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PAUL CONSTANCE
"Você não poderia pelo menos me fazer juiz?"Em uma antiga piada repetida pela
diretora de uma prestigiada escola de direito de El Salvador, esta pergunta é feita por um
advogado desempregado a um alto funcionário do governo que lhe deve favores. Como todas
as piadas que resistem ao passar do tempo, esta também tem seu fundo de verdade. Para Emma
Dinorah Bonilla de Alvear, que dirige a escola de direito da Universidad Centroamericana José
Simeón Cañas em San Salvador, a piada resume um legado vergonhoso que ela e seus colegas
lutam constantemente para superar no trabalho que desenvolvem para formar as novas gerações
de advogados e futuros juristas. "No passado -- embora tenhamos tido alguns juízes muito bem
preparados -- a verdade é que os juízes eram nomeados por qualquer que fosse a razão, menos
por suas qualificações", afirma a diretora. O estereótipo de juízes como beneficiários de
favores políticos tem raízes profundas em muitas sociedades latino-americanas. Em El Salvador,
ele começa com a figura do juiz de paz, um funcionário local que tradicionalmente representa o
primeiro, e para muitas pessoas o único, contato com o sistema judicial. Até recentemente, os
juízes de paz de El Salvador não precisavam ser advogados ou ter qualquer treinamento legal para
o desempenho de suas funções. Isso não é necessariamente um mal; em muitos países, juízes de
paz sem treinamento construíram uma tradição notável na prestação dos serviços judiciais básicos
às pessoas que vivem em áreas afastadas. Mas em El Salvador o processo de nomeação desses
funcionários se tornou tão ostensivamente politizado que o cargo acabou perdendo muito de seu
prestígio tradicional. Os juízes dos demais tribunais, de nível mais elevado, tinham de ser
advogados, mas eram nomeados para prazos curtos e promovidos à discrição única da Suprema
Corte. Isto não constituiria necessariamente um problema, não fosse o fato de que a Suprema
Corte era substituída integralmente a cada novo governo. Os candidatos para o tribunal eram
indicados pelo Executivo ou por seus aliados, requerendo-se apenas maioria simples na
Assembléia Legislativa para a sua confirmação. "Tudo isso levava a uma profunda falta de
confiança no judiciário, situação que continua até hoje", afirma Rafael Durán Barranza, presidente
do Conselho Nacional de El Salvador. "As pessoas não confiam nos juízes, não confiam nos
juízes da Suprema Corte, não confiam sequer nos advogados." Uma base para
confiança. Algumas das reformas mais radicais levadas a cabo pela Assembléia de El
Salvador tiveram como objetivo restaurar a fé do público na integridade e capacidade dos juízes e
de outros funcionários chave do setor judicial. Em primeiro lugar, a Assembléia tomou
medidas para acabar com a subserviência financeira e política ao Poder Executivo. Uma emenda
constitucional estabeleceu que 6% da receita nacional de El Salvador fossem alocados ao
orçamento operacional do todos os anos -- um dos níveis mais altos da América Latina. Além de
proteger o judiciário da interferência financeira, essa medida deu aos tribunais um orçamento
previsível que lhes permitiu elevar os salários de maneira geral, investir em treinamento e novas
instalações e pagar os custos da modernização administrativa e das reformas
subseqüentes. Uma segunda lei fortaleceu o Conselho Judiciário Nacional, concebido como
um contrapeso ao poder administrativo concentrado na Suprema Corte. Como em muitos países
latino-americanos, a Suprema Corte de El Salvador desempenha numerosas funções, como as de
selecionar e promover juízes e admitir ou excluir advogados do foro, o que pode criar conflitos de
interesses clamorosos. O conselho foi concebido para assumir algumas dessas funções e
representar os interesses de outros funcionários do setor judicial. É constituído de seis
representantes eleitos por escolas de direito, associações de advogados no exercício de sua
profissão e pelo ministério do governo que abriga promotores e defensores
públicos. Atualmente, o conselho é o guardião do ingresso na carreira judicial. O primeiro
degrau da carreira judicial -- o juiz de paz local -- agora só é acessível a advogados que passam
por exames de habilitação e submetem-se a programas de treinamento organizados pelo conselho.
