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Presidente Kennedy e Felipe Herrera, primeiro presidente do BID, assinam acordo de cooperação
em 1961
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1960 - O economista chileno Felipe Herrera é eleito primeiro presidente do Banco
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1970 - Antonio Ortiz Mena, ministro das finanças do México, é eleito segundo presidente do BID
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1988 - Enrique V. Iglesias, economista uruguaio, é eleito terceiro presidente do BID
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PETER BATE
Se houve um momento decisivo na vida do Banco Interamericano de Desenvolvimento ele
ocorreu em agosto de 1961, no auge da Guerra Fria, durante conferência econômica realizada
pela Organização dos Estados Americanos no balneário uruguaio de Punta del Este.A
reunião, que teve lugar um par de meses depois da fracassada invasão da Baía dos Porcos, iria
adotar a proposta do Presidente John F. Kennedy de formar a Aliança para o Progresso,
programa de US$20 bilhões que canalizaria financiamento de longo prazo dos Estados Unidos
para projetos de desenvolvimento na América Latina. Ernesto "Che" Guevara, argentino de
nascimento e então presidente do Banco Central de Cuba, tomou a palavra para pedir ao
subsecretário de Estado dos Estados Unidos Douglas Dillon a inclusão de Cuba no programa.
Dillon replicou que o país não poderia participar porque não era membro do BID. Essa
declaração levou o líder revolucionário a fazer um discurso em que ridicularizava o Banco, que
mal cumprira um ano de existência, como instituição preocupada unicamente com o
financiamento da construção de latrinas, numa alusão aos empréstimos do Banco a projetos de
água e saneamento. Quando Guevara terminou, o presidente e fundador do BID, Felipe
Herrera, jovem advogado chileno com um passado político socialista, levantou-se e caminhou até
onde estava a delegação cubana. "O senhor está absolutamente correto", disse, apontando para o
presidente do banco central cubano. "Somos o Banco dos banheiros. Somos o Banco da água
limpa, o Banco que protegerá os recém-nascidos da América Latina e seremos o Banco da
integração econômica." A resposta sucinta de Herrera foi lembrada por Arnold Weiss,
ex-gerente do Departamento Jurídico do Banco, que estava presente à conferência e cujas
recordações estão incluídas em livro recém-publicado sobre a história do Banco. Naquela resposta
e no discurso que fez a seguir, Herrera definiu com vigor a missão do Banco, que era impulsionar
o desenvolvimento socioeconômico da América Latina e do Caribe, incentivando as reformas
necessárias para garantir maior bem-estar e justiça para seu povo. Há 40 anos o Banco vem
seguindo esse caminho, ajudando os países da América Latina e do Caribe a modernizar suas
sociedades e suplantar um legado de pobreza e desigualdade. Essa enorme "dívida social", como
assinala o Presidente do BID Enrique V. Iglesias, continua sendo o maior desafio da
região. No processo, o Banco, que foi forjado principalmente como um instrumento para
cooperação entre a América Latina e os Estados Unidos, tornou-se uma instituição internacional
com 46 países membros, incluindo nações da Europa e Ásia. Seu capital autorizado passou de
US$850 milhões para US$101 bilhões e há muito se estabeleceu como a principal fonte de
financiamento multilateral para o desenvolvimento na região. Provou também que os
pessimistas iniciais estavam errados quando duvidaram de que uma instituição financeira com
participação majoritária e controlada por seus próprios devedores pudesse ser sólida e
sustentável. Essa instituição singular sempre recebeu a classificação mais alta dos principais
serviços de classificação de valores, o que lhe permite fornecer aos países mutuários
financiamento acessível para projetos que de outra forma provavelmente não atrairiam apoio em
mercados de empréstimos voluntários. Ao longo do caminho, o BID veio inovando como
banco de desenvolvimento. Foi a primeira instituição multilateral a financiar projetos sociais, fazer
empréstimos globais e apoiar microempréstimos na região. Financiou expansão da educação
superior e projetos turísticos importantes. Hoje está ajudando países a cuidar das feridas
provocadas por guerras civis e disputas de fronteira e está encorajando as comunidades a se
organizar contra a violência. A história de como o BID levou a cabo o mandato de seus países
membros está contada no livro Más que un Banco, escrito por três ex-funcionários,
Luciano Tomassini, Oscar Rodríguez-Rozic e Jorge Espinosa Carranza, que trabalharam de perto
com os três presidentes que lideraram o Banco. Primórdios da Guerra Fria. Sob
muitos aspectos, Felipe Herrera foi o homem certo no momento certo para o BID que se iniciava.
