Ética e Desenvolvimento

BANCO INTERAMERICANO DE DESENVOLVIMENTO

Iniciativa Interamericana do Capital Social, Ética e Desenvolvimento

     Agosto 21, 2003                                                                                                                                        www.iadb.org/etica

 

"Um povo não é verdadeiramente livre enquanto a liberdade não esteja incorporada nos seus costumes e identificada com eles" 

- Mariano José de Larra

 

Perguntas? Sugestões?

alanw@iadb.org

 

Créditos

 

Coordenador Geral

Bernardo Kliksberg 

 

Coordenador Geral Adjunto

Liliana Basile


Editor

Alan Wagenberg 

 

Pesquisadora

  Mariana Pargana

 

 

Tradutoras

  Agustina Fraquelli

Mariana Pargana

 

 Redação

 Gabriel Mops

Maria Loreto Torres

 

Sistemas

Francisco Gallo

Insenção

 

SEMINARIO INTERNACIONAL
MOBILIZANDO O CAPITAL SOCIAL DO PARAGUAI E DA AMERICA LATINA
Assunção, Paraguai, 9 e 10 de outubro de 2003. 

O Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) convoca as pessoas interessadas em apresentar experiências sobre o papel do capital social no Paraguai e na América Latina. O concurso está aberto ao público geral. Os trabalhos selecionados terão a oportunidade de serem apresentados durante as mesas do Seminário. Mais informação sobre o concurso, agenda preliminar e formulário de inscrição podem ser acessados no site: http://www.iadb.org/etica

NOVOS SERVICOS DA INICIATIVA

Livros para Ler. 
Introduzimos esta sessão com críticas de obras recentes de alta relevância aos desafios éticos do desenvolvimento e a mobilização do capital social. Entre os livros resumidos estão: "Sociedade Civil Global- Dimensões do Sector Não-Lucrativo" de Lester Salomon e "A Pobreza Mundial e os Direitos Humanos" por Thomas Pogge. Este serviço pode ser acessado no seguinte endereço:
http://www.iadb.org/Etica/sp4321/DocLibros.cfm?Tipo=Libro+para+Leer&SortBy=Autores.PrimerApellido

COLECAO DE RESUMOS: O QUE ESTA ACONTECENDO NA FRONTEIRA TECNOLOGICA DO CAPITAL SOCIAL E ETICA PARA O DESENVOLVIMENTO?

"A Violência e o Capital Social nas Comunidades Urbanas Pobres. Perspectivas da Colômbia e Guatemala" por Cathy McIlwaine e Caroline O. N. Moser. 
Utilizando dados empíricos de 18 comunidades urbanas pobres na Colômbia e Guatemala, Mcllwaine e Moser investigaram a conexão existente entre a violência e o capital social. A violência é definida, neste estudo, como "a utilização de ações violentas motivadas pelo desejo consciente ou inconsciente de manter ou obter poder político, econômico ou social". Mcllwaine e Moser estabelecem, por um lado, a necessidade de desenvolver uma definição mais precisa do capital social e, por outro lado, exploram os pontos de partida potenciais para definir o papel do capital social na redução da violência e da resolução de conflitos.
http://www.iadb.org/etica/sp4321/DocHit.cfm?DocIndex=910

ARTIGO RECOMENDADO

"Na América Latina, as Crianças Levam a Pior" de Bernardo Kliksberg. 
Jornal Clarin, Argentina, 8 de agosto de 2003. 
Artigo publicado no final desta edição sobre situação grave das crianças desprivilegiadas na América Latina.

NOTICIAS

BID Promove Responsabilidade Social Empresarial na América Latina. 
O Fundo Multilateral de Investimentos do Banco Interamericano de Desenvolvimento anunciou hoje a concessão de uma doação de US$1,1 milhão à Fundação Ação Empresarial para um programa que impulsionará medidas de promoção da responsabilidade social da empresa em vários países da América Latina a fim de tornar mais competitivo o setor privado. http://www.iadb.org/NEWS/Display/PRView.cfm?PR_Num=146_03&Language=Portuguese

Desenvolvimento e os Povos Indígenas. 
O portal Development Gateway destaca os efeitos da globalização nos Povos Indígenas, coincidindo com a reunião do Grupo de Trabalho das Nações Unidas sobre Populações Indígenas celebrado em Genebra de 21a 25 de julho. Este projeto especial de doze páginas aborda temas como o impacto da AIDS nas populações indígenas e a relação entre o étnico e a pobreza. http://www.developmentgateway.org/topics/indigenous-peoples

OPORTUNIDADES

Bolsas de Inscrição para o Encontro Internacional "Capital Social: Gerador de um Mundo Melhor". 
Porto Alegre, Brasil, de 10 a 13 de setembro de 2003. 
Um total de 400 bolsas serão oferecidas para este Encontro. A bolsa cobrirá a taxa de inscrição e proverá almoços durante o evento. As bolsas serão oferecidas as primeiras 400 pessoas que se registrem através do website da Iniciativa Interamericana de Capital Social, Ética e Desenvolvimento do BID. (http://www.iadb.org/etica).

