10 de março 2002

A CRISE ARGENTINA: PERSPECTIVAS DE RECUPERAÇÃO E LIÇÕES APRENDIDAS

A crise argentina foi analizada num seminário organizado pelo Departamento de Pesquisa do BID. Os ministros da fazenda da Argentina, Chile, México e Peru participaram da primeira sessão do seminário. Na foto, da esquerda para a direita, o ministro da Economia argentino, Jorge Remes Lenicov; o presidente do BID, Enrique V. Iglesias, e o ministro da Fazenda do Chile, Nicolás Eyzaguirre.(Foto de W. Heinz)

Os ministros da Economia da Argentina, do Chile, do México e do Peru analisaram hoje, em seminário realizado no marco da Reunião Anual do BID, a crise argentina e as lições que esta oferece a outras economias da América Latina e do Caribe.

Em seu discurso de abertura, o presidente do BID, Enrique V. Iglesias, enfatizou os esforços do governo do presidente Eduardo Duhalde para vencer uma recessão que afeta a economia argentina há quase quatro anos.

“É preciso dizer que muito foi feito em setenta dias”, declarou Iglesias. “Isso demonstra a decisão do Governo argentino de adotar medidas para enfrentar a difícil situação em que o país se encontra”.

Em seu discurso, o ministro da Economia argentino Jorge Remes Lenicov, observou que seu país está enfrentando sua mais grave crise desde meados do século IX. No momento, acrescentou, quase um terço da população tem problemas de emprego e mais de 40% dos argentinos vive abaixo da linha de pobreza.

Remes disse que o governo do presidente Duhalde, que assumiu o poder em janeiro, após as renúncias de seus antecessores, está adotando medidas financeiras, monetárias, fiscais, cambiais e sociais para enfrentar a situação caótica que levou à desvalorização do peso argentino e a uma paralisia dos sistemas financeiros do país.

Em suas observações, o ministro da Fazenda do México, José Francisco Gil Díaz, apresentou aos participantes do seminário uma comparação entre as crises econômicas que afetaram seu país em 1983 e 1995.

Foram necessários seis anos para que a economia mexicana se recuperasse da crise da dívida. Em contrapartida, o país se recuperou da crise de 1995 em apenas sete meses. A principal diferença, disse Gil Díaz, foi o grau de abertura econômica nesses períodos. Na primeira crise, os mercados mexicanos estavam muito mais fechados do que na segunda, quando a indústria pôde canalizar sua produção para os mercados de exportação.

O ministro da Fazenda do Chile, Nicolás Eyzaguirre, observou que, em 1982, seu país passou por uma crise financeira semelhante à atual crise argentina. Aquele revés custou ao Chile uma queda de 15% em seu Produto Interno Bruto e uma redução de 30% na demanda interna.

Graças às reformas implementadas desde então, o Chile tem resistido a várias crises internacionais, com crescentes graus de sucesso. Em 1998, a crise da Ásia custou à economia chilena uma queda de pouco mais de 1% de seu PIB, enquanto a demanda interna caiu 10%. Mais recentemente, em meio à crise que assolou a Argentina, a economia chilena cresceu 3% e a demanda interna se manteve estável.

O ministro da Economia do Peru, Pedro Pablo Kuczynski, manifestou sua preocupação com os efeitos que as perdas sofridas na Argentina por bancos comerciais estrangeiros e empresas de utilidade pública poderiam causar em outros países latino-americanos.

Dentre as lições que extraiu da crise argentina, Kuczynski disse considerar a abertura de mercados fator crucial para assegurar uma rápida recuperação. Nesse sentido, o ministro peruano disse esperar que os impostos sobre exportações recentemente impostos pelas autoridades argentinas sejam medidas temporárias para cobrir necessidades fiscais essenciais.

“É tentador fechar a economia adotando-se medidas protecionistas, mas isso retarda a recuperação”, acrescentou Kuczynski.

No encerramento da sessão, Iglesias lembrou que os acordos que a Argentina está negociando no momento com o Fundo Monetário Internacional servirão de plataforma para cooperação futura.