Embora tivesse acabado de completar 38 anos quando se tornou o primeiro presidente do Banco,
já tinha acumulado vasta experiência em política, administração pública e negociações
internacionais. Começou a trabalhar no Banco Central do Chile quando ainda cursava a escola de
direito. Como líder do movimento estudantil universitário, embrenhou-se na política socialista.
Aos 26 anos de idade, foi nomeado gerente geral do Banco Central. Como ministro da Fazenda
do Chile no governo do Presidente Carlos Ibáñez derl Campo, tomou parte nas prolongadas
conversações dentro da OEA que levaram à criação do BID em dezembro de 1959. A idéia de
um banco regional para a América Latina remonta ao século 19. Depois da Segunda Guerra
Mundial muitos governos da região propuseram a criação de uma instituição financeira voltada
para seus próprios interesses e separada das instituições de Bretton Woods. Esses governos viam
o recém-criado Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial sobrecarregados com a
tarefa de reconstruir as economias devastadas da Europa e da Ásia. Queriam que esse banco
regional de desenvolvimento tivesse participação majoritária e fosse financiado pelos próprios
países mutuários. Dadas as inquietantes provas de turbulência social em diversos países
latino-americanos, como a revolução que levou Fidel Castro ao poder em Cuba, os governos
primeiro de Eisenhower e depois de Kennedy apoiaram prontamente a proposta de seus vizinhos
durante os anos 50 e 60. Com Herrera à frente, o BID preparou-se para ser algo "mais que um
banco", como costumava dizer seu presidente fundador. Além de financiar projetos de
infra-estrutura, básicos para a atuação de um banco de desenvolvimento, envolveu-se
profundamente em programas sociais, ajudando a financiar a expansão de serviços de água e
saneamento, habitação, saúde, educação, treinamento para o trabalho e pesquisa científica e
tecnológica. Durante o mandato de Herrera, o Banco também acolheu como novos membros os
países do Caribe que tinham se tornado independentes da Inglaterra. Quando Herrera se
demitiu em 1970, deixou atrás de si uma instituição bem estabelecida que tinha apoiado a América
Latina enquanto a região crescia a uma média anual de 5,5% durante a década. Os
governadores do BID escolheram substituir Herrera por um homem com uma formação
semelhante, Antonio Ortiz Mena, ex-ministro da Fazenda do México que também tinha estado
envolvido nas negociações que precederam a criação do Banco. O novo presidente enfrentaria o
desafio de construir uma instituição ainda maior, capaz de enfrentar as grandes crises
internacionais. Nas duas décadas que se seguiram a sua criação, o programa de empréstimos
do BID refletiu a confiança da América Latina no modelo de desenvolvimento arquitetado pela
Comissão Econômica das Nações Unidas para a América Latina (CEPAL) sob a liderança do
economista argentino Raúl Prebisch. Um de seus princípios era que o desenvolvimento não ocorre
simplesmente como produto das forças de mercado. Para que haja desenvolvimento rápido e
bem-sucedido, as políticas precisam ser enquadradas por planos de longo prazo elaborados por
órgãos estatais que são os responsáveis últimos pela infra-estrutura. No caso da América Latina, a
industrialização seria rapidamente alcançada pela substituição de importações com bens
produzidos localmente. Esse modelo, há muito sancionado pelas instituições financeiras baseadas
em Washington, permaneceria válido até ser destruído pela crise internacional da dívida no
começo dos anos 80. Antes que isso ocorresse, porém, o produto da América Latina cresceu a
uma taxa anual de 5% durante quase duas décadas, tirando milhões de pessoas da pobreza e
incorporando-as à vida econômica moderna. Mas o modelo da CEPAL também estimulava níveis
altos de inflação que camuflavam finanças públicas desordenadas e ineficiências econômicas que
ao final seriam sua ruína. Mas antes que isso acontecesse Ortiz Mena levou o Banco a uma
grande expansão do seu quadro de membros nos anos 70, quando Canadá, Japão, Israel e um
grupo de nações européias juntaram-se ao BID. A incorporação dos novos membros não apenas
fortaleceu a posição financeira inicial do Banco mas lhe deu também acesso a um grupo
diversificado de talentos profissionais com sólida formação em serviço público e ajuda
internacional e desenvolvimento. Refletia também as ligações crescentes de comércio e
investimento da América Latina com outras regiões do mundo. Nos 17 anos de mandato de
Ortiz Mena, o Banco triplicou seu capital autorizado a US$30 bilhões e os empréstimos
elevaram-se a US$3 bilhões ao ano. Refletindo as prioridades dos países mutuários nesse período,
a maior parcela de financiamento concentrou-se em projetos produtivos e de infra-estrutura. O
Banco também adotou uma política explícita em favor dos países menos desenvolvidos,
concedendo-lhes empréstimos em condições favoráveis com períodos de vencimento e de carência
mais longos, taxas de juros preferenciais e exigências menos estritas de financiamento de
contrapartida. Alguns dos mutuários mais desenvolvidos deixaram voluntariamente de fazer
pedidos de financiamento e até estabeleceram fundos especiais para ajudar os países mais pobres.
