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DAVID MANGURIAN
O trabalho de preservar a herança cultural não é somente para arquitetos, historiadores da
arte e antropólogos, mas também para cozinheiros. Para a maioria das pessoas, a comida é mais
do que mero sustento e as comidas tradicionais são veneradas como símbolos culturais, a última
defesa contra a homogeneização global dos estilos de vida.Para três jovens empresários
equatorianos, a preservação de tradições culinárias - no caso deles, doces - tornou-se um negócio
lucrativo. Sua empresa, a Dulces Tradicionales del Ecuador (Dutraec), nasceu há quatro anos
quando a proposta comercial que fizeram foi escolhida como uma das sete ganhadoras de um
concurso para jovens organizado pela Fundação Esquel, organização equatoriana sem fins
lucrativos. A fundação também financiaria os vencedores com a ajuda de uma doação do BID.
A empresa foi fundada por três alunos de economia e negócios da Universidade Católica,
Marco Vintimilla, Esteban Vega e María Caridad Araujo, que se conheciam desde o secundário.
"Queríamos entrar no concurso, mas não sabíamos o que propor", diz Vintimilla, hoje gerente de
vendas da companhia. Elaboraram uma lista de 40 projetos com possibilidades de lucro, entre
eles um bar num parque com quadras de vôlei e uma fábrica de caixas de madeira para empresas
exportadoras. "Finalmente escolhemos o ramo tradicional da confecção de balas porque parecia o
mais fácil e não exigia muito capital para começar", disse ele. "Vimos o potencial do
negócio." A Fundação Esquel deu ao trio US$3.500 para realizar uma pesquisa de mercado
antes de abrir o negócio. Eles reuniram cinco grupos de idades diferentes e ficaram sabendo, entre
outras coisas, que as pessoas gostavam dos doces tradicionais, mas tinham dificuldade de
encontrá-los e não queriam comprá-los em sacos de plástico não selados. Em função dessas
sessões, os três fundadores decidiram o nome do produto, Dulces de Antes, e formularam os
planos de comercialização e distribuição. Contrataram um artista gráfico que criou uma
logomarca e dois tipos de embalagem: caixas bem concebidas, mostrando fotos coloridas dos
doces e embalagens de plástico transparente para pendurar nos mostruários das lojas. Em seguida,
os fundadores da companhia investiram cerca de US$10.000 de suas economias e a fundação
contribuiu mais US$15.000 em financiamento de capital para começar o negócio. Um dos
primeiros desafios foi encontrar gente que ainda estivesse fazendo doces antigos do jeito
tradicional e que pudesse ser um fornecedor de confiança. "Perguntamos aos nossos pais que tipo
de doces costumavam comer e onde o compravam", conta Vintimilla. "Disseram que os
compravam de uma velhinha na rua tal e tal. Fomos até lá e encontramos gente que ainda fazia os
doces." Um dos produtores dos doces tradicionais que encontraram foi Luis Banda Jr., que
representava a terceira geração de confeccionadores de balas de amendoim chamadas colaciones.
Apesar de ser formado em engenharia, tinha decidido continuar o negócio da família de fabricação
de doces tradicionais usando a receita secreta de sua avó. É um trabalho fisicamente exaustivo,
disse ele. Os amendoins torrados são aquecidos com açúcar derretido, baunilha e suco de limão
num caldeirão de bronze suspenso de uma viga; o caldeirão é balançado manualmente para a
frente e para trás sobre um fogo a carvão, para que a mistura endureça e forme uma camada em
torno de cada amendoim; aos poucos se adiciona mais líquido até que as camadas formem uma
pequena bola branca do tamanho de uma bolinha de gude. Cada fornada de 10 quilos leva três
horas para ficar pronta. "Antes havia 45 ou 50 pessoas fazendo colaciones em Quito", diz
Luis Banda pai, 78 anos de idade. "Agora não há mais ninguém, exceto nós, porque a maioria das
pessoas da minha idade já morreu. Seus filhos não quiseram continuar a fazer colaciones porque é
um trabalho duro, com a barriga encostada no calor do fogo o dia inteiro." "Não sei se meu
filho vai querer fazer isso", diz Banda Jr. "Será difícil." Nem todos os fornecedores que a
companhia encontrou vêm de uma linhagem de produtores especializados. Um exemplo é o
fornecedor de alfajores, um biscoito de massa leve recheado com doce de leite. A doceira que faz
os alfajores aprendeu o ofício depois que o marido morreu e ela precisou ganhar dinheiro para se
sustentar. Hoje, ela já contratou um empregado e construiu dois fornos grandes. Encontraram
também fornecedores de doce de leite, quadradinhos de goiabada e manizado, um pé-de-moleque
em placas feito com uma mistura de amendoins, sementes de gergelim e caramelo. Mas alguns
doces antigos aparentemente se perderam para sempre. "Todo mundo pergunta se vamos fazer
mistelas", diz Vintimilla, referindo-se às figurinhas de açúcar que derretem na boca, recheadas de
licor de açúcar. Todo mundo em Quito com mais de 35 anos de idade já provou esse doce pelo
menos uma vez na vida. Mas eles são frágeis e difíceis de fazer. O último confeccionador de
mistelas, descobriram, tinha morrido há oito anos. A nova empresa fez sua primeira venda em
1996, conseguindo um contrato para fornecer 1.000 caixas de doces a uma empresa equatoriana
para brindes de Natal. Naquela época, a Dutraec não tinha empregados, assim Vintimilla e seus
sócios tiveram que embalar eles mesmos os doces em tradicionais vasilhas de barro colocadas
dentro de pequenas cestas. Não foi tão fácil encontrar clientes quanto eles pensavam que seria,
conta Vintimilla. "O mais difícil era convencer as pessoas a comprar um produto que estava no
mercado há anos, mas que agora vinha numa embalagem diferente. Elas nos perguntavam: ‘Como
podemos saber se é de boa qualidade?'" A Dutraec agora emprega seis pessoas que
empacotam os doces enviados pelos fornecedores. As vendas subiram a US$6.500 ao mês antes
que o Equador mergulhasse na crise econômica de fevereiro. Apesar da recessão que continua a
castigar os varejistas em todo o país, as vendas da companhia continuam estáveis. "Muitas
empresas pequenas estão indo à bancarrota", diz Vintimilla, "mas nós não estamos despedindo
ninguém". De fato, depois que a Dutraec conseguir o selo de aprovação do órgão
governamental de alimentação e drogas, os consumidores poderão comprar Dulces de Antes nos
supermercados. Isso, juntamente com as incorporações recentes à linha de produtos da Dulce de
Antes - um enrolado de goiaba e doce de leite, doce de leite coberto de açúcar e doces de coco -,
está mostrando que os doces antigos aparentemente têm futuro no Equador. Para maiores
informações sobre Dulces de Antes, contate a companhia por e-mail em
dutraec@hotmail.com.
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