Curso: Programa de Gerência Política de Governabilidade
Equador, Guayaquil, de 5 de setembro de 2003 a 26 de fevereiro de 2004. 
O programa está dirigido a líderes responsáveis de organizações políticas, ONGs e empresas. O programa conta com o apoio da Universidade Católica de Santiago de Guayaquil, George Washington University e a Corporação Andina de Fomento. Para mais informação, favor escrever a Olilia Carlier: ocarlierr@yahoo.com

Curso de Verão "Universidade e Cooperação: Debatendo um Desafio"
Universidade Autônoma de Madrid, Madrid, Espanha, de 11 a 13 de setembro de 2003. 
Este curso pretende estabelecer um ponto de encontro e reflexão de todos os atores, capaz de favorecer o debate ao redor da cooperação universitária, analisando todos os seus ângulos e perspectivas, e chegar a uma serie de conclusões documentadas de trabalho que permitam orientar e perfilar o papel e os futuros desafios da universidade em relação ao da cooperação. http://www.uam.es/cultura/cultura/cursosverano.html

CALENDARIO

Curso "Reconstrução Social Corporativa: Como Reduzir os Efeitos Negativos no Trabalho". 
Organização Internacional de Trabalho, Torino, Itália, de 6 a 17 de outubro de 2003. 
O objetivo deste programa é ganhar conhecimento necessário para criar e implementar políticas e estratégias que ajudem a reconstrução corporativa com sucesso incorporando valores sociais. O curso será em inglês. Para maiores informações, favor visitar: http://www.itcilo.it

"V Conferência Internacional Sobre Serviço Comunitário Social"
Universidade Autônoma de Nuevo León e a Secretaria de Desenvolvimento Social, Monterrey, México, de 23 a 25 de setembro de 2003. 
Através da conferência busca-se desenvolver um modelo integral para otimizar o serviço social no México. Inscrições e registro de trabalhos para a conferência podem ser feitos pela Internet: http://www.uanl.mx/eventos/dvss ou escrevendo ao Comitê Organizador no: elnavarr@ccr.dsi.uanl.mx

LINKS DE INTERESSE

Desafios 
Boletim Informativo do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Argentina). 
http://www.undp.org.ar/boletines

Iko Poran - Programas Internacionais de Voluntariado. 
Iko Poran é uma resposta a demanda para uma melhor logística na recepção, alojamento, transportação e distribuição de voluntários internacionais. 
http://www.ikoporan.org

Pelas Crianças 
ONG que trabalha para combater a fome das crianças desprivilegiadas da Argentina. http://www.porloschicos.com

COMPARTA COM A INICIATIVA

Se você deseja compartir notícias ou eventos nas próximas edições do boletim de Ética e Desenvolvimento, você pode pedir a publicação deles através do link: http://www.iadb.org/etica/contacto.htm. Favor incluir a informação de contato, data do evento e website do evento.

LINK A OUTROS BOLETINS DE INTERESSE

http://www.iadb.org/etica/Vinculos.cfm#Boletines

PARCEIROS

* BID Juventud * CLAD * Fundación Getulio Vargas * Gobierno de Francia * Gobierno de Noruega * Institut Internacional de Governabilitat de Catalunya * IntraMed * La Sociedad Digital * OEA- IACD * PAHO * PRIGEPP * UN Volunteers *  U. Nacional de la Matanza *    U. de Oslo

 

Na América latina as crianças levam a pior parte

Bernardo Kliksberg Economista e Diretor da Iniciativa de capital social ética e desenvolvimento (BID)

Quando se confronta com os dados, se descobre que as crianças são as mais prejudicadas na América Latina. 58% das crianças menores de cinco anos de idade são pobres e o mesmo sucede com 57% das crianças entre 6 e 12 anos. Num continente com grande capacidade de produção de alimentos, 36% das crianças menores de dois anos de idade estão em situação de "alto risco alimentar".

Na América Central e mesmo na Argentina crianças morrem de fome. Isso é muito estranho com a economia num país como Argentina, que é o quinto produtor de alimentos do mundo, e onde uma em cada cinco crianças está desnutrida.

Segundo as ciências médicas, a desnutrição em idades menores de cinco anos causa déficit no desenvolvimento intelectual, doenças respiratórias agudas, doenças infecciosas em geral e pode culminar, como sucedeu na Argentina, com casos de morte. Dos 6 a 12 anos pode causar raquitismo, déficit no crescimento, vulnerabilidade e perturbação das funções do sistema nervoso.

De acordo com a Organização Pan-Americana de Saúde, 190.000 crianças latinas americanas morrem por ano de doenças relacionadas à pobreza (diarréia e doenças respiratórias).