Ortiz Mena também reviveu a idéia de estabelecer um banco de investimento afiliado, projeto
que tinha ficado esquecido durante anos. Em 1984, 34 dos países membros do Banco assinaram o
documento de criação da Corporação Interamericana de Investimentos, uma nova instituição que
apoiaria com empréstimos, investimentos de capital e assessoria técnica empresas pequenas e
médias na região. Outro legado da presidência de Ortiz Mena foi o aumento dos
financiamentos para órgãos regionais de desenvolvimento para encorajar maior integração
econômica. Ele foi também um dos principais defensores dos impostos de valor agregado, que via
como etapa intermediária para uma padronização das regras fiscais em toda a região.
Praticamente todos os países da América Latina acabaram implementando esses
impostos. Durante seu mandato, o BID também instituiu políticas mais estritas para mitigar o
impacto social e ambiental de seus projetos. No passado, considerações dessa natureza não
tinham sido sempre prioridade para a maioria dos mutuários, como ilustra uma história que se
encontra no livro Más que un Banco. Quando um funcionário do BID que trabalhava num projeto
de construção de barragem perguntou a um funcionário governamental que planos o governo
tinha para as pessoas que teriam suas terras inundadas, a resposta foi: "Vamos ensiná-las a nadar".
Mas durante os anos da presidência de Ortiz Mena medidas para mitigar impactos desse tipo
tinham se tornado foco principal do desenho e execução de projetos. Ao final do mandato de
Ortiz Mena, a região ainda estava se recuperando dos efeitos da crise internacional da dívida que
começara em 1982 quando o México declarou que não poderia mais atender as obrigações de sua
dívida comercial. Depois disso, as fontes voluntárias de empréstimos secaram e o financiamento
bilateral e multilateral diminuiu drasticamente. A região foi ainda mais atingida pelo aumento das
taxas de juros internacionais e a queda de preço dos produtos básicos. A crise que se se seguiu na
América Latina ficou conhecida como a "década perdida" dos anos 80. Em 1988 a Assembléia
de Governadores do BID escolheu o ministro das Relações Exteriores do Uruguai Enrique V.
Iglesias como seu novo presidente. Ex-secretário geral da CEPAL, Iglesias enfrentaria a tarefa de
incrementar os recursos do Banco no intuito de apoiar a profunda transformação econômica que a
região experimentaria na década seguinte. Ao final da década de 80, a maioria dos países
latino-americanos e caribenhos tinha adotado um novo conjunto de políticas baseadas no
mercado, com vistas à estabilidade macroeconômica, à liberalização do comércio e dos
investimentos e à modernização do Estado. Muitos dos instrumentos usados - privatização,
desregulamentação, disciplina fiscal, liberalização do comércio e do setor financeiro e reforma
fiscal - tinham sido empregados com êxito pela Primeira-Ministra Margaret Thatcher na
Inglaterra e pelo Presidente Ronald Reagan nos Estados Unidos para promover a recuperação
econômica. Segundo essas novas políticas, o setor privado, não o Estado, lideraria o crescimento
econômico. A região também corrigiria suas relações com os bancos comerciais com o objetivo
de restabelecer o acesso a empréstimos voluntários. Iglesias liderou as longas negociações
entre os países membros que resultaram no sétimo e oitavo aumentos de capital, em 1989 e 1994,
de US$26,5 bilhões e US$40 bilhões. O primeiro permitiu ao Banco conceder grandes
empréstimos setoriais para apoiar uma ampla gama de reformas econômicas nos países mutuários.