“A Argentina, com base em um programa consistente e sustentável como o que começa a se conformar com os passos adotados por seu governo, poderá obter uma resposta adequada da cooperação internacional. Creio que estamos na direção certa”, concluiu.

México e BD assinam acordos de US$ 1.6 bilhão

Autoridades do México e do Banco Interamericano de Desenvolvimento assinaram hoje os contratos de três empréstimos totalizando US$ 1.6 bilhão de dólares, destinado a apoiar programas mexicanos de descentralização, capacitação profissional e combate à pobreza.

O ministro da Fazenda do México, José Francisco Gil Díaz, e o presidente do BID, Enrique V. Iglesias, assinaram os contratos de um empréstimo de US$ 1 bilhão para apoiar a expansão e consolidação do Programa de Desenvolvimento Humano Oportunidades e de um empréstimo de US$ 300 milhões destinado ao financiamento de um programa de capacitação profissional e emprego.

O Programa se baseia em ações que combatem as raízes da pobreza, a fim de romper o círculo vicioso de transmissão da pobreza de geração para geração. O Oportunidades é um programa de desenvolvimento humano que promove a co-responsabilidade das famílias beneficiárias, as quais devem manter seus filhos na escola, buscar o atendimento preventivo e a assistência das unidades de saúde e melhorar sua dieta alimentar.

O presidente Iglesias e o Diretor do Banco Nacional de Obras e Serviços Públicos (BANOBRAS), Tomás Ruiz González assinaram, ainda, os documentos de um outro empréstimo de US$ 300 milhões destinado a apoiar o programa de Fortalecimento de Estados e Municípios.

Itália considerada exemplo para pequenas e médias empresas

A Itália – e particularmente a Lombardia – é um exemplo de como o forte setor de pequenas e médias empresas pode beneficiar a economia de uma região e a sociedade como um todo, segundo conferencistas de um seminário realizado hoje em Fortaleza, Brasil.

“Na Lombardia, as pequenas e médias empresas criaram uma sociedade coesa, baseada em uma economia forte e em famílias sólidas”, disse Roberto Formigoni, presidente da região da Lombardia, no local de realização da Reunião Anual do BID.

A Lombardia sediará a Reunião Anual do Banco Interamericano de Desenvolvimento de 2003, que acontecerá em sua capital, Milão.

Falando em nome do país anfitrião da Reunião Anual de 2002, o governador do Ceará, Tasso Jereissati, também exaltou os benefícios das pequenas e médias empresas como força propulsora de crescimento econômico. O governador descreveu os esforços de se estado para adaptar o modelo italiano aos ambientes social e histórico locais.

Expressou, em particular, interesse pela forma como o Ceará poderia criar mecanismos para atender às necessidades de financiamento do setor. Há uma década, disse, havia dez bancos regionais em operação, onde as empresas podiam buscar crédito. Mas esses bancos foram adquiridos ou absorvidos por empresas internacionais, e não mais oferecem crédito a empresas de médio porte em condições aceitáveis.
Jereissati também pediu a formação de parceria entre seu estado e a Lombardia. Formigoni aceitou a proposta e disse que a pareceria será estabelecida “em bases igualitárias”.

Infra-estrutura: a chave para a integração

A integração física, concretizada por meio de obras de infra-estrutura destinadas a unir países vizinhos, é a base para a integração da América Latina, afirmou hoje o presidente do BID, Enrique V. Iglesias.

Ao abrir o seminário Integração Física e Regional: Plano Puebla-Panamá e América do Sul, realizado nesta cidade nordestina no marco da XLII Reunião Anual da Assembléia de Governadores do BID, Iglesias destacou, ainda, as vantagens que os processos de integração oferecem para acelerar o desenvolvimento econômico e social.

Em seu discurso, Iglesias observou que a integração física foi, por muito tempo, considerada uma questão ancilar nas negociações comerciais. “Hoje sabemos que, na medida em que esses esforços avançam, a integração física se torna uma questão fundamental. É mais do que apenas um acessório, é o esteio da integração. Assim foi para a Europa, e assim certamente será para nós”, acrescentou.