Ninguém discute que as crianças deveriam ter o direito de estudar. Os países mais avançados conseguem que as suas crianças completem o pré-escolar, a primária e a secundária. Na América latina, apenas uma em cada cinco crianças vai ao pré-escolar e de todos que iniciam a primária, 37% dos adolescentes de 15 a 19 anos deixam a escola, quase metade deles antes de terminar a primária.

As altas taxas de abandono e repetição escolar estão concentradas em grandes números na população infantil pobre. As crianças pobres têm a mesma vontade de estudar que os demais, mas não podem. Uma parte abandona por desnutrição; outra, muito relevante, porque trabalha.

De acordo com a OIT há 22 milhões de crianças menores de 14 anos que trabalham longos dias na região. Denominam o feito de "escravidão forçada" dadas as condições lesivas a sua saúde e educação e a exploração a que são submetidos. Na Bolívia, Peru e Equador a porcentagem de crianças trabalhadoras entre as idades de 10 e 14 anos excede 20% (BID, 2002).

Uma terceira razão pelo abandono das crianças pobres é que muitos vêm de famílias desarticuladas pela pobreza. Este é um dos maiores sofrimentos "silenciosos" em que vivem diariamente as crianças latinas americanas.

O equilíbrio emocional, o desenvolvimento afetivo e psicológico, a formação de valores, a formação de uma cultura de saúde preventiva, o desenvolvimento das qualidades intelectuais básicas, tudo isso depende da família. Esta instituição é decisiva na vida e, de grande peso no desempenho institucional e macro-econômico dos países, está seriamente ameaçada na região pelo avanço da pobreza. Os ajustes sócio-econômicos agudos e o desemprego prolongado criam extrema tensão na família, e em vários casos há uma "implosão" e a família se separa. Normalmente apenas a mãe fica a frente da família. Mais de 25% dos lares latinos americanos estão nesta situação.

Na Argentina, a destruição das famílias por deterioração econômica também tem tido expressões agudas nos estratos médios. De 1990 ao 2000, as políticas aplicadas levaram a que 7 milhões de pessoas, 20% da população, caíssem da classe media a pobreza. O desemprego foi de 21% nos anos 90.

Se o quadro familiar desemboca em violência doméstica -que está em ascensão na região- os danos são extremos. Um estudo do BID na Nicarágua mostra que os filhos de famílias com violência familiar são três vezes mais propensos a assistir a consultas médicas, serem hospitalizados com maior freqüência e abandonar a escola, em media aos 9 anos de idade.

Merecem atenção especial os que são chamados "meninos de rua", já que é a expressão extrema de que algo não está certo nas nossas sociedades. Cada vez são mais os números. Encontram-se morando nas ruas de Buenos Aires, Rio, São Paulo, Bogotá e qualquer cidade importante da região. Vivem em extrema pobreza, sua saúde é ínfima e seu maltrato, extremo. Um estudo do BID em Honduras demonstra que 60% das 20.000 crianças nesta condição em Tegucigalpa sofrem de depressão e 6 em cada 100 optam por suicidar-se. 1300 crianças e jovem foram assassinados nas ruas nos últimos quatro anos, segundo denunciou a Casa Aliança, uma ONG que defende eles.

Diversos organismos internacionais lançaram uma campanha para parar de chamar eles meninos de rua; admitindo que é um termo enganador, porque parece que a rua foi escolha deles. O Padre Cesare de la Rocca do Brasil destaca: "Não existem crianças de rua, apenas crianças fora da escola, da família e da comunidade". Isso comprova que a sociedade inteira não está cumprindo com as suas funções elementares.

O verdadeiro sucesso

Provavelmente o parâmetro mais importante para avaliar se uma economia é de sucesso não são as medidas econômicas convencionais mas o que fazem pelas crianças, como asseguram os direitos indiscutíveis que lhes destina pela ética mais básica e as constituições democráticas. Muitos países da América latina estão longe de passar este teste.

É hora de que o discurso consensual sobre a infância se traslade aos feitos concretos. Necessitam-se políticas públicas que realmente sejam responsáveis de garantir a todas as crianças os seus direitos indiscutíveis de nutrição, saúde, educação e o desenvolvimento e que protejam decididamente a família.

Estamos numa encruzilhada. As políticas podem ir numa ou outra direção. Existe, por exemplo, quem prometa uma solução muito "simples" para as crianças delinqüentes, como baixar a idade para poder prender elas. Em nenhuma sociedade avançada do mundo se faz isso hoje em dia. Todo o esforço está voltado a sua reabilitação, porque está comprovado que a melhor maneira de reduzir as taxas de crianças e jovens delinqüentes é investir no fortalecimento da família, aumentar a educação e criar oportunidades de trabalho no caso dos jovens (hoje se estima que a taxa de desemprego juvenil latino americana supera 20%).

Temos que atuar com urgência. As gerações futuras julgaram a América latina mais do que qualquer coisa pelo que se fez pela sua gente, e sobre tudo, pelas suas crianças.