Em 1990, um dos primeiros empréstimos desse tipo apoiou a privatização pioneira da companhia
telefônica Telmex do México. O segundo aumento de capital levou a uma grande reorganização
interna do BID para equipá-lo melhor para levar a cabo seu mandato de reduzir a pobreza, ajudar
a modernizar o Estado, proteger o meio ambiente e ajudar os grupos sociais vulneráveis. Além
disso, o Banco agora tinha a base de capital que lhe permitiria autofinanciar-se. Sob a direção
de Iglesias, o Banco ampliou e aprofundou seus esforços de pesquisa, estabelecendo escritórios
especializados voltados para a investigação econômica e a análise de temas de desenvolvimento
sustentável. Durante esse período, o Banco participou em áreas de financiamento
inconcebíveis nos primeiros anos do BID. Entre elas estão projetos para fortalecer as instituições
democráticas, reformar os sistemas judiciários, promover a paz entre países e dentro deles e
conciliar governo e sociedade civil. O BID também se tornou importante proponente de ligações
econômicas entre cultura e desenvolvimento. Essa preocupação se reflete, por exemplo, nos
projetos inovadores que o Banco está financiando para revitalizar centros urbanos em decadência
nas cidades coloniais da América Latina. Os programas em pequena escala para expandir crédito a
microempresários, em que o Banco tinha sido pioneiro, expandiram-se a nível nacional através de
mecanismos inovadores de financiamento. Ao longo desse período, o BID trabalhou para
atrair novos grupos para o processo de desenvolvimento, financiando programas em que os
beneficiários participam do planejamento e execução dos projetos. Estão sendo executados
projetos inovadores para ajudar populações indígenas a preservar sua identidade cultural,
moradores de favelas a melhorar seus bairros e vilarejos rurais a manejar o custeamento e a
contratação de obras públicas. Em 1993 um grupo de países membros estabeleceu o Fundo
Multilateral de Investimentos para acelerar o desenvolvimento do setor privado ajudando a
melhorar o clima de investimentos da região. Desde então, o fundo tem apoiado os países durante
o processo de transferência das empresas e serviços de utilidade pública ao setor privado,
ajudando a elaborar, melhorar e fortalecer estruturas de regulamentação e de política
pública. Durante esta última década, o BID também ajudou os países mutuários a enfrentar
uma série de crises graves. A primeira foi a tempestade financeira desencadeada pela
desvalorização do peso mexicano em 1994. Depois vieram os estragos causados pelo fenômeno
meteorológico conhecido como El Niño e diversos furacões e terremotos. Mais recentemente, a
região teve que lidar com o efeito de contágio da desintegração econômica do Leste da Ásia e da
inadimplência da Rússia. Em resposta a essas ameaças "importadas" à saúde econômica da região,
em 1998 o Banco criou uma linha especial de empréstimos de emergência para complementar os
pacotes fiinanceiros apoiados pelo FMI e o Banco Mundial. Em entrevista publicada no
final do livro, Iglesias, que atualmente está cumprindo seu terceiro mandato como presidente, faz
um balanço das realizações e malogros da região durante a década. Na conta de crédito, ele
aponta a democracia firmemente ancorada, o controle da inflação e a abertura das economias ao
comércio e investimento internacionias. Na conta de débito, a pobreza extrema ainda amplamente
difundida, a distribuição de renda distorcida, a tenacidade dos altos níveis de desemprego e o fato
de que muitos grupos sociais não se beneficiaram da recuperação econômica. O ponto de
partida para enfrentar esses desafios é tornar as economias da região mais eficientes, argumenta
Iglesias. "Ao mesmo tempo", diz ele, "precisamos alcançar a eficiência social e resolver os
problemas sociais muito mais rapidamente do que o temos feito nos últimos anos."
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