratados internacionais ratificados por sua
Assembléia Legislativa, como a Convenção Internacional sobre os Direitos da Criança e a
Declaração Universal dos Direitos Humanos. "Olhamos para nossa legislação de 1860 e nos
perguntamos: Onde estão os direitos das crianças? Onde estão os direitos das mulheres? Onde
estão os direitos da família?", lembra María Teresa de Mejía, que hoje dirige o Instituto
Salvadorenho de Proteção dos Menores. As pessoas se faziam as mesmas perguntas sobre os
direitos dos presos e das vítimas de tortura e sobre outros problemas -- como corrupção no
governo e poluição industrial -- que não estavam contemplados no código de 1860. As
questões eram mais que acadêmicas, porque na tradição do direito civil um ato criminoso só pode
ser punido quando é descrito explicitamente na lei. Um debate público. A
partir de meados da década de 80, pequenas equipes técnicas nos sucessivos governos
salvadorenhos usaram o apoio financeiro da Agência para o Desenvolvimento Internacional dos
Estados Unidos e mais tarde das Nações Unidas para produzir projetos de leis que poderiam
preencher essas lacunas. Além de codificar os direitos constitucionais e tipificar novos tipos de
crimes, os projetos propunham um tipo inteiramente novo de processo judicial baseado em
julgamentos orais dominados por promotores públicos e defensores.
Sabendo que as novas
leis não seriam aprovadas na Assembléia Legislativa sem um amplo respaldo do público, o
Ministério da Justiça lançou um extenso programa de consulta pública para cada uma delas,
divulgando os projetos por todo o país e solicitando comentários das partes interessadas. Os
códigos da família e dos jovens, embora controversos, ganharam o apoio imediato de uma larga
faixa de grupos de interesses e foram aprovados com relativa tranqüilidade. A história dos
códigos penais foi diferente. "Passamos quatro anos discutindo-os", relembra Lorena Peña,
deputada pela FMLN, que preside a Comissão da Criança, Família e Mulher da Assembléia.
"Ouvimos todas as organizações de direitos humanos, todas as associações de advogados, todos
os outros grupos de interesses e travamos grandes debates entre nós mesmos." O debate público
não foi interrompido nesses 18 meses em que os códigos criminais estão em vigor. Foram
numerosas as modificações introduzidas nas leis originais, e propostas de mais mudanças estão
sendo debatidas na Assembléia atual (ver artigo da página 20). Mas para Lorena Peña, que
discorda pessoalmente de diversos pontos do código penal, o longo debate foi essencial para a
credibilidade da reforma. "Ninguém pode reclamar que essas leis não foram produto de
consenso", diz ela. Avaliação das novas leis. É claro que não bastam boas leis
para assegurar a justiça. Os novos códigos de El Salvador são considerados bem-sucedidos na
medida em que exigem a criação de novos pontos de acesso à justiça e de novos procedimentos
para tornar os serviços judiciais mais eficientes. Para atender aos novos códigos juvenil e de
família, por exemplo, o judiciário construiu e equipou dezenas de novos tribunais que lidam
exclusivamente com esses casos. Desde o dia em que foram abertos em 1994, esses novos
tribunais vivem praticamente lotados. Lorena cita o exemplo da violência doméstica. "Antes da
aprovação do novo código da família, registravam-se cerca de 300 casos de violência doméstica
ao ano em El Salvador. Depois que a lei foi aprovada e os novos tribunais começaram a
funcionar, foram registrados 14.000 casos em um ano." Francisco Díaz, membro do Conselho
Judicial Nacional, afirma que a popularidade desses tribunais se deve em parte à crescente
confiança das mulheres salvadorenhas na possibilidade de obter socorro legal. "As chances de que
uma mulher em conflito com o marido tenha ganho de causa são muito, muito maiores do que
antes", declara. Mas os tribunais familiares e juvenis não se limitam a emitir vereditos. As
novas leis atribuem ao Estado a responsabilidade pela assistência às famílias e aos jovens para
além da etapa da sentença por meio de assistentes sociais e psicólogos especialmente designados
para acompanhar os casos e assessorar os tribunais. Os delinqüentes juvenis, por exemplo, são
encaminhados ao Instituto Salvadorenho para a Proteção do Menor, que implementa programas
abrangentes de reabilitação em centros inteiramente separados dos sistemas de detenção
regulares. Atualmente, estão sendo usados recursos do BID para renovar, equipar e expandir
esses centros. Embora seja ainda cedo para avaliar os efeitos dos novos códigos penais, existe
pelo menos um indicador que ninguém contesta. "Em média, os casos penais contemplados no
código antigo levavam de dois e meio a três anos para ser resolvidos", afirma o juiz René
Hernández, nomeado para o Supremo Tribunal em 1994, depois de ter exercido o cargo de
Ministro da Justiça. "Hoje, a média está em torno de quatro meses." Os novos códigos
também melhoraram o acesso ao sistema judicial expandindo amplamente a autoridade e
responsabilidade dos 323 juízes de paz do país. Esses funcionários, que operam em tribunais em
todos os municípios do país, agora precisam ser formados em direito e passar por exames de
habilitação aplicados pelo Conselho Judicial Nacional. Essas qualificações são necessárias porque
os juízes de paz hoje lidam com um amplo conjunto de casos que antes tramitavam pelos tribunais
mais elevados. Além de impedir que esses casos menores entulhem os demais tribunais, essa
disposição permite que as pessoas de recursos limitados resolvam seus problemas legais mais
rapidamente e mais perto do local onde moram.
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