Este também elabora listas de candidatos para nomeações e promoções em tribunais, avalia o
desempenho de juízes acusados de malversação ou corrupção e dirige uma escola judicial
profissional (ver o artigo "O custo da formação em direito", neste número). Finalmente, a
Assembléia Legislativa revisou o processo de nomeação de juízes para a Suprema Corte. Para
limitar os vínculos com o governo no poder, os 15 juízes do tribunal agora têm um mandato de
nove anos. A cada três anos, renova-se um terço dos juízes por eleição. O Executivo e o
Legislativo não desempenham mais qualquer função na nomeação dos candidatos. Em vez disso,
são elaboradas duas listas de possíveis candidatos: uma pelo Conselho Judiciário Nacional e a
outra como resultado de uma eleição nacional aberta a todos os advogados no exercício da
profissão no país. Os candidatos mais bem classificados nas duas listas passam a compor uma
única lista que é apresentada à Assembléia Legislativa, a qual deve confirmar cinco deles com o
voto de dois terços dos deputados, e não mais por maioria simples. O sistema posto
à prova. Os novos procedimentos de nomeação foram submetidos a um teste dramático em
1994, sendo então aplicados pela primeira vez à eleição das 15 vagas da Suprema Corte. O
processo de seleção foi extremamente tenso. Diversos juízes em exercício (todos eles designados
durante a guerra civil) realizaram campanhas barulhentas para conservar seus postos. Mas a
primeira Assembléia Legislativa pós-guerra, que incluía um bloco de delegados recém-eleitos pela
FMLN, era muito diferente das que a tinham precedido. No final, nenhum dos 15 juízes em
exercício recebeu votos suficientes para continuar no cargo.
Mais digno de nota ainda foi o
fato de que nenhum dos novos juízes era acusado de incompetência ou de corrupção passada.
Estima-se que 75% dos advogados da nação votaram na eleição e os candidatos que encabeçaram
a lista e foram levados à Assembléia desfrutavam todos da consideração geral como profissionais
bem conceituados. "Isto foi um avanço enorme, baseado em um processo infinitamente superior
ao antigo", diz Francisco Díaz Rodríguez, membro do Conselho Judiciário Nacional, que dirigiu
até bem pouco tempo a FESPAD, conceituada organização de pesquisa e advocacia em San
Salvador. A nova Suprema Corte voltou-se de imediato para a implementação de diversas
reformas pendentes, trabalhando para firmar a sua independência em questões de direito (ver
neste número o artigo "Quem escreveu as novas leis?"). As pessoas começaram a falar dos
tribunais como um eixo emergente de poder no país. A classe política, que nunca tinha dispensado
muita atenção ao judiciário nos dias em que ele era inteiramente subserviente, de repente passou a
se interessar pelo processo de nomeação. Em 1997, quando um terço do Supremo teve de ser
renovado, a conversa na assembléia girou em torno de "reparto", ou a tradição pela qual os
partidos políticos concordavam a portas fechadas em dividir posições chave com base nas
filiações políticas dos candidatos. "Houve muito mais pressões, mais manobras e mais vetos" de
candidatos da parte dos partidos políticos de todos as tendências, declarou Díaz. A
reemergência da pressão política é evidente também em outras áreas do sistema de justiça. Como
parte das reformas, o procurador geral de El Salvador (para cuja confirmação também se
requerem dois terços dos votos da assembléia) recebeu muito mais poder para investigar
malversações de funcionários privados ou públicos (ver o artigo "Disputas se resolvem no
tribunal", neste número). Os salvadorenhos ficaram surpresos, por exemplo, quando o primeiro
procurador geral a exercer esses poderes teve êxito em prender diversos membros da Polícia Civil
Nacional por terem forjado provas no caso famoso do assassinato de um jornalista. Quando o
mandato deste procurador geral expirou em julho passado, a Assembléia deixou de prorrogá-lo e
entrou em uma rodada prolongada de negociações sobre quem deveria sucedê-lo. O cargo
continuava vago até o final de outubro passado. Muitos observadores viram o atraso como
uma prova de que o Executivo e o Legislativo não se sentem confortáveis com um procurador
geral forte e independente. "Para mim, trata-se da prova de que está em curso uma
contra-reforma", diz Benjamín Cuéllar Martínez, diretor de um instituto bem conhecido de
direitos humanos em San Salvador. Lorena Peña, deputada na Assembléia pela FMLN,
também está preocupada: "Quando se decide a ocupação de cargos chaves por ‘reparto'
começa-se a enveredar pelo caminho da corrupção". Mas ela não deixa de censurar seu próprio
partido por não se dar tempo para examinar cuidadosamente as credenciais dos candidatos
judiciais. "Não se consegue a maioria de dois terços nesta Assembléia sem a FMLN", diz.
"Contribuímos para alguns erros." A sua admissão revela um dos paradoxos do processo da
reforma. Os salvadorenhos só começarão a confiar em seus funcionários judiciais quando os
próprios cidadãos, por meio de seus representantes na Assembléia, exercerem a vigilância
necessária para que a lisura do processo de seleção seja preservada.
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